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Cem anos ao serviço de uma comunidade

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Abrir as páginas da Gazeta das Caldas, de forma serena, e ler as notícias da cidade e da região onde vivo há muitos anos é um ritual semanal que, de forma natural, ganhou o estatuto de obrigatório.
De certa forma, esta relação que eu e muitos outros leitores estabelecemos com a Gazeta das Caldas, explica a origem do jornal, a necessidade de expressão de uma voz local e regional.
Foi a partir de outubro de 1925 que as Caldas da Rainha passaram a ter uma voz própria e, logo de início, com uma linha editorial fortemente regional.
Um século é muito tempo na vida de um jornal em particular em períodos mais exigentes da nossa história coletiva: a ditadura e a censura, a Revolução de Abril, a construção da democracia ou a integração europeia.
Resistir cem anos é, por si só, um feito que merece o reconhecimento do País. Conheço, por experiência própria, o valor de um jornal de proximidade.
Ainda jovem, fundei com amigos A Verdade de Penamacor. Aprendi, então, que um jornal local é um instrumento fundamental para a afirmação de uma comunidade, em particular nos territórios de baixa densidade populacional. Porque, em última instância, é um dos principais instrumentos na luta contra a indiferença dos centros de decisão nacionais em relação às regiões periféricas.
A imprensa regional é um pilar da nossa democracia. É através dela que os cidadãos acompanham as decisões que mais diretamente os afetam, que o poder local é escrutinado e que ganham voz aqueles que raramente encontram espaço nos meios de comunicação nacionais. É também ela que preserva a memória, a identidade e a cultura de cada território, contribuindo para a coesão do País.
Apesar da sua relevância e de, muitas das vezes, ser a única voz da região, a imprensa regional confronta-se com desafios dramáticos para garantir a sua subsistência. A concorrência digital, a perda de hábitos de leitura, a fragilidade económica das redações e o impacto crescente da inteligência artificial, que se apropria do trabalho jornalístico sem lhe devolver leitores, são exemplos de alguns desses desafios que se transformam em ameaça à continuidade de muitos títulos.
Nenhum algoritmo substitui o conhecimento da aldeia, da rua ou do bairro que nos identificam. Com uma agravante: o algoritmo privilegia as mensagens e os meios com muito tráfego e ignora os que têm pouco alcance. É essa a sua função primeira.
Quando um jornal local desaparece, perde a comunidade e perde a democracia.
Defender a imprensa regional é, por isso, uma responsabilidade partilhada. Cabe aos poderes públicos assegurar condições de sustentabilidade que respeitem a independência editorial. Cabe às escolas formar novos leitores. E cabe a cada cidadão ler, assinar e valorizar o jornal da sua terra.
A Gazeta das Caldas chegou aos cem anos porque nunca lhe faltaram pessoas que nela acreditaram: jornalistas, colaboradores, cooperantes, anunciantes e, acima de tudo, leitores. Essa persistência é o melhor fundamento para a esperança no futuro.
Com o reconhecimento da República, felicito a Gazeta das Caldas e toda a sua comunidade de leitores. Que continue, por muitos anos, a servir as Caldas da Rainha e a sua região.

Palácio de Belém, setembro de 2026

António José Martins Seguro

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