
Muito antes de descobrir que o aerogramas eram mentiras generalizadas já o militar se debatia entre o juramento de bandeira («Juro ser fiel à minha Pátria e estar pronto a lutar e a dar a vida por ela»)e a guerra de guerrilha: «É para esmagar esta subversão que precisamos de atiradores hábeis». Percebeu que descolonização era inevitável («o que estudara sobre a presença portuguesa em África deixara-o desenganado quanto à chamada guerra justa») e nas aulas de Mafra ouve «críticas ferocíssimas sobretudo quanto às mentiras ou lógica de pechisbeque porque se defendia o Portugal Imperial, agora Ultramarino.»
Quando volta em 2010 aos lugares da sua guerra, o militar sabe que «não se faz uma viagem ao passado para amaldiçoar o presente» e o seu discurso aos antigos comandados é elucidativo: «Quase menino e moço saí de casa de minha Mãe para me fazer soldado como vós. Os primeiros contactos foram difíceis, nada sabia sobre os vossos usos e costumes, aqui cheguei de barco e cedo me empolguei por este pedaço de terra dos negros que me coube por missão ou dever por carta de perdão. Fiz-me homem entre vós. Venho suplicar-vos que não percam a vossa nobreza, a vossa postura senhorial a despeito de tanta agrura. O Deus misericordioso, que nos comtempla, se exulte com a nossa alegria e me perdoe as faltas e me conceda junto de vós, alcançar a vida eterna. Porque o vosso e o meu Deus ditam o mesmo mandamento, amarmo-nos uns aos outros como Ele nos amou».
(Edição: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: José Antunes, Revisão: Pedro Ernesto Ferreira)
José do Carmo Francisco







