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Autarcas querem novo hospital e respostas à “dimensão” da região

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O presidente da Câmara das Caldas, Vítor Marques, espera que na próxima década o Governo e o Estado Central “possam concretizar o que são promessas de há muitos anos, começando pela construção do novo hospital”. Espera mesmo que o hospital esteja concluído em menos tempo, pois ele é, “de facto, uma necessidade”. Para além deste novo equipamento, o presidente da Câmara reclama a necessidade de investimento nas unidades existentes, nas Caldas, Peniche e Torres Vedras, “que são complementares uns aos outros e fazem falta para toda a nossa região”.
E, apesar das condições destes hospitais “poderem ser menos boas, não podemos aceitar, em momento algum, que sejam subtraídas quaisquer das valências”, salienta o autarca, fazendo notar que atualmente já têm bastantes problemas com um conjunto de serviços que vão fechando, ciclicamente, todas as semanas”. Além da necessidade de acabar com as suspensões de determinados serviços o autarca garante que não irá admitir “a perda de algumas das valências”, referindo-se à Obstetrícia e Maternidade, lembrando, inclusive, o investimento feito pelo município para a sua manutenção.
Vítor Marques anseia também por melhorias ao nível da resposta dos cuidados de saúde primários num concelho que tem mais de 25mil utentes sem médico de família. Espera que a criação da nova USF Modelo C possa ser um contributo para minimizar este problema. A resposta, na sua opinião, virá também da parte dos privados, nomeadamente da CUF e Luz Saúde, que se querem instalar no concelho e que, a par do Montepio Rainha d. Leonor, serão uma solução para grande parte da população que possui seguros de saúde. No campo do termalismo, está prevista a construção de um novo balneário termal, com oferta terapêutica e de bem-estar.
O autarca dá ainda nota da aposta que o município está a fazer na área da formação, cedendo instalações e apoio logístico para o funcionamento (a partir de 6 de outubro) de quatro TEsP, relacionados com a área da saúde, e a previsão de abertura, em 2027, de duas licenciaturas também nesta área.
Já o seu colega da Câmara de Óbidos, Filipe Daniel, espera que a próxima década represente uma mudança efetiva no acesso à saúde no Oeste, com investimento continuado em instalações, equipamentos e, sobretudo, profissionais. “Precisamos de uma estratégia que acompanhe o crescimento da população, o envelhecimento e a procura acrescida associada a quem nos visita, preparando a região para as necessidades das próximas gerações”, disse à Gazeta das Caldas.
A concretização do Novo Hospital do Oeste é uma “prioridade estrutural”, defende, exigindo um calendário credível, financiamento assegurado e uma capacidade assistencial ajustada à região. De acordo com o autarca, o investimento deve traduzir-se em maior diferenciação clínica, acesso mais rápido às especialidades, meios de diagnóstico e tratamento adequados e equipas estáveis. Áreas como a saúde materno-infantil, a saúde mental, a oncologia, a cardiologia e a reabilitação devem merecer particular atenção no planeamento do novo equipamento, que também deve “integrar uma forte componente académica”.
Em relação ao projeto, Filipe Daniel entende que este deve compreender, desde a sua fase inicial, as necessárias acessibilidades rodoviárias, bem como uma rede de transportes públicos “abrangente, eficiente e articulada”.
Mas, enquanto o novo hospital não é construído, é preciso dar respostas à população, que passam pela recuperação da “capacidade dos cuidados de saúde primários, reforço das unidades existentes e o aproximar consultas, exames e acompanhamento das comunidades, recorrendo também à teleconsulta e à colaboração das farmácias comunitárias”. Para o autarca, a complementaridade com o setor privado deve ser “assumida, sem preconceitos, sempre que garanta uma resposta atempada”. A reativação das extensões de saúde, para acolher consultas, rastreios e meios complementares de diagnóstico e a prevenção e a promoção da saúde são outras medidas defendidas.
O reforço da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados para dar resposta ao envelhecimento demográfico é também uma resposta que o autarca espera ver concretizada no futuro. Mas para tudo isso são necessários profissionais, acrescenta, realçando que “mudar o modelo organizativo de uma unidade, por si só, não garante os profissionais necessários”.
O autarca da Nazaré, Serafim António, espera que, na próxima década, o Governo avance com uma resposta estrutural para a saúde no Oeste, nomeadamente com a concretização do Hospital do Oeste. “Enquanto isso não acontece, é fundamental reforçar efetivamente os hospitais de Caldas da Rainha e de Alcobaça, quer em meios, quer em profissionais”, salienta
No caso concreto da Nazaré, é “fundamental acompanhar os investimentos previstos para a ULS da Região de Leiria, nomeadamente a ampliação do Hospital de Santo André, em Leiria, identificada pela própria ULS como estratégica para responder às necessidades atuais e futuras da população”.
Para Ricardo Fernandes, presidente da Câmara do Bombarral, a prioridade é “o novo Hospital do Oeste”. O autarca considera que a região cresceu em população e investimento sem que a resposta hospitalar acompanhasse essa evolução, mantendo-se unidades dispersas, instaladas em edifícios antigos e com limitações.
O presidente da Câmara do Bombarral defende que a discussão sobre a localização do novo hospital deve dar lugar a um calendário, financiamento e obra. Recorda que o estudo técnico realizado pela Universidade NOVA de Lisboa, por iniciativa da Comunidade Intermunicipal do Oeste, apontou o Bombarral como a localização que melhor serve o conjunto da população da região e que, por isso, é no concelho que lidera que o equipamento deve ser construído.
Mas a resposta para a próxima década não passa apenas pela construção de novas infraestruturas. Filipe Sales, presidente da Câmara de Peniche, considera que o Oeste tem de passar de uma lógica de gestão de insuficiências para a construção de respostas “à dimensão” da região. E coloca os cuidados de saúde primários no início dessa mudança, defendendo mais médicos de família e maior capacidade dos centros de saúde.
O autarca de Peniche chama igualmente a atenção para a necessidade de valorizar e fixar profissionais nas estruturas hospitalares existentes. Na sua leitura, as dificuldades e encerramentos de serviços por falta de profissionais mostram que o problema não passa apenas pela existência de hospitais, mas pela capacidade de atrair e manter quem neles trabalha.
Estes dois presidentes convergem na necessidade de reforçar a intervenção dos municípios, mas estabelecem limites para essa colaboração. Ricardo Fernandes lembra que o Bombarral criou incentivos à fixação de clínicos e trabalhou com a Santa Casa da Misericórdia para garantir médicos no concelho. Filipe Sales recorda a intervenção de Peniche na resposta ao risco de encerramento da urgência local, mas sublinha que a disponibilidade dos municípios para ajudar “não pode transformar-se numa transferência permanente para o poder local de responsabilidades que cabem ao Estado”. “Queremos ser parceiros. Queremos ajudar. Queremos continuar a dizer ‘presente’”, afirma o edil penichense, defendendo, contudo, que um SNS forte não pode depender da capacidade financeira ou da iniciativa de cada município.
A “linha vermelha” na saúde
“Não gosto de dramatizar, mas também não podemos normalizar aquilo que não é normal”, responde Ricardo Fernandes, presidente da Câmara do Bombarral, à questão sobre se o Oeste já atingiu a “linha vermelha” na prestação de cuidados de saúde.
Para o autarca, a dificuldade em encontrar acompanhamento médico próximo, a necessidade de percorrer dezenas de quilómetros para aceder a determinados cuidados hospitalares e a incerteza perante situações graves não podem ser encaradas como normais. A prioridade imediata passa, por isso, por garantir profissionais e reforçar os cuidados de saúde primários, seguindo-se o aumento da capacidade e diferenciação hospitalar.
Filipe Sales, presidente da Câmara de Peniche, considera que se ultrapassou o limite quando situações como a falta de médico de família, o encerramento de uma urgência ou a necessidade de percorrer dezenas de quilómetros para obter cuidados passam a ser encaradas como normais. “Essa normalização é aquilo que temos de recusar”, afirma.
Os cuidados de saúde primários surgem como prioridade comum aos autarcas do Bombarral e de Peniche. Filipe Sales defende mais médicos de família, maior capacidade de resposta e condições para fixar profissionais no Oeste, considerando que uma rede de proximidade mais forte contribuirá igualmente para reduzir a pressão sobre as urgências hospitalares.
Ricardo Fernandes acrescenta que “o problema não está nos profissionais”, mas numa estrutura de saúde que não acompanhou o crescimento da região. Filipe Sales aponta, por seu lado, para a necessidade de valorizar as carreiras e as condições de trabalho como condição para atrair e fixar profissionais.
Embora reconheça que o Oeste “não é uma realidade homogénea” e destacando que existem profissionais que, em condições exigentes, asseguram diariamente respostas fundamentais, o presidente da Câmara de Óbidos considera que “há concelhos e populações para os quais essa linha [vermelha] já foi ultrapassada, sobretudo no acesso regular a um médico de família e na continuidade dos cuidados de proximidade”.
Óbidos é um “exemplo dessa desigualdade”, revela o autarca, dando conta que a totalidade dos 8.328 utentes inscritos na UCSP de Óbidos não tem médico de família atribuído. “Esta situação não significa que estejam privados de todos os cuidados, mas representa uma falha grave no acompanhamento regular, na prevenção e na gestão da doença crónica, sobretudo numa população cada vez mais envelhecida”, sustenta. Para minorar essas dificuldades, o município investiu, desde janeiro de 2024, cerca de 700 mil euros no Plano Óbidos + Saúde, para assegurar consultas e cuidados de enfermagem de proximidade.
Mais otimista, o autarca caldense acha que a região ainda não atingiu a “linha vermelha” ao nível da prestação dos cuidados de saúde à população, mas “preocupa-me o Estado por umas coisas que estão e julgo que estamos a caminhar a passos largos para a atingir”, refere.
Na opinião do presidente da Câmara da Nazaré, as dificuldades “são conhecidas e não podemos aceitar que se agravem”. Entende que o mais urgente é reforçar o SNS com médicos, enfermeiros e outros profissionais, garantindo capacidade de resposta e acesso atempado aos cuidados de saúde. “Este é um problema que atravessa o Oeste e, de forma mais abrangente, todo o país”, considera.
Gazeta das Caldas contactou também os municípios de Alcobaça e Cadaval, mas não foi possível obter uma resposta até ao fecho da edição.

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