
Depois de um namoro frustrado pelas convenções da época com Joaquim, a narrativa do percurso de vida de Maria, com dois casamentos seguidos de suicídio (Caetano em 1944 e Alberto em 1950) leva-nos por temas pouco abordados na época. Seja a homossexualidade («durante a noite Diogo partilhava a cama do Ti Chico , a Ti Felismina dormia noutro quarto»),seja o aborto: «havia uma cortina branca e por trás dessa cortina uma velha maca de ferro, já enferrujada».
A vida na aldeia onde existem clínicas e as lavadeiras tratam da roupa das freguesas da cidade não é fácil. Oscila entre a doença («bastava que um doente tossisse, falasse ou espirrasse para que o micróbio da tuberculose se propagasse») e a cura com o senhor Sousa: «percorrendo a pé ou de motorizada toda a freguesia e arredores, muitas vezes à chuva e de noite, para dar injecções, quantas vezes sabendo que as pessoas não tinham dinheiro para pagar».
Há nestas páginas um mergulho na memória de um certo tempo português na região saloia através de palavras hoje em desuso. Como regimento (40 dias depois do parto), jantar (2ª refeição do dia), dias alumiados (dias santos), rapé (tabaco em pó), espinhela caída (mal da coluna), bucho virado (mal do estômago) ou enganada para definir rapariga que deixou de ser virgem e passa a usar um lenço na cabeça como aviso formal e público da nova situação.
(Chiado Editora, Capa: Vítor Duarte, Prefácio: Carlos Severino, Revisão: Levi Condinho)
José do Carmo Francisco







