Começou no atletismo há 20 anos, desafiado pelo vizinho e amigo António Miranda, e tornou-se um dos três únicos ultramaratonistas do mundo a cumprir todas as TransPyreneas – uma prova de 900 quilómetros. É uma referência de uma modalidade que está em crescimento e ainda tem muito para correr
Jorge Serrazina é hoje uma lenda viva do trail português e um dos poucos atletas no mundo a ser totalista da TransPyrenea – uma prova de 900 quilómetros pelos Pirenéus que a maioria das pessoas considera impossível. Quase a completar 70 anos, continua a correr ultramaratonas e a inspirar outras pessoas a descobrirem que “nunca é tarde” para começar. A sua história é mais do que um testemunho de resistência física, é uma reflexão sobre como o desporto pode transformar completamente uma vida.
É que, para Jorge Serrazina, nem sempre foi assim. Quando era jovem, a sua relação com o atletismo foi episódica e sofrida. “Fiz duas ou três vezes, no início dos anos 80, a Meia Maratona da Nazaré, mais uma ou outra corrida, e depois andava oito dias completamente derreado”, recorda.
Depois veio um longo hiato. O trabalho, a família, “uma série de ocupações” afastaram-no completamente do desporto durante mais de vinte anos.
Mas tudo mudou e bastou um convite. Nos anos 2000, António Miranda, seu vizinho e amigo, foi desafiado pela autarquia de Óbidos para organizar uma equipa de atletismo que desse uso à recém-construída pista de atletismo do Estádio Municipal. “Os primeiros a integrar o clube foram os vizinhos. Inicialmente nem sabíamos se íamos correr ou fazer caminhadas”, lembra, “mas depressa comecei a correr”.
O que é notável foi a rapidez com que Jorge Serrazina não apenas aceitou o desafio, como se envolveu completamente. “Começámos forte”, diz. E esta força inicial foi-se consolidando, ano após ano, em objetivos cada vez mais ambiciosos.
Da estrada à montanha
Nos primeiros anos, a trajetória foi a de um atleta de estrada convencional a fundista. Entre 2003 e 2005, Jorge Serrazina participou em sucessivas maratonas internacionais: Lisboa, Porto, Paris, Roma, Madrid, Sevilha, Badajoz. Na altura, já havia também um campeonato nacional de montanha, no qual o Clube de Atletismo de Óbidos participava. Mas, embora fossem provas de montanha, não eram ainda trails. “Era, basicamente, corrida em estradões, não era por trilhos”, recorda.
O gosto particular por este tipo de prova foi crescendo. Durante seis anos seguidos, de 2005 a 2011, Jorge Serrazina e os irmãos – Glória, Inácio e Luís – rumaram à zona de Madrid para fazer o Maratón Alpino Madrileno.
Nessa altura, o trail começou a dar os primeiros passos em Portugal. “A primeira vez que nós fizemos uma prova de trail foram os Caminhos de Santiago, em 2006”, explica. “Íamos daqui em grupo, os meus irmãos e mais algumas pessoas. Andávamos quase dois meses a ver como reunir a logística, era uma complicação” recorda, descrevendo a magnitude da tarefa. Mas quando chegaram, a experiência transformou-se numa revelação. “Gostámos tanto que houve três edições e nós fizemos as três. O bichinho das provas longas foi crescendo cá dentro”, sublinha.
Em Portugal o calendário era ainda reduzido, mas esse próprio desenvolvimento contou com a mão de Jorge Serrazina e do grupo de amigos da Salgueirinha. Em conjunto com António Miranda e Luís Nunes, fundou o Trail da Lagoa de Óbidos, que se realizou de 2008 a 2018. “Era uma loucura, as inscrições esgotavam sempre!”, exclama. “Durante três meses não pensava em mais nada”, refere.
A falta de provas em Portugal levou o grupo a procurar provas no estrangeiro. Além do Maratón Alpino Madrileno, começou a ir a outras provas em Espanha, na Galiza, Andorra e no País Basco. “Depois alargámos à França. Em 2008 fomos fazer a Citadelles, no alto dos Pirenéus. “Fica na memória, porque foram 73 quilómetros feitos em 10 horas, sempre debaixo de neve”, conta.
Nesse ano, surgiu a primeira prova de 100 quilómetros em Portugal, na Madeira, onde marcou presença. E a prova nos Pirenéus deu-lhe pontos para entrar no Trail Mont Blanc, de 160 quilómetros.
Era o nascimento de uma paixão: as ultramaratonas de trail. “Gosto de ir para a montanha. Quanto maior é a dificuldade, quanto maior é o desnível, maior é o aliciante”, afirma.
É então que surge uma decisão crucial: participar no Tor des Géants, uma prova de 330 quilómetros nos Alpes italianos, considerada uma das mais exigentes da Europa, “até chegar à maluqueira da TransPyrenea”, que correu pela primeira vez em 2016.
É no Tour dos Geánts de 2019, uma edição especial de 450 quilómetros, que tem uma das memórias mais traumáticas, na qual chegou a temer pela vida. O voo para Milão, na véspera da prova, começou mal. Perdeu a bagagem com todo o equipamento técnico essencial. Colocou um post no Facebook a contar o que lhe sucedera e foi surpreendido pela comunidade do trail. Amigos de Andorra, franceses, compatriotas portugueses que iam fazer a mesma prova, todos se mobilizaram para lhe fazer chegar material e acabou por poder alinhar também com umas sapatilhas compradas à última hora. “Foi uma situação muito stressante”, recorda.
Mas o pior ainda estava para vir. Aos 300 quilómetros, o seu corpo colapsou. Teve uma primeira ida ao hospital, onde não lhe foi diagnosticado qualquer problema, pelo que, ao sentir-se melhor, decidiu sair e dirigir-se à meta, que ficava relativamente perto. No dia seguinte, enquanto almoçava com amigos na zona de chegada, o mal-estar regressou com mais força. “Voltei para o hospital, diagnosticado com uma perfuração no duodeno, e tive que ser operado de urgência.”
Ficou internado pouco mais que uma semana e, enquanto ainda estava na cama de hospital a convalescer, fez uma promessa a si mesmo. “Ainda mais para lá do que para cá, pensei: se eu sair daqui bem, há duas provas que quero fazer, o PTL [300 km de uma prova muito técnica no Monte Branco, que tem que ser feita por equipas devido às dificuldades do terreno] e a Maratona das Areias [250 km no deserto do Sahara].”
E cumpriu as duas promessas: “Fiz o PTL em 2021 e a Maratona das Areias em 2022”, refere.
Mas há uma prova que marca o ponto mais alto da carreira de Jorge Serrazina: a TransPyrenea. Uma prova de quase 900 quilómetros que atravessa toda a cordilheira dos Pirenéus, de leste a oeste, em pouco mais de uma semana. “Gostei tanto que sou dos três únicos totalistas das três edições oficiais”, realizadas em 2016, 2018 e 2025.
Os perigos da montanha
A primeira edição foi a mais complicada. O GPS estava ainda longe do que é hoje, não havia comunicações móveis, havia falta de experiência. Na segunda semana, quando já estava bastante avançado na prova, o tempo virou para pior. “Era uma pastagem de alta montanha, não havia caminho bem definido e a visibilidade era fraca”, recorda. Como antes tinha passado num refúgio para caminheiros dos Caminhos de Santiago, decidiu voltar para trás. “A 100 metros da barraca, escorreguei e caí, pensei mesmo que tinha partido uma perna. Mas consegui chegar à barraca e descansar”, conta. O problema é que tinha a mulher e a irmã, que o aguardavam mais à frente, passaram a noite em agonia, sem saber dele. “Estavam do outro lado da montanha, não dormiram nada. Perguntavam a cada pessoa que chegava se me tinham visto, mas ninguém me tinha visto”. Só na manhã seguinte voltou a arrancar e acabaram por se encontrar. “Hoje já não seria assim, porque o GPS já permite que quem está connosco acompanhe onde estamos”, refere o ultramaratonista.
Outra situação delicada viveu no PTL. A prova é feita em equipa, precisamente porque há zonas onde correr sozinho é demasiado perigoso. “Há muitas pessoas ‘abastadas’ que querem fazer a prova, mas não têm experiência e contratam guias. Numa zona à noite, chegámos a um ponto e não víamos forma de sair dali. Íamos duas equipas”, conta. O guia da outra equipa avançou e só ouviram um barulho, seguido de um daqueles silêncios ensurdecedores. “Percebemos que tinha caído, mas passados alguns segundos ele gritou: “Não venham para aqui, isto é perigoso”. Teve sorte, caiu numa zona macia”, conta.
Estas provas não são apenas testes físicos, mas transformações mentais. “Numa prova como a TransPyrenea, a cabeça é que manda. Quando a cabeça quer, nós arranjamos forças que parece que não existem”, afirma.
Este princípio tornou-se tão central na sua vida que quando o seu companheiro Gustavo Pessa lhe questionou, durante a edição deste ano, porque é que fazia aquilo pela segunda e terceira vez, respondeu com uma simplicidade desarmante: “Vais perceber no fim”. E de facto: “Quando chegámos, ele já estava a falar de voltar em 2027!”
A logística do impossível
Uma prova como a TransPyrenea não é apenas corrida, obriga a uma logística sofisticada, conhecimento do corpo, compreensão profunda do terreno, e um calendário de treino muito específico. E o mais impressionante é que, se na primeira participação perdeu 6 quilos, atualmente, quando faz estas ultramaratonas a perda de peso é praticamente nula. Aprendeu a confiar nos refúgios de montanha. “Aproveitamos todas as oportunidades para comer, é a regra básica. Às vezes almoçávamos duas vezes”, conta.
Em relação ao treino propriamente dito, é surpreendentemente modesto quando comparado com a magnitude das provas. “O meu treino é uma hora por dia. Não é mais que isso”, aponta. O que faz é complementar esse treino com as provas que faz ao longo do ano, que são pensadas de forma estratégica: “Fazemos provas de 60 a 70 quilómetros, durante os primeiros seis meses do ano.”
Em plena prova, a gestão do esforço é fundamental. “O objetivo principal é chegar bem. Somos amadores, não andamos ali para ganhar nada, mas sim para desfrutar”, sublinha. Uma das diferenças mais fundamentais entre o atletismo de estrada e o trail ultra é, precisamente, a natureza da competição, que na montanha dá lugar a irmandade. “Se pessoa tem necessidade, toda a gente ajuda quem está ao lado”, sustenta.
Esta filosofia é visível no grupo que formou na Salgueirinha, que frequenta a pista de três quilómetros que o grupo de amigos construiu para treinar as partes técnicas. Há também uma São Silvestre informal, que costuma ligar a Salgueirinha a Óbidos, com passagem no Santo Antão, realizada todos os anos em dezembro e que junta cerca de 50 atletas. Uma prova que termina sempre em são convívio.
Jorge Serrazina não se vê como um super-herói. É um homem que aceitou um desafio de um amigo e descobriu uma paixão que o transformou completamente. “Não sei o que seria hoje se não tivesse tido aquele desafio. O que sei é que, sem isso, nunca teria ido ao Nepal, à Malásia, à Patagónia, ao deserto de Sahara, e a todas as montanhas da Europa”, aponta. E ao fazê-lo, inspirou muitos outros a fazerem o mesmo.
Aos 69 anos, com histórias épicas já acumuladas, a maioria das pessoas pensaria em descanso. Jorge Serrazina ainda pensa em novos desafios. Em 2026, vai repetir o PTL em equipa com o sobrinho André e a companheira deste, Natalina. “E ainda quero tentar a quarta participação na TransPyrenea, que é em 2027”, adianta.
Hoje, o grupo de ultramaratonistas de trail na região está a crescer e todos olham para Jorge Serrazina como o exemplo a seguir. Num contexto em que muitas pessoas abandonam o desporto aos 40, 50 anos, a mensagem que deixa é a máxima que ele próprio seguiu: “nunca é tarde para começar”.










