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Crónicas de Bem Fazer e de Mal Dizer – XXI

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UMA PRINCESA PERFEITÍSSIMA

Gazeta das CaldasJoão Francisco de Sande Barbosa de Azevedo e Bourbon Aires de Campos (2.º Visconde e 3.º Visconde do Ameal), membro da Academia Portuguesa de História, com o pseudónimo literário de João Ameal [1902-1982], é o responsável pela criação de uma coleção de livros intitulada “Rainhas e Princesas de Portugal”. Como não podia deixar de ser, um dos títulos é dedicado à Rainha Dona Leonor, a quem o autor apelida de “Princesa Perfeitíssima”.
Publicado em 1943, pela Livraria Tavares Martins, do Porto, foi impresso na Tipografia Sequeira, na mesma cidade. Este livro contém uma tabela dos “Ascendentes mais próximos da Rainha D. Leonor”, assim como uma “Cronologia dos principais factos da Rainha Dona Leonor e dos acontecimentos mais notáveis ocorridos em Portugal desde o seu nascimento à sua morte”.
Abrimos o livro ao acaso e lemos:[showhide]
“As atenções e carinhos do rei para com Dona Leonor surgem, a cada passo, nos relatos dos cronistas. Em primeiro lugar, se o Príncipe, durante a jornada africana (mas só casado «por palavras»), se entregou a aventuras amorosas desculpáveis num moço vigoroso, com dezasseis anos apenas; se, mais tarde, cedeu aos encantos de Dona Ana de Mendoça e fez sofrer por isso dolorosos ciúmes à Princesa – foram meros e fugazes episódios, cujos vestígios se apagam depressa. O certo é que – nisto concordam os biógrafos – logo que sobe ao trono, passa também sob este apeto, a constituir exemplo impecável. […]
Sempre que receia pela vida de Dona Leonor, sente-se a sua angústia, reveladora, pelo menos, de profunda e viva amizade. Assim em Almeirim, quando a Rainha se encontra em perigo após um desmancho e D. João se mostra por isso «muito triste e mui enojado». Assim, depois, quando da sua grave doença em Setúbal, mal lhe chega a notícia, o Rei «pelo grande bem que lhe queria», embora também doente e quási sem meios de transporte, imediatamente se mete a caminho. Atinge Setúbal, sozinho, em plena noite. Pouca esperança parece haver para salvar a Rainha. E então – conta Rezende, testemunha presencial – «eu o vi chorar só muitas lágrimas com grandes soluços e suspiros, havendo-a já por morta…»
Outro caso sintomático é aquele passado em Alcochete, quando, certo dia, indo pela rua com Dona Leonor, um toiro tresmalhado lhes surgiu pela frente. O pânico apoderou-se da comitiva. Fogem todos e deixam-nos sós. Não pensa o Rei em seguir-lhes o trilho. Toma a Rainha pela mão, puxa da espada e coloca-se diante dela, para a cobrir com o seu corpo. Eloquente demonstração da facilidade com que, por ela, vai até arriscar a vida.
Mais de uma vez, aliás, D. João II dá público testemunho dos seus sentimentos para com a Rainha. Qual a divisa que escolhe como tema da vida inteira? A de D. Leonor.
Ouça-se Rui de Pina. – «El Rei, em sendo Príncipe, tomou por devisa, pela Princesa sua mulher, um pelicano, …. E com ela trouxe por letra correspondente a piedosa morte do Pelicano que dizia: «Por tua lei, e por tua grei.»
D. Leonor[…] Dir-se-á até que D. João quer deixar à posteridade uma legenda simbólica, a reforçar a sua união indissociável, acima de tudo, através de tudo, com a esposa que de Deus recebeu.”
Deixemos o Pelicano, a sós, com a sua dor…

Isabel Castanheira

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Edição #5625

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