Design de mobiliário abre novos caminhos à Carpintaria Laureano

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António Laureano junto a uma cadeira (ainda incompleta) que ele próprio concebeu

 

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Na pequena localidade do Maxial (Torres Vedras), situada a cerca de 40 quilómetros das Caldas da Rainha, fica situada a Carpintaria Laureano. Trata-se de uma empresa com 40 anos de existência, que começou por trabalhar a madeira para o sector da construção e que actualmente também desenvolve as suas próprias peças de mobiliário.
O designer António Laureano, de 38 anos, é o rosto da empresa. Começou a trabalhar com pai, nas férias escolares, e agora segue-lhe o ofício, que acumula com a criação de mobiliário, depois de se ter licenciado em design industrial na ESAD.CR. Defende a necessidade de criação de marcas para a afirmação dos produtos, aliada à qualidade.

Quando José Laureano se estabeleceu por conta própria no Maxial, em 1967, estava longe de imaginar as voltas que a sua carpintaria iria dar. Filho e neto de carpinteiros, começou a seguir-lhes as pisadas com apenas 14 anos e mais tarde montou a sua própria carpintaria na terra Natal e comprou a sua primeira máquina. Mas ainda teve que estar três meses à espera que a electricidade chegasse à terra para a pôr funcionar.
Ao longo das décadas seguintes foi-se dedicando sempre ao sector da construção. António, filho de José Laureano, tem actualmente 38 anos e sempre se lembra de ajudar o pai, durante as férias, na carpintaria. “Ia para as obras com o pai desde os 14 anos e, em vez de ficar traumatizado, acho que ganhei com isso”, conta o designer que agora gere a empresa com o pai.
António Laureano estudou Design de Mobiliário na Fundação Ricardo Espírito Santo Silva e depois tirou a licenciatura (antes de Bolonha) de Design Industrial na ESAD, nas Caldas da Rainha. Quando terminou o curso já tinha duas encomendas de móveis, uma de um professor e outra de uma loja em Lisboa de mobiliário.

A recuperação desta casa antiga junta a marcenaria com soluções de mobiliário contemporâneas

Pouco depois de terminar o curso, o jovem designer participou no programa Leonardo Da Vinci, que o levou para Turim (Itália), durante três meses, para trabalhar num gabinete de Arquitectura. Percebeu que os italianos, do ponto de vista da capacidade criativa “não são nada de extraordinários, mas têm toda uma estrutura que souberam criar ao longo dos anos, assim como uma imagem muito boa para o exterior”.
António Laureano percebeu também que as carências do profissionais do sector em Portugal não eram para projectar, mas na criação de marcas e imposição nos mercados.
“Um designer em Portugal para se conseguir impor tem que ser super profissional nas mais diversas áreas”, refere, acrescentando que é necessário saber projectar bem, pensar bem a questão dos objectos e as necessidades das pessoas e falar com quem produz.
Na oficina o trabalho que desenvolve passa por pegar nas técnicas da marcenaria e aplicá-las a situações estéticas e funcionais que seja actuais e atractivas. A madeira é o seu material de base, a que por vezes junta metais, inox, acrílico ou vidro.

Mobiliário rústico criado pelo designer na carpintaria Laureano

Os seus trabalhos de design de mobiliário são procurados por empresas e também por particulares. “Gosto muito de trabalhar para ateliers de arquitectura, principalmente de Lisboa, mas também tenho tido muito bons trabalhos para a região”, sobretudo para as Caldas da Rainha, cidade que gosta particularmente, especialmente por causa de Bordalo Pinheiro e da sua louça.
Entre os projectos que está a desenvolver destaca-se o mobiliário para sala e expositores para relojoaria, para uma empresa portuguesa e outra suíça.
António Laureano está também a recuperar uma casa antiga de família, com duas azenhas, onde além da arquitectura, junta a marcenaria com soluções de mobiliário contemporâneas. “É claramente saber tirar partido do passado e projectar as coisas para a actualidade”, refere.

A importância da marca

António Laureano considera que uma premissa para o design progredir é a criação de marcas. “Só a partir das marcas é que nos podemos afirmar e se não as tivermos estamos restringidos ao serviço de transformadores de produtos”, explica. Na sua opinião, a área da transformação também foi perdendo fôlego em Portugal ao longo dos anos, pois foi-se dando muita importância à questão dos serviços, comércio e banca, quando é ela que permite ao país exportar.
O empresário destaca também a importância que tem que ser dada à qualidade como estratégia para entrar no mercado. “Design e qualidade no produto final são a chave, com marcas por detrás”, sintetiza, destacando que se não tiverem marcas estarão sempre ao serviço de terceiros.
A criação da sua marca é um projecto a médio prazo. “Esta altura em que os mercados andam muito confusos parece-me ser a ideal para começar a planificar tudo, desde conhecer bem o cliente alvo, a identificar as necessidades e projectar em função disso, fazer protótipos, criar imagem e definir alguns pontos de ligação”, sintetiza, prevendo um período de dois anos para a sua concretização.
O designer considera que a criação de um cluster do design no Oeste, ancorado na ESAD, com pequenas e variadas produções, será um dos caminhos de futuro, pois cada um isoladamente terá muito mais dificuldades em vingar.
“O que vale a pena é as pessoas terem a possibilidade de se juntar e depois ir a exposições profissionais”, diz, acrescentando que outra mais valia dos clusters é permitirem que um determinado produto possa ser projectado em três ou quatro empresas diferentes. António Laureano exemplifica isso mesmo com a sua última criação: uma cadeira, cujo espaldar será feito por uma outra empresa porque tem as ferramentas ideais para o fazer.
“Essa mentalidade já há no norte do país, assim como em Itália, que é conhecida pelas pequenas e médias empresas que, em conjunto, permitem intervir no mercado de forma muito mais sustentada” conclui.

Fátima Ferreira
fferreira@gazetadascaldas.pt

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