Quarta-feira, 14 _ Janeiro _ 2026, 5:05
- publicidade -
InícioCulturaCaldas da Rainha continua a ser uma cidade de cerâmica

Caldas da Rainha continua a ser uma cidade de cerâmica

-

A investigadora e responsável pelo Grupo de Amigos do Museu de Cerâmica, Caldas mantém o selo de ser uma cidade cerâmica, não só pelo património que possui mas também pelos jovens que escolhem trabalhar nesta área nesta localidade

Caldas da Rainha ainda é uma cidade de cerâmica? Foi este o ponto de partida para uma conversa com Margarida Araújo que diz que sim, pois a localidade ainda “detém muito património ligado à memória de que foi um grande centro industrial e artístico e também pelo seu património azulejar – de exterior e de interior – e que abrange um longo período temporal, desde o século XVI até aos dias de hoje”.

A investigadora, curadora e presidente da direção do Grupo de Amigos do Museu de Cerâmica acrescenta que a cidade continua a apostar na aplicação de azulejos de fachada que são visíveis e que ajudam a manter viva esta tradição.

No que diz respeito à memória coletiva, Margarida Araújo nomeia o Museu de Cerâmica como um dos principais guardiães, pois este guarda várias coleções. O próprio município caldense também possui várias coleções de cerâmica “que poderiam ser alvo de mais exposições para que o público as possa conhecer”.

A autora da obra “Paredes de Louça” sobre a azulejaria na cidade considera que a parte industrial não estará tão pujante como outrora, no entanto, além da Bordalo Pinheiro, a cidade possui unidades como a Molde, a Braz Gil, a Duro Ceramics e o Atelier Sá Nogueira que dão cartas neste setor.

Esta última, que tem as suas instalações em A dos Francos “está a fazer projetos incríveis, e de grande prestígio, a nível nacional e internacional também”.

A par de tudo isto, há vários artistas que vivem do seu trabalho na área da cerâmica. Ana Sobral, Bolota, Carlos Enxuto, Vítor Pires, Fernando e Milena Miguel, Vitor Mota, Vítor e Mário Reis, Jorge Lindinho, Vítor e Júlia Lopes, Miguel Neto, entre tantos outros, que têm assinatura própria e é a partir deste território que desenvolvem o seu trabalho. A formação da maioria passou por vários cursos do Cencal. Muitos participam em eventos nacionais e também internacionais. Outros como Heitor Figueiredo ou Ricardo Lopes que apesar de residirem e desenvolverem o seu trabalho mantêm uma ligação forte às Caldas.

A este grupo considerável de autores juntam-se agora jovens artistas, formados na ESAD – sendo que sempre tiveram cursos de cerâmica “e que completam a sua formação no Cencal como aliás se constatou na realização da MESTRA durante o verão passado”, acrescentou a investigadora que refere ainda Álvaro Nogueira como um dos jovens autores que se formou na ESAD e hoje desenvolve o seu trabalho a partir das Caldas.

No que diz respeito à memória patrimonial é o Museu de Cerâmica que guarda importantes coleções e a sua recuperação “está hoje na ordem do dia”. Margarida Araújo – que é a presidente da direção do Grupo de Amigos do Museu de Cerâmica – já está a liderar esta entidade pelo segundo mandato consecutivo e conta que a recuperação do museu é premente sobretudo na necessidade urgente de recuperar o Palacete Visconde de Sacavém que aliás alberga a coleção permanente do Museu.

A responsável recorda que este espaço museológico teve que ser encerrado no passado mês de março por questões de segurança.

Museu fechado desde março
São necessárias obras de intervenção no Palacete e Margarida Araújo recordou que, em 2021, o Palacete – assim como os jardins como Imóvel de Interesse Público e esperemos que isso possa também proteger o edifício.

E garante que o Grupo de Amigos continuará a acompanhar o processo que se prevê da passagem do museu do Estado para a autarquia.

”É urgente assegurar que o Palacete não caia!”, disse a autora que recordou que desde que o Museu de Cerâmica foi criado – desde a sua aquisição a família do visconde de Sacavém já era um espaço pequeno “para a coleção que possuía originalmente”.

Será pois “um processo demorado que nos preocupa mas esperemos que e ajudará no que for possível que o Palacete possa no futuro voltar a abrir as portas, com a dignidade que espaço merece”, advertiu a dirigente.

E conta que se sente uma certa orfandade ir atualmente ao espaço onde falta o barulho e movimento próprio dos visitantes. “O jardim continua a ser bem tratado pois conta com o apoio do município”, disse a dirigente referindo que se por agora há um vazio enorme enquanto se aguarda o início das obras de renovação. Assim que forem concluídas, o Museu passará a ser gerido pela autarquia caldense.

O Grupo de Amigos do Museu de Cerâmica tem atualmente em mãos a preparação para edição do manuscrito de Francisco Teodoro Malhoa.

O ceramista, que faleceu em 2006, deixou uma obra de investigação sobre a cerâmica das Caldas e que “iremos editar no próximo ano”, referiu a autora acrescentando que o Grupo também precisa de apoios para a edição. Esta obra, escrita há 19 anos inclui uma entrevista que o próprio deu à Gazeta das Caldas.

Este autor, que trabalhou vários anos na Fábrica Bordalo Pinheiro, fez muita investigação em volta da cerâmica caldense desde o século XIX e estende-se até à existência da fábrica Secla.

Deste percurso Margarida Araújo destaca a investigação que Francisco Malhoa dedicou às olarias caldenses, sobretudo do século XIX e XX. “Ele fundamenta o que escreve com base em documentação que foi consultando”, referiu Margarida Araújo que também está a preparar esta edição para publicação, prevista para o próximo ano.

Na sua opinião, Francisco Malhoa “fez um levantamento muito importante para a história da olaria das Caldas e é importante para história local e nacional já que não há muitos estudos nesta área”, referiu a investigadora.

A obra inclui ainda um importante glossário já que se dedica a dar a conhecer quem foram os autores que se dedicaram à cerâmica caldense. “Estamos entusiasmados de podermos publicar esta obra que irá contribuir para o maior conhecimento sobre a cerâmica caldense”, disse.

Outra das áreas em que de facto as Caldas se destaca é o colecionismo. Além do museu e da autarquia – que guarda várias coleções ligadas a unidades fabris como por exemplo da Molde e da Secla há vários colecionadores particulares que se dedicam à cerâmica. A mais importante é a coleção de João Maria Ferreira, colecionador que faleceu em 2022 e que foi um dos maiores colecionadores de cerâmica caldense.

“Não conheço outra tão grande e tão diversificada no tempo como esta coleção”, disse Margarida Araújo que foi curadora desta importante coleção durante seis anos.

Segundo a investigadora era bom que esta coleção pudesse ficar nas Caldas. João Maria Ferreira que “comprou” o espaço onde antes funcionou um banco para guardar as peças de cerâmica.

Se ficasse na cidade “era também uma forma de homenagear o próprio colecionador”, disse.

Depois há outros colecionadores que têm investido na aquisição de peças de cerâmica local “e tenho constatado que há um novo interesse pela cerâmica das Caldas desde o seculo XIX até ao século XXI”, referiu a historiadora que acompanha os leilões e nota “muito interesse pelo período do modernismo, pela aquisição de peças de Armando Correia e Ferreira da Silva”.

Colecionadores dedicados a temas locais
Nas Caldas há colecionadores, alguns dos quais se dedicam a colecionar temáticas relacionadas com a própria localidade.

Entre as muitas vertentes da investigadora local, Margarida Araújo som a o facto de fazer visitas guiadas aos azulejos de exterior que “decoram” a cidade. É também autora que conhece a localização de fábricas e olarias que existiram ao longo de décadas em plena localidade.

“Nenhuma tinha a dimensão da Fábrica de Faianças mas existiram várias unidade por exemplo em plena Rua das Montras”, contou, recordando que até nos anos 40 e 50 do século XX “foi necessário ir buscar de Barcelos para trabalhar na cerâmica local”.

E daí constatar-se que há uma certa influência da cerâmica caldense na cerâmica barcelense.

Interessante é também a presença das mulheres na cerâmica caldense. Além de Maria dos Cacos, nascida em 1797 foi empresária que se dedicou à venda de cerâmica caldense pelo país. O ceramista Manuel Mafra foi seu empregado e adquiriu-lhe a estrutura comercial por volta de 1853.

As mulheres continuaram a deixar a sua marca na cerâmica local. Foi o caso das irmãs de Manuel Mafra, por exemplo, que entre outras mulheres dedicaram-se sobretudo a produzir verguinha”, disse a investigadora sobre esta técnica tipicamente caldense que imita a cestaria em cerâmica.

Zés das Caldas em exposição na capital
Este ano estão ainda a decorrer as celebrações dos 150 anos de Zé Povinho e Margarida Araújo – que é também fotógrafa – tem ajudado na identificação das peças que em breve farão parte de uma grande exposição dedicado ao representante do povo, criado por Bordalo Pinheiro e que decorrerá no início de 2026, no seu museu, em Lisboa. As Caldas estarão bem representadas com Zés Povinhos de Isabel Castanheira, Joaquim Saloio e da coleção João Maria Ferreira.

2 margaridapag27soautoraeceramica copia
A investigadora foi durante vários anos a curadora da coleção de João Maria Ferreira (Foto de Arquivo)
- Advertisment -

Edição #5625

Assine a Gazeta das Caldas e aceda todas as notícias premium da região Oeste.

Visão Geral da Política de Privacidade

Este website utiliza cookies para que possamos proporcionar ao utilizador a melhor experiência possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu browser e desempenham funções como reconhecê-lo quando regressa ao nosso website e ajudar a nossa equipa a compreender quais as secções do website que considera mais interessantes e úteis.