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“Não podemos querer fixar talento e esperar consegui-lo pagando o salário mínimo”

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Agostinho Silva é pró-reitor da Universidade de Leiria e Oeste para a Transformação Institucional e Desenvolvimento Regional. Entre 2023 e 2026 coordenou a Estrutura de Missão para o Desenvolvimento do Ecossistema Leiria e Oeste, que deu origem ao estudo “Prospetiva 2035: Três Cenários para o Futuro de Leiria e Oeste”

Como caracteriza hoje a economia do Oeste? Quais são as suas principais forças e fragilidades?
A economia do Oeste é diversificada, com setores que vão da agropecuária às atividades tecnológicas e que têm um forte potencial de complementaridade e crescimento. Essa diversidade é uma das suas principais forças. O desafio está em escalar esse potencial, criar mais valor, melhores salários e qualidade de vida para as pessoas.

Esta diversidade é uma vantagem competitiva ou dificulta a construção de uma estratégia mais forte para a região?
É precisamente nessa diversidade que reside o grande potencial de desenvolvimento. Tenho estudado o caso de Hood River e da região envolvente de Columbia River Gorge, nos Estados Unidos. É um território com uma forte tradição agrícola que, ao longo das últimas décadas, desenvolveu também um importante polo tecnológico ligado aos sistemas aéreos não tripulados, mantendo a agricultura e o turismo como atividades relevantes.
Vejo nessa dinâmica uma inspiração para o Oeste: valorizar as atividades existentes e criar condições para que novas competências, empresas e setores se desenvolvam em articulação com elas. A oportunidade está em transformar essa diversidade numa força para o desenvolvimento da região.

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O Oeste tem empresas competitivas, com forte presença nos mercados internacionais. O que é que falta para transformar esta capacidade em valor acrescentado e qualidade de vida para as pessoas que cá vivem?
É uma excelente pergunta. O estudo que deu origem ao “Prospetiva 2035: Três Cenários para Leiria e Oeste” permitiu concluir que as indústrias do ecossistema Leiria-Oeste operam, predominantemente, em atividades de baixa complexidade. Ora, atividades mais complexas e intensivas em conhecimento tendem a gerar maior valor acrescentado, criando condições para melhores salários e melhor qualidade de vida.
Precisamos, por isso, de intensificar a produção de conhecimento e a sua transferência para as empresas. É assim que podemos reforçar a sua capacidade de inovação e ajudá-las a chegar a mercados que valorizem e remunerem melhor os seus produtos e serviços.
Para termos uma ideia da diferença de escala, a Universidade de Leiria e Oeste tem hoje seis investigadores entre os 2% mais citados a nível mundial, enquanto a Universidade do Minho tem 72. Este indicador, por si só, não mede toda a capacidade científica de uma instituição, mas ajuda a perceber a distância que precisamos de vencer. Temos de reforçar muito a investigação e a sua ligação às empresas, tanto às que já existem como às que queremos atrair, procurando que tragam competências complementares às do território.
A capacidade de atrair investimento qualificado também se constrói desta forma. O Cávado e o Ave têm conseguido captar projetos relevantes, enquanto Leiria e Oeste precisa de reforçar a sua capacidade de atrair investimentos que transformem e diversifiquem a economia regional.
As empresas, à escala global, perguntam-se todos os dias onde podem ser mais competitivas. E qualificar pessoas num território não significa, por si só, que elas aí permaneçam. É necessário criar oportunidades profissionais à altura das suas competências, com trabalho estimulante, perspetivas de progressão e remunerações adequadas.
Não podemos dizer que queremos fixar talento e esperar consegui-lo pagando o salário mínimo. Para remunerar melhor, as empresas precisam de gerar mais valor. É essa ligação entre conhecimento, inovação, criação de riqueza e salários que temos de fortalecer. Sem ela, a fixação de talento fica pela intenção.

A Tekever é, até pelo mediatismo, uma empresa de referência na região. Quando se tem empresas a atingir esta dimensão, fixá-las é uma das formas de fazer crescer uma comunidade?
Sem dúvida. A Agenda de Transformação ULO2035, coordenada pela reitoria da Universidade de Leiria e Oeste, reúne mais de 1300 pessoas em 31 grupos de trabalho. Três deles vão estudar a criação de uma escola de tecnologias emergentes no Oeste. Empresas como a Tekever terão mais razões para permanecer e crescer no território se conseguirmos qualificar pessoas e produzir conhecimento à altura das suas necessidades. Essa capacidade é também essencial para atrair e desenvolver empresas complementares, como aconteceu na região de Hood River.
A saúde é outra área estratégica da Agenda. Queremos perceber de que forma a futura Comunidade de Conhecimento e Inovação do Oeste poderá integrar tecnologias da saúde e formação, eventualmente em ciências médicas. Defendo, por isso, que o futuro Hospital do Oeste deve nascer com valências de hospital universitário, articulando cuidados de saúde, ensino e investigação.

Como é que a Agenda de Transformação pretende concretizar a visão traçada no estudo Prospetiva 2035?
Em 2023, a Estrutura de Missão para o Desenvolvimento do Ecossistema Leiria-Oeste, criada pelo Politécnico de Leiria, iniciou um processo que reuniu 857 participantes e deu origem ao Prospetiva 2035: Três Cenários para Leiria e Oeste. O estudo analisou a evolução do território nos últimos 20 anos e traçou três cenários para o seu futuro.
O primeiro mostra que, se nada mudar, Leiria e Oeste continuará a afastar-se dos territórios mais dinâmicos do litoral, aproximando-se do interior nos indicadores analisados. O segundo aponta o que poderemos alcançar até 2035 com dinâmicas semelhantes às de Aveiro e do Cávado. O terceiro estabelece uma ambição maior, inspirada em referências europeias como Eindhoven, Grenoble e Leuven.
Os dois cenários de transformação exigem uma universidade de nova geração. Há uma continuidade: o Prospetiva 2035 definiu uma visão para o território; o Decreto-Lei n.º 135/2026, de 9 de julho, criou a ULO e estabeleceu a sua missão; cabe agora à Agenda de Transformação ULO2035 construir coletivamente a estratégia e o plano de ação para a concretizar, com a ambição do terceiro cenário.
A Agenda reúne mais de 1300 pessoas em 31 grupos de trabalho. O objetivo é termos, no primeiro trimestre de 2027, a estratégia para a ULO construída com o território, capaz de transformar Leiria e Oeste e contribuir para o desenvolvimento do país. O Oeste é parte essencial dessa visão. Foi por isso que tanto defendi, tal como o Sr. Reitor, a sua presença no nome da Universidade.

A criação da universidade é importante, mas por si só não basta. Que outras condições têm de estar reunidas nas empresas e nas políticas públicas, para que este modelo produza efeitos no território?
É inteiramente verdade. A universidade é um ator fundamental, mas o desenvolvimento depende da sua articulação com as empresas, as autarquias e as restantes instituições. Às empresas cabe reconhecer a investigação como fonte de inovação e qualificar a gestão. Nas políticas públicas, precisamos de continuidade, coordenação de uma visão de longo prazo territorial comum.
Temos de evitar que cada município pense o futuro isoladamente. As comunidades intermunicipais podem ser a solução, precisamos de estratégias alinhadas, capazes de criar escala e articular investimentos, infraestruturas e competências.
O Prospetiva 2035 identificou também fortes interdependências entre Leiria e Oeste e alguns municípios vizinhos. As decisões e as dinâmicas de uns têm consequências nos restantes. O território não pode ser pensado como um conjunto de ilhas: o desenvolvimento emerge das relações entre os atores do ecossistema, e a prosperidade de cada município depende também do desenvolvimento dos que o rodeiam.
Se trabalharmos em conjunto, podemos aprender com outros territórios europeus e adaptar à nossa realidade a forma como articulam conhecimento, empresas e políticas públicas. É assim que poderemos chegar a 2035 com uma trajetória de crescimento diferente da atual.

Quando se fala em inovação, pensa-se sobretudo em tecnologia, mas até que ponto as empresas da região estão preparadas para inovar também ao nível da gestão, na organização e nos próprios modelos de negócio?
A preparação das empresas passa também pela capacidade de liderança e pela abertura à mudança. Está prevista a criação, na Universidade de Leiria e Oeste, de uma Escola de Lideranças, onde as pessoas possam aprender, em qualquer momento da vida, a liderar equipas, organizações e o seu próprio percurso.
A inovação tem de fazer parte da forma como pensamos e agimos todos os dias. Abrange a tecnologia, mas também a gestão, a organização do trabalho e os modelos de negócio. Se não evoluirmos, outros avançarão mais depressa.
Queremos também que essa atitude esteja presente na formação dos nossos estudantes. Que cheguem às empresas e às organizações públicas com conhecimento, iniciativa e vontade de transformar: questionar práticas, propor soluções e melhorar a forma como se trabalha.

É também por isso que a universidade pretende estar menos centralizada e mais próxima dos territórios onde é necessária?
Sim. Uma das propostas desta transformação é criar uma escola politécnica que coordene os nossos cursos técnicos superiores profissionais, os TeSP, de nível 5, e os leve a todo o território, de Soure a Torres Vedras.
Queremos que estes cursos respondam às necessidades das organizações públicas e privadas e estejam articulados com os cursos profissionais, podendo funcionar nas próprias escolas profissionais. O objetivo é integrar também estas escolas nos ecossistemas de inovação e criar percursos de continuidade para os seus estudantes.
Queremos ainda envolver como formadores antigos estudantes nossos com experiência profissional que vivem nestes territórios. É uma forma de os aproximar da universidade, reconhecer as suas competências e valorizar as comunidades onde estão inseridos.
A nossa ambição é que, dentro de poucos anos, todos os municípios do nosso ecossistema tenham acesso local ao ensino superior através dos TeSP.

A inteligência artificial e a automação estão a avançar a grande ritmo. Isto representa uma oportunidade para as empresas da região, ou existe o risco de aumentar as diferenças na velocidade a que estes territórios crescem?
É uma grande oportunidade, mas existe o risco de agravar as diferenças entre empresas e territórios. Na minha experiência com estudantes, tenho observado que quem utiliza a inteligência artificial de forma crítica consegue ir mais longe; quem a usa para substituir o esforço de aprender, tende a comprometer a sua aprendizagem. Nas empresas, pode acontecer algo semelhante: a diferença estará na capacidade de integrar estas ferramentas com conhecimento e critério para se transformarem.
Perguntam-me frequentemente até que ponto a inteligência artificial nos pode substituir. Vejo-a como uma ferramenta que fará cada vez mais parte do nosso trabalho e que reforça a importância do julgamento humano. Cabe-nos formular os problemas, questionar as respostas e integrar diferentes perspetivas numa visão coerente. A inteligência artificial pode apoiar a análise de cada dimensão, mas precisamos de conhecimento para avaliar os resultados e assumir a responsabilidade pelas decisões.
Os problemas complexos não se resolvem com um olhar limitado a uma única área do conhecimento. Uma pessoa com doença hepática não se resume ao seu fígado: o tratamento exige compreender como a doença se relaciona com o organismo, os hábitos e as condições de vida. É essa capacidade de cruzar conhecimentos e integrar perspetivas que permite encontrar respostas mais adequadas.
Nas empresas, como na saúde, a tecnologia deve ter um propósito claro: melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Faltam oito anos para se atingir o horizonte temporal do estudo Prospetiva 2035. Onde é que gostava que a região estivesse do ponto de vista económico, do seu desenvolvimento, em 2035?
Gostava que, em 2035, Leiria e Oeste tivesse recuperado o dinamismo e estivesse a aproximar-se dos territórios mais desenvolvidos do país. Sinto que perdemos 15 a 20 anos em que poderíamos ter avançado mais. Primeiro, precisamos de inverter essa trajetória de perda relativa; depois, de crescer mais depressa para recuperar a distância.
Acredito que temos condições para isso. Este território tem uma forte densidade industrial, capacidade empreendedora e um saber-fazer acumulado que precisamos de valorizar. Se colocarmos esse ADN ao serviço da inovação, da economia e, sobretudo, das pessoas, poderemos chegar a 2035 com melhores salários, mais oportunidades e maior qualidade de vida.
Para isso, os municípios têm de alinhar estratégias para ganharem escala e construir uma visão de longo prazo que ultrapasse ciclos eleitorais, cores políticas e interesses particulares.
A universidade deve afirmar-se como a âncora desse ecossistema: qualificar pessoas, produzir conhecimento de fronteira e transformar esse conhecimento em impacto no território e no país.

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