
Manuel Sousa d´Oliveira foi um professor que atravessou quase o último quarto do século passado da Escola Industrial e Comercial e depois Secundária Rafael Bordalo Pinheiro e que deixou algumas boas recordações a muitos alunos como a bastantes colegas.
Não era uma pessoa de tipo fácil, nem mantinha relações estáveis, pois muitas vezes discutia duramente com os colegas, nos mais variados assuntos. Também as relações com os alunos às vezes não eram do mais fácil.
Contudo, quem com ele conviveu mais de perto, sabe que era um açoriano marcado pela dureza da vida, cheio de convicções e de certezas nas áreas que dominava, implacável nos seus hábitos e “vícios”, persistente nas suas rotinas e infinitamente teimoso como investigador, coleccionador e arquivista.
Conheci-o, como colega, quando ele veio para as Caldas da Rainha em 1971, leccionar como professor efectivo a disciplina de História depois de ter concluído o seu Exame de Estado, grau necessário na época para ser professor efectivo do ensino industrial e comercial.
Acompanhei a sua trajectória durante quase duas décadas até que se reformou e regressou à sua terra natal nos Açores. Aí ainda o fui encontrar e partilhar alguns bons momentos, com o seu indefectível amigo, Carlos Melo Bento, que com outro amigo assumiram a missão de levar por diante a Fundação que foi criada, como última vontade de Sousa d´Oliveira. Faleceria em 2001, com 85 anos de idade, já com algumas debilidades na sua saúde, situação que o deveria deixar muito incomodado, uma vez que até bastante tarde manteve a sua prática de caminhante e de nadador na piscina de um hotel no centro da cidade de Ponta Delgada.
O arqueólogo açoriano tinha também alguns hábitos surpreendentes: por exemplo, uma vez, encontrei-o a arquivar uma carta que havia escrito para ele próprio. Tratava-se de um hábito que ele cultivava de escrever cartas a si próprio enviando para a casa de Lisboa onde possuía um quarto. Era uma forma de dar vida aquele espaço e de mostrar que não se esquecia. Se não me engano, tantos anos passados, ele tratava-se por Manuel apenas.
Outra das suas preocupações foi de construir um mausoléu nos Açores onde pudesse sepultar os seus pais e depois onde os seus restos mortais pudessem também repousar. Insistiu com um colega que presta testemunho também nesta edição. Não veria satisfeita esta vontade.
A Fundação que foi criada, com o forte apoio do governo regional, bem como da actual presidente da Câmara de Ponta Delgada e de António Almeida Santos, ex-presidente da Assembleia da República, permitiu reunir o espólio que ele coleccionou ao longo da sua vida.
A fundação, segundo os desejos dos testamentário, tem por fins: Promover o fomento dos estudos de arqueologia e trabalhos arqueológicos no arquipélago dos Açores; Conceder bolsas de estudo a estudantes e graduados, com carências económicas; Manter e actualizar a biblioteca; Salvaguardar e colocar à disposição dos estudiosos interessados o espólio arqueológico do fundador; Promover a publicação de trabalhos inéditos do fundador ou Fundação; Promover e colaborar em iniciativas de carácter cultural; Construir e manter um mausoléu do fundador.
Do património da Fundação constituído pela herança deixada ao fundador por seus pais, por bens adquiridos por si e por dotação a atribuir pela Associação Arqueológica dos Açores, fazem parte dois Prédios na freguesia dos Arrifes, Prédio urbano, sito na Rua da Saúde, nº. 15, freguesia dos Arrifes, concelho de Ponta Delgada e um andar num prédio urbano sito na Rua das Flores, na nossa cidade, onde Sousa d´Oliveira viveu na última fase da sua estadia nas Caldas da Rainha. Também entregou à fundação o seu Espólio arqueológico-museológico, a sua Biblioteca com mais de 30 mil livros, o recheio de casa incluindo móveis, obras de arte e peças de artesanato e uma dotação inicial de cerca de 86 mil Euros atribuída pela comissão instaladora da Associação Arqueológica do Arquipélago dos Açores.
Uma das primeiras iniciativas da Fundação foi a publicação da tese de licenciatura em Histórico-Filosóficas de Sousa d´Oliveira, apresentada na Universidade de Coimbra em 1942 e que ele dedicou ao seu conterrâneo Antero de Quental intitulada “Problemas Filosóficos e Concepções Religiosas. Sousa d´Oliveira foi aluno e discípulo de Joaquim de Carvalho, célebre lente de filosofia da academia de Coimbra da 1ª metade do século passado.
O “estudante de Oxford”
Naquela obra, Carlos Melo Bento faz uma extensa biografia do autor, recordando que ele nasceu em Cambridge, nos Estados Unidos da América para onde os pais tinha emigrado no início do século. Contudo, como a família Oliveira não gostava de residir nos EUA, cedo regressou aos Açores, tendo Sousa d´Oliveira frequentado o Liceu Antero de Quental de Ponta Delgada. Nesta fase inicia-se nas hostes desportivas tendo jogado futebol no Micaelense. Por influência de um amigo de família, seu pai manda-o para Coimbra para estudar, “cidade que o viria a transformar, marcar e seduzir para sempre”, como diz o seu biógrafo. Naquela área de estudos dedica-se a Paleografia e à arqueologia, paixão que nunca mais abandonará.
Mas o seu biógrafo não esquece que “o futuro arqueólogo, com efeito, nascera com notável resistência física cuja pujança ele empregou no desporto que praticou em, calcule-se, 15 modalidades, nalgumas das quais, foi campeão nacional universitário. Atletismo, basquetebol, voleibol, futebol, ping-pong, natação, waterpolo, horsebol, handebol, râguebi, tiro, esgrima, ténis, ciclismo e remo. Foi esta polivalência que lhe valeu o sobrenome de “estudante de Oxford, conhecido filme de Robert Taylor e cujo tema girava à volta de um estudante americano que vai estudar para Oxford, na Inglaterra, e que se sente segregado pelos colegas. É o seu êxito no desporto e em várias modalidades que lhe conquista a estima e a admiração dos “snobs”.
A sua carreira desportista passa por ser “a partir de 1943, médio-centro da “Briosa” (Associação Académica de Coimbra).”, a que se seguiu a carreira de treinador de futebol na segunda metade do anos 40, em clubes como o Beira-Mar, Vista Alegre, Varzim e Ginásio Figueirense, segundo o seu biógrafo. Também é lembrada a sua participação na primeira corrida de bicicleta Ponta Delgada – Furnas, organizada pelo “Diário dos Açores”, em 2 etapas, que se realizou em 1937 e que ele ganhou. “Dois ou três anos depois, corre – conta o seu biógrafo – de bicicleta o circuito Ponta Delgada – Ribeira Grande – Ponta Delgada, prova individual em que Freitas (que veio a ser campeão de S. Miguel) o conseguiu vencer, em desforra do que acontecera em 1937, aproveitando-se de uma queda d´Oliveira.”
Mas desde muito novo dedica-se “ao teatro ao ar livre nos Açores” e faz a “recolha da maior colecção conhecida de textos dessa rate popular”. A vida militar interrompe-lhe a sua vida de investigador, obrigando-o a incorporar-se no Regimento de Cavalaria 5 durante um período em que a Europa se debate com a 2ª Grande Guerra, tendo chegado a tenente miliciano ao regimento de Aveiro. Mas em 1942 frequenta com êxito os cursos de Ciências Pedagógicas e de Bibliotecário Arquivista.
Sousa d´Oliveira volta em 1947 ao ensino, começando a dar aulas em quatro colégios ao mesmo tempo, sendo importunado pela PIDE, que lhe havia várias vezes impedido de aceder ao diploma para ministrar aulas no ensino particular. O assunto viria a ficar resolvido, pois como diz Melo Bento “Oliveira que nunca foi um politico e, estou convencido, nunca gostou dela mais do que duma curiosidade científica de sociólogo, era um marxista sentimental, pois a tanto conduzia o ensino da filosofia do tempo em que Hegel descobrira um método que Lenine parecia ter demonstrado viável na prática. Todavia, isto, para ele, eram teorias, que embora lhe pautassem certas condutas nunca quis impor aos outros, ao menos nos períodos de acalmia… Privara com Almeida Santos, depois conhecido líder socialista, e este até escrevera um conto com ele intitulado “Ratos e Livros”(“Rã no Pântano”, Contos). Vem do conhecimento do ideário de Antero de Quental, ao que suponho, toda a influência esquerdizante de Coimbra, que nunca o abandona.”
Em 1951 concorre a Director do Museu Regional de Viana do Castelo, acumulando essa função com a de professor de História na Escola Industrial e Comercial da mesma cidade, tendo nos anos 50 sofrido uma nova investida da PIDE que lhe apreende um aparte dos livros que detinha no seu quarto.
Esta paixão pelos livros levou-o a coleccionar milhares de exemplares, que estão hoje reunidos na sua fundação, que espalhou ao longo da vida pelos sítis onde habitou: Largo do Bom despacho, em Ponta Delgada, Calçada do Conde de Pombeiro, em Lisboa, Viana do Castelo, na casa de Eugénio Pinheiro, no seu rés-do-chão em Coimbra e nas Caldas da Rainha.
Publicou ao longo da sua vida algumas obras, como “Cidade Velha de Sta. Luzia (Viana do Castelo)” em parceria com Abel Viana. Outra paixão eram as escavações arqueológicas que fez primeiro na região de Viana do Castelo, depois tentou nas Caldas da Rainha, nunca esquecendo nas férias de o fazer na terra natal da sua família nos Açores, Vila Franca do Campo. Na sua vida docente passa ainda pelo Liceu Nacional de Aveiro e pela Escola Industrial e Comercial Britero, em Coimbra, tendo sido bolseiro da Gulbenkian depois e até 1971, para recolha do teatro popular dos Açores, até vir para Caldas da Rainha como professor efectivo da Escola Industrial e Comercial.
Melo Bento, na sua biografia não esquece a vida afectiva de Sousa d´Oliveira, naquilo que não é muito conhecido pelos seus amigos das Caldas da Rainha, definindo-o como “sempre apaixonado pela ilha, nunca soube resistir aos encantos continentais sobretudo das continentais cujos corações destroçou desesperada e irremediavelmente. Sempre o conheci – continua o sue amigo – com mulheres apaixonadas por ele e dispostas a ligarem-se-lhe para sempre. Mas a ânsia de liberdade venceu. “Homem casado vive como um cão e morre como um homem. Eu prefiro viver como um homem. A morte é o fim, não importa pois”
JLAS
Testemunhos
“Era muito enérgico a dar aulas”

Em inícios da década de 70 o jovem Silvano Santos teve como professor na disciplina de História Sousa de Oliveira. “Era muito enérgico a dar as aulas, tinha uma maneira muito própria”, recorda o agora professor de Práticas Oficinais de Electricidade na Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro.
Entre as recordações que guarda, realça a originalidade das suas aulas, sobretudo numa época em que o ensino era bastante formal. Para além dos testes ou exercícios escritos, Sousa de Oliveira valorizava bastante os trabalhos de apresentação pública, feitos em cartolina ou dossiers. “Nessa época era uma maneira de encarar a disciplina de forma mais atractiva”, refere o aluno, acrescentando que essas apresentações eram feitas também com convite a outras turmas para estar presentes, enchendo a sala de aulas.
Manuel Sousa de Oliveira era também uma pessoa “muito vigorosa” e quando a indisciplina começava a crescer, “dava dois murros na mesa”, repondo assim a ordem na sala, lembra, sobre os debates acesos que as apresentações, por vezes, davam origem.
Silvano Santos recorda também uma ida da sua turma a S. Martinho do Porto, juntamente com o professor, numa altura de maré muito baixa, para procurar vestígios de um navio que tinha encalhado na baía. Munidos de botas de água, pás e vassouras, os alunos seguiram as instruções de Sousa Oliveira e recolheram alguns vestígios, tal como foi documentado na época no Diário de Notícias, uma vez que a expedição foi acompanhada por jornalistas daquele diário.
A quilha do navio, com grandes dimensões, veio para a Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, sendo colocada numa barreira junto à entrada principal da escola e, mais tarde, junto ao pavilhão gimnodesportivo.
O gosto do professor pela Arqueologia era conhecido e, uma vez, uns alunos de Óbidos, estimularam-no a fazer o levantamento de uma placa de pedra junto à Igreja de Nossa Senhora do Mocharro (zona poente da encosta do castelo) com inscrições para, depois, ele decifrar. Silvano Santos lembra ainda hoje as técnicas que o professor recomendou e que lhes permitiu fazer o levantamento da lápide.
“Ele também era muito receptivo e estimulava os alunos a artilhar os achados ou plantas fossilizadas”, refere, acrescentando que alguns colegas seus da zona do Bombarral chegaram a levar alguns elementos e o próprio Silvano Santos levou um machado de pedra que tinha sido encontrado na sua aldeia, em A-dos-Francos.
Silvano Santos volta a encontrar Sousa de Oliveira anos mais tarde, em inícios da década de 80, quando regressa à escola como professor. Chegaram a falar e “encontrava-o, por vezes, a almoçar no Maratona, sempre distraído com os livros”, recorda.
O professor Silvano lembra que participou, durante alguns anos na comissão de horários e lembra-se de o horário do professor Sousa de Oliveira já vir pré-definido e que as suas aulas eram à noite. Chegado o fim do ano lectivo, embarcava para os Açores, de onde era natural. “Ele acabou por imprimir a sua marca. Acho que ele se entusiasmava muito em deixar um acervo importante, aproveitando que o que havia na região fosse memória para o futuro”, conclui.
“Era uma pessoa que admirava muito o mérito”

Alberto Baptista conheceu Manuel Sousa de Oliveira em 1972, quando começou a dar aulas de Geografia na então Escola Industrial e Comercial caldense. Lembra que o primeiro conselho lhe deram foi: “toma cuidado com esse indivíduo, que é agressivo, não liga aos novos e tem a mania que é arqueólogo”, um desafio para o jovem professor que também era apaixonado pela Arqueologia.
E foi exactamente por causa da Arqueologia que se tornaram amigos. Alberto Baptista levava-o no seu carro a vários locais na região para procurar vestígios antigos, mas não era uma tarefa fácil, pois “o Sousa tinha pânico de andar de carro, sobretudo de quem andava depressa”. Mas o novo amigo até andava com cuidado e passou a ser a sua companhia nas expedições.
Na altura Alberto Baptista também estava comissão de horários e lembra-se dos pedidos de Sousa de Oliveira: ““Baptistinha” arranja-me um horário em que eu entre às 10h30”, recorda, acrescentando que o pedido era feito porque ele lia até de madrugada. Para além disso, o então professor de História também pedia para que a segunda-feira fosse o seu dia livre, permitindo-lhe assim ir a Lisboa, normalmente às livrarias e alfarrabistas, buscar mais livros.
“O que ele exigia era que o tratassem bem, se assim o fizessem ele também correspondia”, diz Alberto Baptista, que, com a convivência começou a conhecer o “outro lado do Sousa”, que era um homem que admirava muito o mérito, “não suportava as pessoas medíocres”, e tanto era duro e batia com a mão na mesa, como o chegou a ver de lágrima no olho.
O amigo justifica que ele era uma pessoa aparentemente difícil, porque era exigente nas amizades. E lembra alguns favores que Sousa Oliveira lhe fez, como o vir de Lisboa para as Caldas, de comboio, com oito quilos de livros para lhe entregar.
“Era uma figura apaixonante. Mas não há duas atitudes perante ele, as pessoas ou o amaram ou o odiaram, quer os colegas quer os alunos”, explica o amigo que conviveu com Sousa de Oliveira diariamente durante oito anos e, depois, durante quatro ou cinco, com relativa proximidade, na altura em Alberto Baptista foi trabalhar para Lisboa. Viria a regressar depois à sua terra natal onde foi professor de História na D. João II e continuou a manter a sua ligação de amizade a Sousa Oliveira.
Sousa Oliveira tinha uma grande paixão pelos livros e isso implicava também o cuidado com a sua preservação. Dentro da pasta que habitualmente usava tinha um conjunto de marcadores, um tubo de cola, uma tesoura e um rolo de papel vegetal, que usava para restaurar e encadernar os livros. O Café Central era o local preferido para levar a cabo essa tarefa e, quando começavam a olhar muito para ele por estar a encapar os livros, “então ele atirava os papéis pelo chão fora, que iam cair aos pés dessas pessoas”.
Alberto Baptista ganhou do amigo o hábito de encapar os livros, assim como o de fazer recortes de tudo o que achava importante.
Para além das Caldas, era também conhecido em Coimbra porque uma vez foram para visitar o Museu Machado de Castro, mas não tinham credencial para poder entrar. Então Alberto Baptista comentou que o Sousa de Oliveira não lhes tinha dito que era necessário. O interlocutor perguntou-lhes então se estava a falar do “estudante de Oxford” e, na anuência, puderam visitar todo o museu.
Por outro lado, era um desportista nato, recorda Alberto Baptista, acrescentando que mesmo já com idade, mantinha a destreza física.
“Era um homem frontal, tinha graça, era descontraído, era uma pessoa invulgar”, caracteriza o amigo que o viu pela última vez há mais de uma década, nas Caldas, num dos seus regressos à cidade termal.
“Aprendi imenso com ele”, diz Alberto Baptista sobre Sousa de Oliveira, com quem tinha quase uma relação de pai com filho. “E ele muito lamentava não ter filhos a quem deixar todo aquele espólio, havia ali um vazio”, conclui sobre o amigo que diz deixar marcas profundas, até na linguagem, pois tinha uma maneira de falar com sotaque açoriano muito própria.
“Não era um homem de amizades fáceis”

Corria o ano de 1975 quando o jovem José Pereira da Silva ingressou como professor na Escola Industrial e Comercial caldense e começou a contactar com o seu colega, Manuel Sousa de Oliveira. Mas a fama do professor de História era grande e há muito que Pereira da Silva ouvia falar dele, especialmente através dos seus dois irmãos, que tinham frequentado aquele estabelecimento de ensino.
“Sousa de Oliveira não era um homem de amizades fáceis”, recorda Pereira da Silva, mas o facto de frequentarem os mesmos locais, como é o caso do Café Central, e também a escola, estreitou o contacto entre os dois, tornando-se grandes amigos.
Pereira da Silva destaca também o seu gosto pelos livros. “Era um grande coleccionador de livros e artigos de jornal”, recorda, acrescentando quer era normalmente no café que Sousa de Oliveira tomava o primeiro contacto com as obras que ia adquirindo. Naquela altura haviam muitas edições em que as folhas eram dobradas e ele tinha uma navalha, “na qual era proibidíssimo tocar”, com a qual abria as páginas dos livros, muito cuidadosamente, de modo a ficar impecavelmente cortado e depois encapava-os. “Protegia a capa dos livros com papel vegetal, com uma grande precisão e método”, refere o amigo, que aprendeu com ele essas rotinas e o gosto do primeiro contacto com o livro.
Sousa de Oliveira não falava muito de si, “embora tivesse uma vida cheia, sobretudo do ponto de vista desportivo”, recorda o amigo que também praticava desporto na altura, lembrando que nunca o ouviu falar das suas proezas desportivas, e que foram várias.
O professor natural dos Açores era também um homem de convicções fortes. “Era um conservador no sentido em que era um homem de princípios e tinha uma imagem muito organizada do mundo”, recorda o amigo caldense, que julga que estas características seriam por deformação profissional, pois conheceu outros docentes da área das histórico-filosóficas, com comportamentos semelhantes.
Pereira da Silva recorda que chegou a pedir-lhe opinião sobre alguns aspectos e a convidá-lo para ir jantar a sua casa, tendo o professor numa das ocasiões levado uma garrafa de vinho do Pico e um queijo da ilha. Por outro lado, era um homem reservado relativamente à sua vida privada. Os temas que conversavam eram normalmente relacionados com a politica, nomeadamente a independência dos Açores, que se discutia na altura.
O docente e arquitecto ainda hoje repete uma frase aprendida de Sousa d´ Oliveira quando este, numa discussão queria dizer que era assim e não podia ser de outra maneira: “isto é assim porque assim é que está certo e assim é que fazia o antigo”, dizia, citando o padre Daniel dos Arrifes.
Recorda ainda que antigamente os professores que já tinham algum tempo de serviço usufruíam de um estatuto privilegiado e podiam escolher os horários e os cargos. Mas, Manuel Sousa de Oliveira ia além disso e não só escolhia, como fazia o seu próprio horário. “Isso acontecia porque ia muito a Lisboa durante o fim-de-semana procurar livros junto dos alfarrabistas e, nas férias, tinha uma actividade de arqueologia nos Açores, em Vila Franca do Campo”, explica.
A amizade e cumplicidade entre os dois foi ao ponto de Sousa de Oliveira ter pedido ao arquitecto Pereira da Silva para lhe desenhar o jazigo de família e erigir na sua terra natal, nos Açores, e dizendo-lhe apenas que do cemitério se via o mar.
Na altura, o que o amigo lhe propôs (e a maqueta foi exposta numa exposição de arquitectos que houve nas Caldas) foi uma caixa que ficava suspensa em três lâminas verticais, duas que abraçavam de lado o contentor para quatro urnas e uma terceira que apanhava o vértice. Levava umas portas de vidro e ficava aberto para que se visse o mar. Suspenso a um metro do chão, tinha por baixo um tapete de relva.
“O Manel ficou muito emocionado com o projecto e disse que, embora nunca lhe tivesse passado pela cabeça, era isso mesmo o que queria”, recorda Pereira da Silva, acrescentando que a obra, que mais se assemelhava a uma escultura, era uma proposta arrojada para época, meados da década de 80. “Sensibilizou-me muito, principalmente o facto de não me ter dado nenhuma indicação e depois ter ficado apaixonado pela peça”, acrescenta o amigo, bastante emocionado por Sousa de Oliveira lhe ter dado carta branca para conceber a sua barca, e dos seus, para a eternidade.
Fátima Ferreira
fferreira@gazetadascaldas.pt








