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Carolina Rito: “No Reino Unido leva-se muito a sério a investigação artística”

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Aos 38 anos, ascendeu ao cargo de professora catedrática na Coventry University, em Inglaterra, o que considera que seria “impossível” em Portugal

A caldense Carolina Rito, de 44 anos, é professora catedrática e coordenadora no Research Centre for Arts, Memory and Communities (CAMC) na Coventry University, em Inglaterra, desde 2019, e afirma que, “em Portugal, isso seria completamente impossível, pela questão da idade e do género”. Já havia dado aulas na Goldsmiths University, em parte enquanto tirava o doutoramento, e, antes da partida para Inglaterra, há cerca de 15 anos, foi docente na ESAD.CR e na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Em 2024 esteve em Nova Iorque, com uma bolsa da Fullbright para investigar na School of Visual Arts.

Carolina refere que “sempre quis estar muito entre a prática e o pensamento”. Foi, pois, ainda enquanto tirava a licenciatura em História que começou a trabalhar, destacando-se, no seu percurso, o ter sido curadora-chefe no Nottingham Contemporary (2017 a 2020).

Pertence ao Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Afirma que a sua área tem uma relação próxima com a comunicação de ciência. Neste âmbito, a caldense está atualmente a desenvolver um programa de formação para técnicos museológicos com Cabo Verde e com Portugal. “Tem a ver com a colonialidade dos museus. Sendo eles uma estrutura que se desenvolveu como uma ferramenta de apoio ao projeto colonial, no final do séc. XVIII e princípios do séc. XIX, como é que, hoje, podemos atualizá-los para que não estejam ao serviço de uma ideologia que não é respeitadora de todos os cidadãos, não esquecendo que muitos dos seus objetos foram eventualmente trazidos de forma ilegal”, explica. Foi em maio que esteve a dar as formações nos Museus José Malhoa, da Cerâmica e da Nazaré.

Esta sua “sede de pensamento crítico, de questionamento, de trabalho político” herdou-a dos pais. O pai era advogado e a mãe foi professora de Português/Francês e depois passou para a Antropologia, área a que ainda se dedica, e estiveram ambos exilados em França durante a ditadura salazarista, apesar de só se terem conhecido mais tarde, após o 25 de Abril, de regresso à pátria. “Essas histórias de Paris e de Grenoble (quando a luta se continuava a fazer fora de Portugal), as conversas sobre a política portuguesa” que, “desde pequenina”, eram com ela tidas à mesa, muito contribuíram para a formação dos seus gostos, nomeadamente o “fascínio pela História”.

Carolina Rito realizou o seu percurso escolar nas Caldas, começando pela Escola Primária do Bairro da Ponte, passando para a preparatória D. João II e depois para a Raul Proença. Esteve muita indecisa entre seguir Ciências ou Humanidades, acabando por optar por esta última área, realçando a importância da professora de História Celeste Custódio nesta decisão.

Licenciou-se em História – variante História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 2003 e terminou o seu Mestrado em Estudos Curatoriais pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa em 2009. O doutoramento que realizou entre 2011 e 2016 é em Curatorial/Knowledge, da Goldsmiths University.

Um salto incomum: professora catedrática aos 38 anos
“Foi uma oportunidade única. Foi uma colega que me falou desta possibilidade, que eu até estava muito bem no Nottingham Contemporary, mas ela insistiu comigo”, conta a investigadora. “Foi muito interessante ver como valorizaram o meu trabalho de investigação e também a prática: desenvolvo a minha investigação através da prática curatorial. Aqui a área da investigação artística é levada muito a sério”, diz.

Na Coventry University, onde fez este mês de novembro seis anos que lá está com contrato “apenas de investigação”, Carolina dirige a área de investigação artística no CAMC, apelidada de “Practice Research”, e orienta alunos de doutoramento. Carolina é também muito solicitada para dar seminários noutras universidades europeias, mas não só. Por exemplo, esteve a falar do 25 de Abril, em Berlim, na Humboldt University, em particular, dos movimentos de libertação em África e a revolução portuguesa.

Em Nova Iorque, onde esteve no primeiro semestre de 2024, através de uma bolsa financiada pelo Departamento de Investigação dos Estados Unidos, pôde aprender sobre práticas curatoriais com Steven Henry Madoff, o fundador do Mestrado em Prática Curatorial na School of Visual Arts. “É um dos mestrados mais importantes nesta área”, defende. Desta residência resultou também mais um capítulo na sua investigação.

“Faço muito trabalho editorial como trabalho curatorial, ou seja, pensar como é que trazer várias vozes conjuntamente na mesma publicação vai produzir coisas novas que uma publicação individual de cada uma dessas partes não permitiria criar”, afirma. Destaca a publicação “Institution as Praxis” (2020)” por ser “seminal” no desenvolvimento do seu pensamento, e que “consolida conceptualmente o projeto do Nottingham Contemporary, na perspetiva de como é que pomos em prática a possibilidade das universidades não serem o único sítio onde se produz conhecimento, como é que conseguimos pensar numa instituição cultural também como tendo essa função”.

De momento está a editar uma série de ensaios, “On the curatorial”, “com vários colegas que tiveram um importante papel nestas discussões da curadoria, que começaram há cerca de 20 anos”.

Rotina em Inglaterra
“Aqui, à semelhança do que se passa nos países nórdicos, há um respeito muito grande pela qualidade de vida e pelo que cá chamam ‘work-life balance’”, diz, acrescentando que “o meu horário é flexível, mas o habitual são sete horas de trabalho diárias, incluindo a hora de almoço. Aliás, “é mal visto se a pessoa ficar até muito tarde a trabalhar, porque é sinal de que não conseguiu cumprir o seu trabalho no tempo esperado”, continua.

Assim, Carolina arranja tempo para ir ao ginásio, e agora está no processo de criação de uma banda, apesar de nunca ter estudado música. Está ainda a tirar uma formação para ser sommelier, e recentemente também descobriu a paixão pelo ténis. “Chegamos a uma altura da nossa vida em que não nos interessa se seremos bons ou não a fazer algo, apenas nos queremos divertir, a sós ou com os amigos”, afirma.

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Edição #5625

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