
Conforme tem sido noticiado na comunicação social, desde Março deste ano que o Sindicato dos Maquinistas instruiu os seus afiliados (na prática a quase totalidade dos maquinistas) a fazer greve ao trabalho extraordinário (horas extra e em dias de descanso) e em dia feriado.
Face a isto, numa medida de gestão que, apesar de tudo, nos parece correcta e legítima, a CP tem gerido esta situação de forma a garantir que não sejam afectados os serviços de maior procura, nomeadamente os comboios Alfa Pendular e Intercidades. Em contrapartida, o serviço inter-regional e regional tem sido fortemente afectado, sendo suprimida todos os dias uma grande quantidade deste tipo de comboios em todo o país.
Sendo a linha do Oeste unicamente percorrida por comboios regionais e inter-regionais, tal facto está a ter consequências catastróficas para o transporte ferroviário na região e coloca em risco a sobrevivência da própria linha.
Para quem procura transporte um dos factores mais dissuasores, se não mesmo o mais dissuasor, é a incerteza e a falta de fiabilidade do serviço prestado. E o resultado prático desta greve para os passageiros da linha do Oeste tem sido a sistemática supressão dos comboios de forma casuística e sem aviso prévio. Ou seja, a realização ou não de qualquer comboio na linha do Oeste é uma realidade inteiramente aleatória para o passageiro, cuja concretização favorável não irá correr o risco de assumir na sua opção de viagem. E o resultado é que actualmente na região do Oeste já ninguém conta com o transporte ferroviário. As páginas da Gazeta, outros órgãos de comunicação social e o universo bloguista, têm espelhado inúmeros testemunhos disso mesmo, com situações indiscritíveis e globalmente nada favoráveis para o futuro do transporte ferroviário nas linhas ditas secundárias.
Até os passageiros que eram tipicamente cativos da linha do Oeste, ou seja, estudantes e pensionistas, desviaram-se para o inevitável meio rodoviário, transferência esta favorecida ainda pela agressiva campanha de captação de clientes que tem sido inteligentemente desenvolvida pelos operadores rodoviários da região.
De tal forma que, presentemente, mesmo sem acesso a quaisquer dados oficiais, é fácil concluir que a procura da linha do Oeste caiu seguramente para menos de metade da que se verificava em 2010.
Ainda que o Sindicato dos Maquinistas afirme que privilegia as linhas ameaçadas pelo designado “Plano Estratégico de Transportes” e, se, como por vezes tem alegado, são as opções de gestão da CP que conduzem a essa situação, não se percebe como continua a pactuar com elas.
Uma greve tendo como objectivo condicionar ou modificar a actuação do empregador, para atingir os resultados pretendidos tem – por definição – de causar prejuízo à entidade patronal, seja esse prejuízo directo ou indirecto.
Ora, será possível que o Sindicato dos Maquinistas não compreenda que o modo como esta greve às horas extraordinárias está a ser feita, com os resultados práticos que efectivamente tem, é inteiramente prejudicial aos seus objectivos e nunca suscitará na administração da CP ou no Governo qualquer motivação para atender às pretensões dos grevistas? Não perceberá o Sindicato que, pelo contrário e acreditamos que inconscientemente, está a fazer um favor às intenções declaradas pela sua empresa e pelo Governo de supressão dos serviços regionais?
Afinal de contas, o objectivo completamente contrário à greve!
Não compreendemos como não é óbvio para o Sindicato que a supressão significativa, mas intempestiva e irregular, dos comboios regionais e de alguns suburbanos, afinal os serviços da CP cuja operação é mais deficitária, que resulta da greve ao trabalho extraordinário tem dois resultados evidentes:
* Diminuir os custos operacionais (pela não operação dos serviços e pelo não pagamento de horas extraordinárias) num valor muito superior às receitas que deles adviriam;
* Reduzir significativamente a procura dos serviços regionais, tornando-os, entretanto, efectivamente desnecessários.
Ambos estes resultados são benéficos e colaborantes para os objectivos expressos no PET no sentido de diminuir significativamente o serviço regional e, por absurdo, dificilmente se poderia arquitectar uma estratégia mais bem concertada.
Por muito legítimas que sejam as razões que assistem à classe profissional dos maquinistas, o que não colocamos em causa, os fins não podem justificar os meios! E os meios que estão a ser utilizados nesta greve estão a fazer a decadência do serviço ferroviário na linha do Oeste atingir o seu ponto de não retorno, se é que o não atingiu já.
Com a implementação das medidas preconizadas no “Estudo sobre a linha do Oeste”, entregue pelos municípios da região interessada ao Governo e que terá permitido suster até ao momento as intenções constantes no PET de supressão em parte da linha do serviço de passageiros, acreditamos que seria possível revitalizar o serviço, aumentando a quota de mercado da ferrovia no corredor e melhorando os seus resultados operacionais.
Em torno deste objectivo concretizável se reuniram os municípios, o tecido empresarial e a sociedade civil da região Oeste, numa união de esforços invulgar e que deu frutos.
Mas após os efeitos desta greve – que se prolonga continuamente há seis meses – aquilo que seria possível torna-se impossível e é todo o sentir da região Oeste que fica defraudado. Não esqueçamos a velha máxima em transportes: “É fácil perder um passageiro; é muito difícil trazê-lo de volta”. E neste momento já não é só o troço a norte das Caldas que está em risco, mas sim toda a linha, pois o troço a sul das Caldas é aquele onde a diminuição do número de passageiros tem sido mais significativa, mesmo sem os factores desestabilizadores da presente greve.
Muitas têm sido as atrocidades que, por negligência e incompreensão de sucessivas equipas de gestão do operador ferroviário, têm sido feitas à linha do Oeste, mas, se a linha encerrar com base em, agora sim, real ausência de procura, a machadada final só tem um responsável e um motivo: o Sindicato de Maquinistas e a forma absurda e contraproducente que escolheu para defender os interesses da classe profissional que representa.
E, quanto menos linhas e comboios houver no futuro, menos pessoas serão necessárias para os fazer funcionar…
Por: Nelson Rodrigues de Oliveira – Autor do estudo “Linha do Oeste – Diagnóstico e Propostas”










