
Maria do Rosário Carvalho
Professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Investigadora no Instituto Dom Luiz
A conjugação entre herança histórica, conhecimento técnico, proteção ativa do aquífero e valorização territorial projeta este recurso para o futuro, ampliando o seu valor social, ambiental e económico
A cidade das Caldas da Rainha detém um património hidrotermal e geotérmico cuja importância ultrapassa amplamente a dimensão histórica e cultural. As suas águas termais, conhecidas desde a Idade Média, emergem a cerca de 32 °C e apresentam uma composição química singular, responsável pelas suas reconhecidas propriedades terapêuticas para doenças do aparelho respiratório, reumáticas e músculo-esqueléticas. Esta vocação curativa remonta a 1485, quando a rainha D. Leonor ordenou a construção do que é hoje considerado o hospital termal mais antigo do mundo.
Uma água termal é uma água subterrânea, de circulação profunda, cuja temperatura é, pelo menos, 4 °C superior à temperatura média do ar na região. No caso das Caldas da Rainha, a água, além de termal, é classificada como neutra, hipersalina, contendo cerca de 2.935 mg/L de sais dissolvidos, sulfúrea, pela presença de espécies reduzidas de enxofre, e cloretada-sulfatada sódica, refletindo a predominância dos respetivos iões. Estas características resultam de um circuito hidrogeológico profundo e complexo, estudado ao longo das últimas décadas por diversas equipas científicas, sob orientação continuada dos diretores técnicos das Termas.
A génese deste recurso está intimamente ligada ao Diapiro das Caldas da Rainha, estrutura geológica que condiciona a emergência não só das águas termais da cidade, mas de outras águas na região, como a de Gaeiras. Um diapiro é uma formação geológica em que uma massa de rocha menos densa, evaporítica, como o sal-gema, sobe através de camadas mais densas e rígidas, como o calcário, deformando-as. O percurso subterrâneo da água termal (Figura 3) tem início com a infiltração de água da chuva no flanco ocidental da Serra dos Candeeiros, onde afloram formações carbonatadas do Jurássico Médio. A partir daí, o escoamento subterrâneo processa-se predominantemente para oeste, ao longo de cerca de 15 km de rochas carbonatas, conhecidas como Camadas de Alcobaça, que podem chegar a centenas de metros de profundidade e onde a água permanece durante centenas ou milhares de anos. A ascensão da água aquecida ocorre no contacto entre as Margas de Dagorda — uma formação de baixa permeabilidade associada ao diápiro e que funciona como barreira ao escoamento profundo — e os calcários permeáveis do Jurássico (Malm). A falha com orientação NNE-SSW que bordeja o diapiro facilita a subida rápida da água termal, emergindo à superfície. À medida que a água circula pelos calcários, adquire uma composição bicarbonatada cálcica; ao ascender pela zona de falha e entrar em contacto com as formações salinas do diapiro, passa a apresentar uma composição cloretada sódica e sulfatada, adquirindo assim a sua composição química característica.
A salvaguarda da qualidade química da água termal é essencial para manter as propriedades terapêuticas que justificam a sua utilização clínica. Da mesma forma, a proteção da quantidade — assegurando níveis de exploração compatíveis com a renovação natural do sistema — é fundamental para garantir a sua sustentabilidade a longo prazo. Embora a água tenha uma circulação profunda, quando ascende junto ao contacto com o diapiro, a sua proximidade à superfície torna-a vulnerável à contaminação. A gestão integrada do território, o controlo rigoroso das atividades potenciadoras de risco e o cumprimento de planos de monitorização hidrogeológica são, por isso, determinantes. A proteção das captações da água termal é assegurada pela implementação de perímetros de proteção (Figura 4), que delimitam zonas do território onde atividades suscetíveis de comprometer a qualidade do recurso são proibidas ou condicionadas.
Para além do potencial estratégico do seu valor terapêutico, a água termal pode ser aproveitada como recurso geotérmico, avaliado em 1540 kWt. O gradiente geotérmico da Terra associado ao circuito profundo pode aquecer a água até cerca de 60 °C, representando uma oportunidade relevante para o território, pois a energia térmica armazenada na água pode ser utilizada para aquecimento de edifícios, aumento da eficiência energética ou aplicações industriais de baixa entalpia.
Para além da sua dimensão científica e económica, este recurso hidrotermal tem uma forte componente identitária. A relação histórica das populações com as nascentes termais moldou a evolução urbana, social e cultural da cidade, constituindo um património que perdura e reforça o sentido de pertença comunitária. A relevância deste recurso natural é ainda ampliada pelo facto de estar integrado no território do Geoparque Oeste, reconhecido internacionalmente pelo seu elevado valor geológico, patrimonial e educativo. A presença das águas termais das Caldas da Rainha enriquece a narrativa geocientífica do Geoparque, representando um caso exemplar de interação entre estruturas profundas, fenómenos hidrotermais e ocupação humana histórica.
A conjugação entre herança histórica, conhecimento técnico, proteção ativa do aquífero e valorização territorial projeta este recurso de exceção para o futuro, ampliando o seu valor social, ambiental e económico e tornando-o um ativo estratégico para a região.












