Médico ginecologista dedicou vida profissional a ajudar caldenses a nascer

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1986
Estevão Ferreira ainda faz consultas três manhãs por semana

Nasceu em Coimbra em 1946, e quando acabou o ensino secundário, ainda pensou em seguir engenharia eletrotécnica. Fernando Estevão Ferreira acabou por se inscrever em Medicina, foi bolseiro e acabou o curso em 1970 tendo sido logo convidado para ser assistente de um dos seus docentes.
Formado aos 23 anos, foi com 24 anos mobilizado para Moçambique, em janeiro de 1973, e partiu como alferes miliciano médico. “Só estive 23 meses no Ultramar pois felizmente a guerra acabou”, disse o médico. Esteve em Chemba e lembra que o próximo médico estava a 500 quilómetros e o percurso tinha que ser feito de helicóptero ou por picada (caminhos de terra batida), o que levava um dia inteiro.
“Eu era o único naquele sítio e ainda não sabia, na prática, de obstetrícia”, comentou o médico que era diretor do hospital e delegado de saúde daquela área.
“No hospital aparecia-me de tudo”, disse o médico que c que tinha alguma experiência em cirurgia e que se estreou a fazer uma cesariana. Fê-lo com a ajuda de um soldado que lhe lia o que tinha que fazer, seguindo um tratado de ginecologia que levou para Moçambique.
Na altura, o jovem médico foi acompanhado pela sua mulher e filha mais velha. O seu segundo filho nasceu na Beira, em Moçambique.
Voltou a Portugal em fins de novembro de 1974 e inscreveu-se para fazer a especialidade de Ginecologia-Obstetrícia em Coimbra.
Nos anos 80, já com a especialidade acabada, Estevão Ferreira concorreu para os centros hospitalares que naquela época abriam as suas portas e queriam colocar especialistas.
O médico mencionou também o seu colega Mário Mendes “a quem devemos todo o esquema do Serviço Nacional de Saúde, uma vez que escreveu o ante-projeto e as questões legais que permitiram a sua criação”.
“Vim para as Caldas pois estava entre Lisboa e Coimbra”, disse o médico, lembrando que o seu colega Manuel Custódio Maldonado “recebeu-me de braços abertos e até me ofereceu equipamento para o meu consultório”, disse. E também se sente grato pela forma como foi acolhido por Ernesto Moreira e por Mário Gonçalves que sempre se ofereceram para o auxiliar quando era um recém-chegado à cidade termal.
No início da sua carreira contou também com o auxílio de vários médicos, seus professores e a quem ligava a meio das consultas e “que me ajudavam pois tinha mais 10 ou 15 anos de experiência do que eu”.
Já nas Caldas, ingressou no hospital em 1981. Estevão Ferreira partilhou que “não só ajudei a nascer muitos bebés como a “fazer” muitos também, através de tratamentos de esterilidade”.
Em média na maternidade do Hospital das Caldas eram feitos 1500 partos por ano. “Éramos dois médicos ginecologistas e dividíamos a semana”, contou. Fazia a manhã no hospital e, à tarde, ia para o seu consultório que funcionou durante vários anos na Rua das Montras.
Começava a consulta privada às 15h00 mas interrompia sempre que era chamado ao hospital, sobretudo quando algo não estava bem. E as pacientes do consultório tinham que aguardar. “Cheguei a atender às duas da manhã”, recordou o ginecologista, relembrando que durante vários anos trabalhou intensivamente, tendo feito quatro, cinco e até seis partos por dia.
Quando descobrriu que o Hospital caldense tinha um ecógrafo, Estêvão Ferreira logo quis aproveitar o equipamento, tendo convencido um colega seu a vir de Coimbra para o ensinar a utilizá-lo.
“Até comprei um outro para o meu consultório”, contou o ginecologista que tirou formação especializada.
Outra das suas inovações foi a informatização dos serviços por onde trabalhava, no hospital e na sua clínica. Depois de ter funcionado na Rua das Montas, a clínica situou-se próximo dos Bombeiros e há 10 anos que se localiza na R. Padre António Emílio.
No hospital caldense, Estevão Ferreira fez carreira, tendo sido assistente graduado e chefe de serviço. Em 2000 com a saída do médico Paulo Monteiro, Estevão Ferreira passou a diretor geral.
O quadro clínico da maternidade aumentou e “passámos a ser oito médicos”, recordou o obstetra.
O ginecologista não concorda com a interrupção voluntária da gravidez, ou melhor, “o que não posso aceitar é que o façam com regularidade”. Na sua opinião há vários métodos contraceptivos e diz-se objetor de consciência recusando-se a fazer as interrupções.
E quando começaram a pressionar os médicos para diminuir o tempo de consulta com os pacientes, Estevão Ferreira não ficou satisfeito. “Não conseguia fazer as coisas à minha maneira…”, disse o obstetra que tinha que aumentar o número das consultas, diminuíndo o tempo com as pacientes. Algo que não estava de acordo dado que “uma pessoa vai a uma consulta de ginecologia vai também a uma outra de psiquiatria”. O médico acha que “devemos dar à doente o tempo que ela precisa”. Uma paciente que vem pedir conselhos sobre a contracepção “tem que se ter tempo e explicar bem cada um”, disse.
Na parte da obstetrícia salienta os momentos felizes quando as famílias vêem as ecografias, que foram evoluindo e hoje são a 4 dimensões e a cores. “É como se fosse um mini-filme do bebé”, referiu o médico que acabou por se reformar do hospital das Caldas em 2005, tendo passado a trabalhar o dia todo na sua clínica.
“Aí sentia-me realizado e sem controlo no limite de tempo das consultas”, disse.
Na sua opinião, acha que foi feita alguma adaptação do hospital das Caldas em termos de tecnologia “mas não a necessária”.
Em relação ao pessoal médico “perdeu-se a oportunidade de ter um quadro médico necessário e suficiente”. As urgências “funcionam com médicos tarefeiros que não prestam o mesmo tempo e cuidado ao paciente”, referindo que o recurso a estes profissionais deveria ser “apenas uma solução de remedeio”.
O médico lamenta que não haja quadros médicos suficientes e acrescenta que é “uma aflição ver as pessoas em macas pelos corredores”.
Na sua opinião, não deveria haver limite de vagas de acesso às faculdades de Medicina. Além do mais, considera que os médicos têm que ser mais bem pagos. “Em 2001 um assistente meu de obstetrícia informou-me que iria sair do serviço público para o privado pois iria fazer a mesma coisa e ganhar três vezes mais”, recordou o ginecologista que também acha que a exclusividade não foi “uma boa solução” sobretudo para as especialidades que trabalham com pacientes.
Os enfermeiros “também são poucos e todos deviam ser mais bem pagos”. Caso contrário, continuarão a rumar para outros países onde são valorizados e onde recebem melhores salários”.
Estevão Ferreira conta que esteve sempre à disposição quando precisavam dele no hospital, sobretudo enquanto diretor. De noite, de dia e ao fim de semana era chamado quando havia alguma complicação.
O médico acha que em Portugal se valoriza mais um jogador de futebol do que um bom profissional da área da medicina.
Para o médico era ainda preciso aumentar o espaço do hospital e lamenta o encerramento da maternidade. Dos 1500 partos com dois médicos “quando passámos a ser oito, havia uma média de 600 partos por ano”.
Logo é com tristeza que vê a maternidade das Caldas fechada sobretudo porque “era a mais importante desta zona”, já que recebia as parturientes da Nazaré, Alcobaça, Rio Maior, Cadaval e Bombarral.
“Agora estamos mais limitados na área de influência”, disse o ginecologista que lamenta a situação. “Acho que é necessário outra vez um Mário Mendes para reorganizar de novo os serviços do SNS”, rematou.
Estevão Ferreira conta que faz três manhãs de consulta, “o que é o suficiente para me manter ativo”.
Quando era novo Estevão Ferreira fazia musculação. Atualmente gosta de fazer caminhadas e de nadar.
Aprecia a leitura, sobretudo das áreas do romance e de ficção cientifica. Leu toda a obra de José Rodrigues dos Santos e também de Dan Brown. Tem dado atenção aos livros do seu colega espanhol, Manuel Sans Segarra, que escreve sobre a possibilidade do espírito persistir além da vida.
Estevão Ferreira, que irá completar 80 anos este mês, gosta de ir à Foz e recordou com carinhoLuís Manuel Taraio, o pintor e seu cunhado que lhe fez o retrato.
Entre as últimas operações que fez no hospital das Caldas contam-se as cesarianas da filha e de uma das suas noras, tendo ajudado a nascer o seu neto mais novo.
O ginecologista – que tem pecientes mães e filhas – sente-se acarinhado pela comunidade e recentemente foi homenageado pelos Rotários. Estevão Ferreira é parado na rua por antigas pacientes que o querem cumprimentar pois “o senhor ajudou-me a pôr dois filhos neste mundo!”.

Retrato do médico, feito nos anos 90, por Manuel Taraio
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