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João Gomes – O médico que gosta de ouvir os pacientes

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Natural da ilha da Madeira, João Gomes está há 25 anos nas Caldas e é reconhecido pelas competências técnicas, mas também pela sua personalidade

João Gomes nasceu na ilha da Madeira há 61 anos e desde criança que dizia que queria ser médico. Não tinha familiares na área da medicina, mas tinha esse interesse. “Principalmente o meu pai achou muito boa ideia, apesar de ele não ter frequentado o ensino superior, conhecia algumas pessoas que tinham vindo da Madeira para o continente fazer cursos superiores, que não eram muitas, e apoiou logo a ideia”.

Assim, com 18 anos, João Gomes veio para Lisboa, onde entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e no Hospital de Santa Maria, onde queria trabalhar. Teve ainda uma oportunidade para ir para Coimbra, tendo uma proposta para tal, mas recusou. “Queria ir para o Hospital de Santa Maria e assim foi”.

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Desses tempos recorda que tinham “as suas dificuldades”, entre as quais, a principal, que era o estar sem a família. Inicialmente, a fase mais teórica do curso também não foi fácil ao nível da motivação, mas nesse momento, reconhece, o apoio dos pais foi fundamental para continuar, algo que agradece, porque “desistir era o pior que podia ter feito”. Analisando hoje, considera que “correu tudo muito bem”.

Acabou o curso em 1992 e, no ano seguinte, decidiu regressar à Madeira, até porque “para quem é das ilhas é sempre um dilema entre ficar no continente ou voltar para a ilha”, nota.

De volta a casa teve a oportunidade de fazer o internato geral no hospital onde nasceu, no antigo Hospital dos Marmeleiros, na freguesia do Monte, de onde é natural.

Por Lisboa tinha conhecido a sua mulher, também ela… madeirense. Em 1994 casaram, na Madeira.

Mas o jovem médico ainda não tinha, nesta fase, decidido a especialidade que seguiria, com a Medicina Interna e a Medicina Geral e Familiar a serem os dois caminhos mais apelativos.

Em 1998 voltaram para o continente, ainda sem filhos, para fazer a especialidade de Medicina Geral e Familiar no Centro de Saúde da Lousã, enquanto estagiava nos Hospitais de Coimbra.

A escolha pelas Caldas
Ao fim de três anos, e com a especialidade concluída, foi momento de tomar uma importante decisão familiar: o sítio que escolheriam para viver. “Decidimos ficar no continente, numa zona central”, conta, recordando as dificuldades que sentiram por serem da ilha, com as viagens, etc. Já com filhos, foi a pensar neles que procuraram uma zona central do país, que permitisse que os filhos ficassem perto deles quando fossem para a universidade.

Ainda pensaram no Algarve, porque o clima é mais parecido com o da ilha, mas um anúncio no jornal Expresso de uma casa nas Caldas da Rainha lançou a ideia de viver nesta cidade.

E assim foi. Em 2001, portanto, há 25 anos, vieram morar para as Caldas da Rainha, que “é uma boa zona e uma boa terra” e que foi “muito bem decidido”.

Nesse ano começa a fazer os primeiros trabalhos para o Montepio Rainha D. Leonor, onde fica a trabalhar no ano seguinte. Foi aqui que se tornou conhecido das pessoas. “Foi a minha base, apesar de trabalhar sempre noutros locais”, reconhece, mostrando-se orgulhoso de trabalhar numa instituição com mais de 160 anos. “É o sítio mais carismático”, frisa.

Também nesse ano começa a trabalhar em lares de idosos e na Clínica de Hemodiálise, nas Gaeiras. Hoje em dia, já não trabalha em lares, mas além das Gaeiras, trabalha na clínica de hemodiálise de Rio Maior.

“Gosto de viver aqui, adotei as Caldas como minha casa”, afirma o médico, admitindo que se emociona sempre que regressa à ilha. E, mesmo as duas filhas e o filho, que nasceram em Coimbra, “todos adotámos as Caldas como nossa terra”. A beleza, a calma, o facto de as pessoas serem afáveis e a localização central foram e são atrativos.

O acompanhamento ao longo da vida
Na cidade termal, ao longo de 25 anos a exercer a sua especialidade, João Gomes tem tido a oportunidade de acompanhar vários caldenses ao longo da sua vida, que “é algo muito giro, ver essa evolução”. No seu consultório entram hoje adultos, casados e com os filhos, que foram, em criança, tratados por ele. “É engraçado recordar”, admite, acrescentando que esse é um lado muito gratificante do seu trabalho.
Sobre o segredo para a sua popularidade, atestada nas filas que se fazem no Montepio Rainha D. Leonor nos dias em que dá consulta, João Gomes diz que, melhor do que ele, saberão os pacientes, mas que também tem a sua ideia. “Acho que há coisas que não se estudam, a pessoa é como é”, aponta, notando que não faz “esforço nenhum”.

É que, por vezes, “ser amigo, dar uma palavra para que a pessoa se sinta melhor” não custa nada e “é excelente”. João Gomes salienta que esta forma de estar na vida é algo que é “inato em mim e se, com isso, eu for útil, está excelente”, diz.

Mas um dos principais “segredos” é o “saber ouvir, com atenção”, até porque recorda-se de vários casos em que algum pormenor que foi dito pelo paciente durante uma conversa acaba por ser depois fundamental no momento do diagnóstico e da decisão. “Gosto de não colocar barreiras”, esclarece. “As pessoas é que estão consigo 24 horas por dia, eu estou com a pessoa poucos minutos”, nota, frisando que essa escuta ativa “não é perder tempo, é ganhar”.

“Eu achava que era reservado e tímido, mas descobri que, estando a exercer a minha profissão, penso que consigo comunicar bem com as pessoas, gosto de ouvir as pessoas, com atenção, e descobri que gosto de pessoas”, afirma o clínico.

Ao longo destes anos guarda, por exemplo, os momentos em que alguns pacientes lhe agradeceram por lhes ter salvo a vida, que “em geral, é exagerado”, diz. Mas numa profissão como esta também há momentos complicados, que marcam negativamente, como uma paciente que faleceu de mão dada com o médico, num caso em que não havia já nada a fazer para a salvar.

A paixão pelo futebol
João Gomes tem também uma grande paixão pelo desporto e, em particular, pelo futebol. Adepto do Benfica e do Marítimo, é ainda mais adepto de jogar futebol com os amigos. “Não deixo de jogar para ver seja o Benfica, o Marítimo ou o Mundial, quero é jogar!”, exclama.
Mas o futebol é uma paixão antiga que… até podia ter estragado a carreira de médico! O episódio deu-se no 9º ano de escolaridade, quando o professor de Educação Física de João Gomes o convidou para ir treinar no Marítimo. O jovem João Gomes ficou entusiasmado, mas o pai foi, no dia seguinte, à escola dizer que agradecia o convite, mas para esquecerem que o seu filho não ia aceitar porque queria ser médico e “foi uma grande opção, porque hoje faço o que gosto e adoro fazê-lo e se fosse jogador de futebol eu não teria sido um Cristiano Ronaldo”, brinca. Hoje, “faço o que mais gosto ao ser médico e continuo, aos 61 anos, a jogar futebol com os amigos e espero jogar mais 10 ou 20 anos”.

No mundo do desporto, além do futebol, o médico gosta de ciclismo. Em casa gosta de fazer bricolage e jardinagem, mas também de tarefas quotidianas, como cortar a lenha. O contacto com a natureza, com o mar, os rios, cascatas e levadas é outro dos grandes interesses de João Gomes nos tempos livres.

Os automóveis antigos são também uma paixão. E, embora não se considere um bom garfo ou alguém que anda sempre à procura de iguarias, surpreende-o a diversidade gastronómica do país, descrevendo-se como “um apreciador”.

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