Paula Ganhão
Gestora de Projetos
Há uma altura do ano em que tudo parece querer começar outra vez. As agendas renovam-se, as palavras “novo” e “mudança” circulam com facilidade excessiva, como se bastasse nomeá-las para que ganhassem forma. Mas, passada a primeira semana, o mundo recupera o seu ritmo habitual. As ruas voltam a encher-se, os dias sucedem-se sem cerimónia, e a ideia de recomeço dilui-se na rotina.
É aí que os sonhos são postos à prova.
Fala-se muito da importância de sonhar. Um sonho dá direção, cria tensão entre o que é e o que pode vir a ser. Sem ele, o movimento torna-se errático, reativo. Mas há um equívoco persistente: o de que sonhar é o momento mais exigente do processo. Não é. O verdadeiro esforço começa quando o sonho deixa de ser horizonte e passa a ser tarefa.
Pouco se escreve sobre a parte repetitiva das ambições. Sobre os dias iguais, em que não há avanços visíveis nem reconhecimento externo. Sobre a necessidade de repetir ações que parecem não produzir efeito imediato. É nesse intervalo — entre a intenção e o resultado — que muitos projetos ficam pelo caminho. Não por falta de visão, mas por exaustão.
A continuidade não tem prestígio. Não rende manchetes nem frases memoráveis. É silenciosa, previsível, por vezes aborrecida. Exige uma disciplina que não se confunde com rigidez, mas com compromisso. Continuar não é insistir cegamente; é ajustar sem abandonar, corrigir sem desistir. É aceitar que a transformação raramente é súbita e quase nunca confortável.
As cidades sabem isto melhor do que nós. Crescem não por grandes feitos, mas por acumulação: decisões pequenas, infraestruturas mantidas, hábitos que se sedimentam. O que parece estável é, na verdade, o resultado de uma atenção constante. Quando essa atenção falha, a degradação é rápida. O mesmo acontece com os sonhos individuais. Não se perdem de um dia para o outro; desgastam-se por negligência.
Há uma ideia romantizada de resiliência como superação espetacular. Mas resistir, na prática, é menos dramático. É aparecer todos os dias, mesmo quando o entusiasmo já não comparece. É aceitar que o progresso pode ser lento, irregular, quase impercetível. É trabalhar sem garantias, confiando mais no processo do que no aplauso.
Talvez por isso valha a pena olhar para o próximo ano não como um recomeço absoluto, mas como uma continuação consciente. Que 2026 não nos peça pressa, mas constância. Que nos peça menos promessas grandiosas e mais atenção ao que importa. Que a nossa continuidade seja o gesto mais corajoso do novo ano.






