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Crónicas de Bem Fazer e de Mal Dizer – IX | Um passeio à terra das andorinhas

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Como o mundo é pequeno! Então não é que nos encontrámos de novo com Alberto Pimentel, que fez a gentileza de nos oferecer as suas “Crónicas de Viagem”?
Com uma dedicatória ao “conselheiro António Maria Pereira Carrilho, meu antigo e dedicado amigo, como recordação das agradáveis excursões que fizemos no verão de 1888”, o livro foi dado à estampa nesse mesmo ano, sendo impresso na Tip. e Lit. a Vapor de Eduardo da Mota Ribeiro, localizada na Rua s. Lázaro, Nr.º 215, no Porto.
E para nosso grande contentamento, logo o primeiro capítulo é intitulado “Nas Caldas da Rainha”. Vejamos então o que tão prolífero cronista e passeante tem para nos dizer:
“Na quarta feira de manhã, o comboio em que eu vim para as Caldas da Rainha regurgitava de viajantes. [Nota: hoje em dia nem viajantes nem comboios!] E desde quarta feira não tenho visto senão chegar às Caldas, gente, gente, gente!

Principia a ouvir-se já esse infatigável chalrar das espanholas, que ao longo da alameda vão agitando a ventarola e … os quadris, passando como um bando de cigarras palreias, seguidas de grande número de cigarrinhas não menos garrulas de que as suas mamãs de olhos pretos e os seus papás de patillas. Muitas caras deLisboa: pessoas da alta finança… com dispepsia; e da grande roda … com reumatismo. Algumas das pessoas da província, com ar de príncipes que viajam sob incógnito.
Toda esta humanidade, mais ou menos espetaculosa, que passeia no Olimpo da alameda, de tridente na mão, desce do alto da sua importância ao raso da fragilidade do barro comum, logo que entra as portas da Copa. Aí perante as águas, são todos iguais.
Portugueses de chapéu de palha, espanholas de mantilha, janotas do Chiado, anciãos venerandos, sentados em torno da casa das pulverizações, voltados contra a parede, de boca escancarada, numa imobilidade paciente, deixam penetrar na garganta, em pequeníssimas gotas do tamanho de missangas, a aspersão desse hissope terapêutico, que os há-de benzer … para o inverno. […]
E as andorinhas, que nas Caldas são em número prodigioso, esvoaçando de plátano em plátano parecem dizerem lá de cima: «Como V. ex.ª está fresco com as águas! Viva V. ex.ª, e não falte cá para o ano!».
Se fosse possível a Alberto Pimentel regressar nos dias de hoje às Caldas da Rainha, no mínimo, num facto iria notar uma grande diferença; as boas vindas eram-lhe dadas não só por andorinhas, como também por gaivotas …

Isabel Castanheira

 

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Edição #5625

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