De Lourenço Marques às Caldas, o professor construiu uma vida dedicada à ginástica. Mais do que as medalhas, a sua obra mede-se pelo desenvolvimento que fez da modalidade, mas principalmente nas vidas transformadas
Stélio Lage celebra 50 anos de uma carreira marcada por uma paixão inabalável, resiliência e um compromisso profundo com a formação de atletas e cidadãos. Nascido em na capital de Moçambique, Lourenço Marques (atual Maputo), em 1956, iniciou a sua jornada no desporto muito cedo, moldando uma vida dedicada à ginástica e à educação física. Por ele passaram milhares de jovens ginastas, mais de uma centena de campeões nacionais, além de ter criado o Festival Internacional de Ginástica das Caldas da Rainha, que todos os anos continua a trazer à cidade ginastas de topo mundial.
A sua formação académica começou no Liceu Nacional Salazar, onde os seus pais desejavam que seguisse Direito. No entanto, Stélio tinha outros planos. “Achei que não era bem aquilo que eu queria”, recorda. A opção foi ingressar na Escola de Educação Física. Naquela época, o INEF (Instituto Nacional de Educação Física) não existia em Moçambique, pelo que o bacharelato era o nível máximo de formação disponível. A licenciatura exigia que os estudantes se deslocassem à metrópole, uma opção que só estava ao alcance das famílias com melhores condições económicas. Optou, então, por ficar e procurar a sua independência financeira. “Quis ser “homem” muito novo e pagar as minhas coisas, ter a minha casa, mas estava a estudar ainda”, diz. Esta decisão implicou conciliar os estudos com o trabalho. “Nós antigamente tínhamos esse tipo de mentalidade, de crescer independentes muito rápido”, afirma.
A sua carreira profissional teve, assim, início em 1975, numa escola secundária na Polana, onde começou a ensinar ginástica a jovens carenciados. No mesmo ano, foi convidado a lecionar na Escola de Educação Física onde se formou. “Eu fiquei doido de alegria, ia sair de uma escola secundária para uma escola superior”, confessa. Acumulou esse trabalho com a Escola de Magistério Primário. Posteriormente foi convidado a formar monitores desportivos em ginástica para todo o país, um projeto que o levou a criar, inclusivamente, dois manuais, utilizando máquina de escrever e folhas policopiadas.
Stélio Lage tornou-se uma referência nacional como treinador de ginástica, mas o gosto pela modalidade não foi imediato. Em Moçambique, Stélio praticava atletismo, destacando-se no salto em altura, e basquetebol federado. A ginástica era apenas uma das disciplinas que lecionava. O ponto de viragem deu-se quando chegou a Portugal
A sua vinda para Portugal, em 1976/77, marcou um ponto de viragem. Colega de escola de Vítor Mendes, que se viria a tornar campeão e recordista nacional do salto em altura na década de 1980, Stélio não teve oportunidade de continuar a desenvolver-se na modalidade. “O Vítor Mendes entrou para a Caixa Geral de Depósitos e podia treinar no Jamor”, recorda. Sem pista para treinar, nem hipótese de ir a Lisboa e voltar para Torres Vedras – onde se fixou –, improvisou. Procurou a Física, onde sabia que havia aulas de ginástica. O objetivo era juntar colchões e colocar um fio para poder praticar os saltos. Joseph Sammer, responsável pela ginástica da Física, declinou o pedido, mas ao saber que Stélio era formado em educação física, ofereceu-lhe uma vaga como professor. Apesar da hesitação inicial, por não ser uma área que dominasse, Sammer insistiu e prometeu-lhe ajuda, convencendo o jovem professor a aceitar. “Ele disse-me que o trabalho era pago à hora, eu vinha de África, ganhava 10 contos e pagava uma renda de 5, tinha uma filha a caminho…”, lembra. Aceitou, uma decisão que lhe mudou a vida.
Com 21 anos, acumulava este trabalho com aulas na Escola Comercial e Industrial de Torres Vedras e na Direção-Geral dos Desportos, percorrendo as aldeias do concelho a dar aulas de atividade física. Pelo meio ainda arranjou tempo para voltar às quadras de basquetebol para representar a Física, numa modalidade na qual chegou a jogar na 1.ª Divisão nacional em Moçambique.
Com Sammer, o gosto pela ginástica foi crescendo. “Ganhei o gosto porque ele deu-me seis ou sete alunos para desenvolver”, explica. Com a prática e a orientação do mentor – que lhe deu inclusivamente alguns livros para estudar –, Stélio ficou “encantado” com o progresso notável dos seus alunos.
No início da década de 1980 dá-se uma nova mudança na vida de Stélio Lage, que chega às Caldas da Rainha. Uma transição que não foi fácil, como já não tinha sido a chegada a Portugal, devido à descriminação que enfrentavam os retornados. “Foi um bocado violento para mim”, confessa. Nas Caldas, começou com a contestação à sua colocação na escola pública, com alegações de que a nota não era verdadeira, o que o obrigou a comprovar a veracidade dos documentos.
Apesar das adversidades, o caminho prosseguiu e encontrou um novo lar na Sociedade Columbófila Caldense, onde a ginástica estava a ter grande desenvolvimento. Formou uma classe mais restrita, focada em talentos, o que gerou críticas de “divisionista” e “seletivo” por parte dos colegas. “Se quero ir mais longe com os miúdos, não tenho outra forma que não formar uma classe reduzida de talentos”, defende. Esta abordagem, embora controversa na época pós-25 de Abril, provou ser eficaz, dado que os primeiros títulos nacionais não demoraram a chegar, Ana Conde e Ricardo Lima, foram exemplo.
A sua visão levou-o a convidar também equipas de topo nacionais para demonstrações nas Caldas, elevando o nível da ginástica local. O modelo tornou-se de sucesso e deu origem ao Festival Internacional de Ginástica das Caldas da Rainha, que começou a organizar ainda no Sporting Clube das Caldas, com atletas convidados da então União Soviética e da Suécia, e que se continua a realizar até hoje, apenas com interrupção nos anos da pandemia.
Nas Caldas teve um regresso esporádico ao atletismo, mas que confirma o potencial que tinha na modalidade. A convite de António Vasconcelos, aceitou integrar uma equipa para ajudar o Arneirense a subir de divisão. O convite era para participar no salto em altura, mas acabou por competir em mais três disciplinas: 4×100 metros, salto em comprimento e triplo salto. Contra as suas próprias expectativas, fez 1,90 m no salto em altura, estabelecendo o recorde distrital de Leiria, em pista de cinza, marca que só seria batida anos mais tarde por outro caldense, Pedro Raposo, já em pista de tartan. Também voltou a estudar para tirar a licenciatura que não tinha podido completar em Moçambique.
A fundação do Acrotramp
De volta à ginástica, após passagens pelos Bombeiros e pelo Sporting Clube das Caldas, onde continuou a enfrentar limitações no material e no apoio, Stélio Lage decidiu fundar o seu próprio clube. “Se tinha que gastar dinheiro para ter melhores condições, não me restava outra alternativa senão começar a procurar o meu próprio espaço”, afirma. Assim nasceu o Acrotramp Clube das Caldas, fundado com cerca de 10 pessoas em 1990 e que, hoje, 35 anos depois, é o seu maior legado na modalidade.
Entre essas pessoas estava já Alexandra Lage, que viria a tornar-se companheira, tanto na ginástica, como na vida. “Se a Xana não fosse professora de Educação Física, treinadora de ginástica, se não me acompanhasse e não me desse o apoio que isto exige, era impossível”, admite. Stélio Lage não se limita a reconhecer esse mérito no passado. O papel da treinadora continua a ser decisivo até hoje, quando muitos olham para os resultados do clube e associam o mérito sobretudo ao seu nome.
Ao longo de décadas, o trabalho de Stélio Lage produziu resultados significativos. Ainda antes do Acrotramp, na Física de Torres Vedras, surgiram as primeiras marcas na ginástica artística. “Na altura, era tão miúdo que nem valorizei, nem tirei fotos com eles de pódio”, lamenta. Com o amadurecimento do projeto Acrotramp, começaram a surgir de forma sistemática atletas com títulos nacionais, que são hoje mais do que uma centena, e a participar em competições internacionais.
Proporcionar a jovens atletas a experiência de participar em campeonatos do mundo é das mais compensadoras. “É uma loucura para nós, mas eles são jovens, são crianças, e vivem uma experiência que nunca mais esquecem. Alguns deles nunca tinham andado de avião, tão pouco, e estarem fora dos pais naquele contexto é extraordinário”, refere.
As pequenas vitórias também têm muito valor. “Ver um jovem atleta realizar um movimento pela primeira vez, aquele olhar de contentamento, não tem preço”, diz. Mas também reconhece “maus momentos”, como as lesões de atletas. “Sofre-se muito e põe-se tudo em causa”, confessa.
De resto, hoje a componente pedagógica é mais valiosa para o treinador do que no início, quando “tinha a filosofia de exigência brutal” de Sammer. “Era super exigente, gritava com os miúdos. Com o tempo fui mudando, já levo isto mais numa de “vá lá, tenta lá”. Os antigos atletas que me visitam dizem isso, que mudei muito”.
A razão é profunda: compreendeu que há mais no treino do que os movimentos técnicos. “Há muita gente que eu guardo no coração, não pelas marcas, mas pelas excelentes pessoas que são. Entre um campeão, e uma boa pessoa, isto nem tem troca”, reforça.
Para Stélio Lage, a ginástica ensina disciplina, método e organização. No entanto, é também uma modalidade “ingrata”, com pouco reconhecimento público e mediatismo, apesar do enorme esforço e sacrifício exigidos. “Mesmo para se ver um campeonato do mundo, é um bocadinho ao sábado à tarde e pouco mais”, lamenta.
Ao longo da sua carreira, Stélio tem sido um defensor incansável da modalidade, lutando por melhores condições e reconhecimento. Foi fundador, inclusivamente, e presidente da Associação de Ginástica do Distrito de Leiria, por quase 10 anos.
Apesar de todas as dificuldades, Stélio mantém otimismo sobre o futuro porque vê sinais claros de que o clube se tornou independente do seu fundador. O reforço dessa ideia veio recentemente. “Temos um corpo técnico excelente e, por exemplo em relação ao Sarau, tivemos uma reunião de preparação em que quem deu todas as ideias foram eles”, nota com orgulho.
Mas, mesmo assim, ainda tem sonhos. Gostava de ver as instalações crescerem, para poder trabalhar outras áreas da ginástica que hoje não pode, por limitação de espaço, um pedido que faz há vários anos e lamenta que continue sem resposta. E gostava também de voltar a organizar um grande acontecimento que junta ginástica, atividades militares e atividades culturais, no Campo da Mata, que aconteceu uma única vez na década de 1990.
A medalha de Bons Serviços que recebeu na gala dos 75 anos da Federação Ginástica de Portugal é um símbolo importante, mas talvez não chegue para traduzir a dimensão do que Stélio Lage fez, e continua a fazer pela modalidade. No tapete, no trampolim ou na sala de aula, o jovem que um dia recusou ser advogado para ser professor continua a ser, sobretudo, isso: alguém que acreditou que a ginástica podia ser mais do que um desporto, podia ser, e foi, uma escola de vida.
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