Quinta-feira, 15 _ Outubro _ 2026, 6:10
Início Sociedade Um país que não se preparou para envelhecer

Um país que não se preparou para envelhecer

0
2
Apresentação do livro “O Estrondo Silencioso - Portugal e a anestesia moral perante a velhice” no Hospital Termal

Livro lançado esta semana aborda questões muito pertinentes para a sociedade portuguesa

“Vivemos cada vez mais anos”, mas “estará Portugal preparado para garantir que essa longevidade seja acompanhada de dignidade, autonomia, participação e qualidade de vida?”, questionou Ricardo Pocinho, que escreveu o livro “O Estrondo Silencioso – Portugal e a anestesia moral perante a velhice”, e o apresentou publicamente no Hospital Termal das Caldas, na tarde desta terça-feira, 13 de outubro.

O autor, que é natural de Soure (Coimbra), é professor da Universidade de Leiria e Oeste, investigador integrado do CICS.NOVA e presidente da Associação Nacional de Gerontologia Social, que fundou em 2012 e tem-se debruçado sobre esta temática desde 2004.

- publicidade -

Atualmente “temos um conjunto muito alargado, que é mais de 10% da população portuguesa, que, muito provavelmente, não sabe muito bem o que lhe resta para o fim de vida, são as pessoas com mais de 75 anos, que olham para um país que, por um lado, não tem políticas públicas práticas de apoio a quem tem menos rendimentos” e onde se foram criando valências para responder aos problemas, mas onde “não há resposta para todos”.

O caso das Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) é um exemplo de como “o Estado não tem capacidade para responder”.

O autor pergunta “qual é o entendimento que o Estado tem sobre a velhice se o Estado não tem nenhum lar público?”. Nesse campo aponta aos inúmeros edifícios estatais devolutos que poderiam ser requalificados para esse fim. Sobre a escassez de vagas, o autor aponta que o custo médio por utente dos lares ronda os 1300 euros e a comparticipação estatal se cifra em torno dos 500 euros.

Tudo isto leva Ricardo Pocinho a concluir que este é “um país que não está preparado para envelhecer” e onde, “ainda que seja em silêncio, estamos a assistir a um estrondo, a uma explosão, que as pessoas não querem admitir”.

O autor considera que “não tem utilidade nenhuma a forma como programámos o país em relação ao envelhecimento e isto é que é verdadeiramente motivador de escrever um livro desta natureza, o olharmos passivamente para esta condição, havendo forma de resolver o problema”. A inação a que assistimos é, para si, preocupante. “Aquilo que é estranho é estarmos perante um problema que é o envelhecimento indigno, sabemos que há no país quem passe fome, quem tenha que fazer opções entre comprar medicamentos e aquecer a casa, que há pessoas que vivem numa solidão terrível”, frisa, questionando “estamos satisfeitos? Não conseguimos observar? Não sabemos o que está a acontecer? Estamos felizes com o que está a acontecer?”. É que “enquanto deixarmos acontecer, para além da infelicidade que estamos a roubar àqueles que nos deram a liberdade, estamos a provocar um país que será mais pobre”.

Ainda assim, há uma mensagem de esperança: “o Estado, como não fez nada, está ainda a tempo de o fazer”e “tudo ainda pode ser transformado desde que nós consigamos e queiramos colocar estas questões na agenda nacional”. Considerando que “o problema que estamos a atravessar merecia uma revolução”, decidiu fazer “um grito, um estrondo, mas silencioso” e, dessa forma, pretende que o tema seja refletido e debatido, até porque “a dignidade humana não tem idade para a reforma”.

A escolha pelas Caldas para apresentação da obra prende-se com dois motivos: o facto de ser a residência de um Presidente da República que inspirou a finalização da obra ao falar no seu discurso “sobre a dignidade das pessoas mais velhas” e a expetativa de contar com a participação da mais alta figura do Estado na apresentação, mas também a ligação da cidade à liberdade. “Se há local onde nasceu o cuidado há mais de 500 anos, é nas Caldas da Rainha, onde nasceu o assistencialismo social e a provisão para os outros”. A apresentação contou com a participação de João Gorjão Clara, Pedro Sacadura, Hugo Miguel Carvalho e Catarina Ângelo e atuação musical do Coral das Caldas, sendo apresentada a mostra fotográfica Importa – Retratos de Memória e Território. As receitas do livro apoiarão o Parlamento Português do Envelhecimento.

- publicidade -
Visão Geral da Política de Privacidade

Este website utiliza cookies para que possamos proporcionar ao utilizador a melhor experiência possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu browser e desempenham funções como reconhecê-lo quando regressa ao nosso website e ajudar a nossa equipa a compreender quais as secções do website que considera mais interessantes e úteis.