«No lamaçal da Primavera» de Alice Ruivo

O livro organiza-se em histórias cruzadas de várias gerações, a autora evidencia o mérito de partir sempre do particular para o geral deixando o registo de um certo tempo português entre 1945 e 2015, algo como setenta anos. Foi em 1945 que os pais de Aurora (Severino e Amélia) casaram. Com o divórcio de Aurora e Jaime a transitar em julgado, surge uma aproximação a Mariana: «Mariana colocou a mão sobre a sua nuca, procurou a raiz naquela massa de cabelo. Beijaram-se. Sentiu o seu clitóris endurecer, sair do seu esconderijo para se oferecer à fricção.» Mais à frente acontece o desenlace («não criámos raízes, na verdade muita coisa nos separa») e a conclusão: «Célia era mãe de Severino (pai de Aurora) e de Olinda (mãe de Mariana). Tinham a mesma avó. A avó Célia. Eram primas. Ou meias-primas.» Mais tarde Aurora fará o balanço com Mariana: «Eu não deixei o Jaime, ele é que me deixou. Por isso tu não foste uma troca, da mesma forma eu também não fui para ti. Ou seja: não deixaste a Odete por mim e ainda bem. Por isso aqui ninguém usou ninguém. Acontece entre duas criaturas que são livres e donas da sua pessoa.»
Tal como no caso Aurora/Jaime, com o problema de Constança e Fernando passa-se o mesmo: o conflito passa do privado para o social e a história torna-se exemplar, ganhando assim o estatuto de história de proveito e exemplo. Um livro de 179 páginas que se lê com a sofreguidão de um «policial» não à procura do criminoso mas à descoberta do lugar específico do tecido social onde os dramas se escondem e se revelam.
(Capa: Maria Soledade Centeno, Prefácio: José Luís Outono, Posfácio: Lynda Carvalho)





