
Ao longo da história, e por todo o mundo, as canções de intervenção tiveram sempre um papel muito importante nos momentos de mudança. “Uma canção dura mais ou menos dois minutos e pode dar recados muito importantes às pessoas, de uma maneira mais facilmente perceptível do que, às vezes, grandes discursos”, considera Manuel Freire, que tornou célebre o poema de António Gedeão, “Pedra Filosofal”, e que actualmente reside em A-dos-Negros.
Convidado para a edição de Outubro do “21 às 21”, um encontro mensal promovido pela associação MVC-Movimento Viver o Concelho, o “cantor de poetas”, como se auto-intitula, falou de poemas e de música, misturando na conversa várias histórias da sua vida.
Um dos pontos mais importantes para Manuel Freire foi quando decidiu, em 1969, musicar o poema “Pedra Filosofal”, que cantou pela primeira vez no então conhecido programa de televisão Zip Zip.
“Quando peguei naquele poema e o musiquei, não fazia nenhuma ideia do impacto que a música iria ter”, referiu à Gazeta das Caldas. Actualmente consegue perceber porque é que este se mantém na memória das pessoas. “É um texto intemporal que fala da nossa capacidade de sonhar e através dos nossos sonhos imaginar um mundo melhor. A humanidade só avançou o que avançou até hoje por causa dos sonhos”, explicou.
Manuel Freire deu como exemplo dessa capacidade do Homem se suplantar, o facto de a humanidade ter começado por viver em cavernas e nus, tendo sonhado com algo que o aquecesse. “Foram sempre coisas que o Homem foi pensando e sonhando” até que chegámos aos nossos dias. “É impossível conceber a humanidade sem que as pessoas sonhem com uma vida melhor”.
O cantor aconselha os portugueses a fazer algo para que os seus sonhos se transformem em realidade. “Não podem ficar à espera que a Angela Merkel diga como vai ser o nosso futuro”, afirmou.
Manuel Freire tinha estado recentemente nas Caldas, a 12 de Outubro, onde actuou na manifestação contra a troika, tendo cantado, entre outras músicas, a famosa “Pedra Filosofal”. O artista lamenta que o papel da canção “como mobilizadora e denunciadora” esteja um pouco esquecido. Sem querer criticar o fado como género musical, Manuel Freire não deixou de assinalar o facto de ser o estilo mais em voga actualmente.
Sobre a poesia, disse ter um papel eterno. “É uma forma mais bonita de dizer coisas às pessoas. Os poetas conseguem usar as palavras que todos nós conhecemos e relacioná-las de uma forma muito bela”, comentou.
Em Novembro as sessões “21 às 21” celebram o seu terceiro aniversário. Teresa Serrenho, presidente da associação, salientou que estes eventos pretendem “alertar, de informar e de fazer com que não fiquemos adormecidos, nesta letargia de conformismo, e passividade que parece ter atacado o povo português”.
A candidata do Movimento Viver o Concelho à Junta da Freguesia de Nossa Senhora do Pópulo nas eleições autárquicas de 2009, espera que estes encontros possam contribuir para a formação de “cidadãos mais conscientes, mais ativos e participativos na nossa sociedade”, lamentando que “as trevas da ignorância pareçam pairar sobre o mundo”.
Pedro Antunes
pantunes@gazetadascaldas.pt





