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O novo Hospital do Oeste “tem de ser assumido como um desígnio nacional”

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O bastonário da Ordem dos Médicos defendeu que o Oeste precisa de um novo hospital público, moderno e diferenciado

O sr. Manuel reside na Roliça, concelho do Bombarral e, como tantos idosos no país, vive sozinho e tem várias doenças que precisam de acompanhamento. Sobre a cómoda, guarda as embalagens dos medicamentos, os papéis das consultas e uma requisição de exames. Há meses em que o dinheiro chega com dificuldade e em que deixa na farmácia o medicamento que precisava de levar. Quando ouve falar de uma reforma da saúde, quer perceber o que vai mudar na sua vida: se vai conseguir uma consulta? Quem o ajudará a compreender a medicação? Como chegará ao hospital ou a quem poderá recorrer se se sentir mal durante uma noite? Foi com esta história, fictícia, que o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, iniciou a sua intervenção, sublinhando, que estas são as respostas que têm que ser dadas aos cidadãos. E os números dão dimensão a estas perguntas: nos oito concelhos abrangidos pela ULS do Oeste, em finais de 2025 havia quase 257 mil utentes inscritos nos Cuidados de Saúde Primários. Destes, quase 120 mil não tinham médico de família atribuído, ou seja, mais de 4 em cada 10 pessoas. Na mesma data, esta unidade local de saúde contava com 257 médicos e 98 médicos internos (em formação), chamando a atenção para a pressão que estes profissionais sofrem e a urgência de se criarem condições para reforçar estas equipas.
“O Oeste tem de ser uma prioridade nacional”, defendeu o bastonário, realçando que a dimensão das suas necessidades e o número de pessoas sem médico de família exigem respostas proporcionais. No CCC, onde participou na sessão pública sobre Cuidados de Saúde para os próximos 10 anos, organizada pela direção da Sub-Região de Saúde da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes defendeu que o Oeste precisa de um novo hospital público, moderno, diferenciado e preparado para as necessidades das próximas décadas. “Este projeto tem de ser assumido como um desígnio nacional”, sustentou, lembrando que esta solução recolheu um “apoio muito expressivo” na reflexão feita por dezenas de médicos, reunidos em Óbidos em fevereiro.
O responsável considera que um novo Hospital pode reunir competências, desenvolver cuidados mais diferenciados e criar condições para o ensino e a investigação, “tão importantes” para o desenvolvimento do Serviço Nacional de Saúde. “Precisa, desde o início, de um plano para atrair e formar mais médicos das especialidades hospitalares absolutamente necessárias, como a medicina interna, a cirurgia, a ortopedia, a medicina intensiva e tantas outras”, salientou.
Sobre a localização do novo equipamento, Carlos Cortes disse compreender a “preocupação de cada concelho” e, sem tomar posição, realçou que a “distância conta, sobretudo para quem depende de transportes públicos ou tem mobilidade reduzida”. Entende, por isso, que a decisão tem de considerar critérios clínicos, acessibilidades e tempo de percurso. “Concentrar cuidados diferenciados, absolutamente essencial, exige garantir que as pessoas conseguem chegar-lhes em tempo útil. O que a região já não pode suportar é uma discussão sem horizonte de execução”, assumiu, salientando que a “indefinição acaba por ser conveniente para quem tem de decidir e não quer”. Lembrando que, em agosto, o Governo anunciou que o processo do novo hospital seria retomado em setembro, considera que “é tempo de esclarecer o que vai acontecer, com que financiamento e em que prazos” e que também os serviços atuais precisam de investimento.
De acordo com o bastonário da Ordem dos Médicos, há que melhorar as instalações, renovar equipamentos e garantir equipas capazes de prestar cuidados em segurança nos atuais hospitais das Caldas, Peniche e Torres Vedras.

“Equipas estáveis e menos burocracia”
No que respeita aos cuidados de saúde primários, Carlos Cortes defendeu a necessidade de equipas estáveis e menos burocracia. “A medicina geral e familiar e a saúde pública precisam de meios, de autonomia e uma voz também nas decisões da Unidade Local de Saúde”, afirmou, alertando que quando esta não dá resposta, as pessoas procurarão a urgência hospitalar.
Para Carlos Cortes, qualquer reorganização das urgências exige ouvir os seus profissionais e as famílias precisam de saber onde podem ser assistidas e de confiar na resposta que as espera. O bastonário falou da necessidade de garantia de transporte, capacidade de resposta e segurança em todos os percursos do doente e, no caso da saúde mental, de ter de haver equipas próximas da comunidade e um lugar “plenamente integrado” no futuro hospital. São também necessários, de acordo com o responsável, cuidados continuados, de reabilitação e de apoio domiciliário, em articulação com as famílias, as autarquias e as instituições sociais.
A resposta a todas estas necessidades depende da existência de médicos e de outros profissionais de saúde, pelo que a Ordem dos Médicos já apresentou um conjunto integrado de 25 medidas para tornar o SNS mais atrativo, que “precisam de chegar ao terreno”, realça Carlos Cortes. “No Oeste, isso significa identificar as especialidades mais carenciadas, antecipar as saídas de médicos por aposentação, contratar com tempo, atempadamente, e dar aos médicos sobretudo condições para desenvolver projetos clínicos com impacto para os seus doentes”, especificou.
O responsável defendeu a criação de uma agenda com “prioridades, metas claras, responsáveis e prazos, cujos resultados sejam apresentados publicamente e periodicamente”, fazendo ver que cabe aos responsáveis políticos e às administrações “transformar decisões em respostas concretas”.

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