
A história começa em 2007, com a vontade do anterior presidente da Câmara de Alcobaça, Gonçalves Sapinho, de construir no concelho através de uma parceria público-privada seis centros escolares: Alcobaça, Alfeizerão, Benedita, Cela, Pataias e Turquel.
Corria o ano de 2008 quando foi criada a Cister Equipamentos, uma empresa detida em 51% pela MRG Engenharia e Construção SA e em 49% pela autarquia através da empresa municipal Terra de Paixão. (criada expressamente para o efeito).
A empresa pediu um empréstimo de 29,4 milhões de euros à CGD (a pagar em 25 anos) e usou esse dinheiro para construir os centros escolares de Alcobaça e de Benedita e o pavilhão de Évora de Alcobaça. Este último, apesar de acabado há cerca de quatro anos, até hoje ainda não abriu.
À autarquia cabia assumir as rendas de utilização dos espaços construídos, avaliadas num total de 63,5 milhões de euros e pagos à Cister Equipamentos S.A. ao longo de 23 anos.
No início do ano lectivo de 2011/12 as escolas foram inauguradas e começaram a funcionar. Mas faltava o visto do Tribunal de Contas, que em Julho de 2013 chumbou a proposta.
Porquê? O Tribunal de Contas é arrasador: não havia estudos comparativos entre a solução adoptada e outras tradicionalmente usadas na contratação pública; não havia partilha de riscos entre parceiro público e parceiros privados; e porque violava o princípio da equidade intergeracional.
A autarquia recorreu da decisão do TC, mas em Fevereiro deste ano o veredicto manteve-se. A falta de visto do Tribunal de Contas impediu a transferência dos valores relativos à renda de utilização do centro escolar.
E como a Cister Equipamentos S.A. nunca recebeu a renda, nunca pagou o IVA. Por isso, no mês passado as finanças penhoraram o edifício do Centro Escolar de Alcobaça devido a uma dívida que já atingia os 246 mil euros. A Autoridade Tributária chega mesmo a pôr online a venda em leilão do direito de superfície sobre o imóvel – avaliado em 2,7 milhões de euros – até 29 de Janeiro, por um valor a rondar os 970 mil euros.
Câmara garante liquidação
A Câmara de Alcobaça reagiu publicamente em comunicado, no dia 4 de Janeiro, esclarecendo que a dívida “diz respeito à Cister Equipamentos SA” e que essa empresa “já informou o município que, em articulação com a Caixa Geral de Depósitos, entidade financiadora desta sociedade, irá regularizar esta dívida nos próximos dias”.
No mesmo documento afirma não ter sido formalmente notificada pela AT e refere que “por força da recusa do visto do Tribunal de Contas relativamente aos contratos de arrendamento dos equipamentos da Cister Equipamentos SA, o município de Alcobaça está juridicamente impedido de fazer face, por ora, a transferências financeiras para esta entidade”, o que a impede de ser ela própria a pagar a dívida às finanças.
O município diz que “iniciou um processo negocial com vista à internalização do património da Cister Equipamentos SA e respetiva extinção desta”. E faz questão de referir que “o Centro Escolar de Alcobaça está em normal funcionamento, como sempre esteve”. Isto porque a escola, que é pública e onde estudam cerca de 500 alunos, recebe os fundos normais do Orçamento de Estado.
Oposição queixa-se de nada saber
O PS de Alcobaça enviou uma carta à autarquia com 18 perguntas e o pedido de acesso a oito documentos, mas, tanto quanto foi possível apurar, ainda não recebeu resposta.
Já o CDS-PP afirmou não ter “qualquer informação que apontasse para este desfecho, nem do próprio processo em si”, tendo tomado conhecimento da mesma através da comunicação social. Acusa a Câmara de “ter sonegado informação aos vereadores da oposição”. O CDS assinala ainda que “há mais de 4 anos que os centros escolares de Alcobaça e Benedita estão em funcionamento e a Câmara Municipal ainda não pagou um único cêntimo, o que configura uma situação estranha, grave e pouco transparente”.
Em relação aos 246 mil euros em dívida, diz o CDS que são “valores que não conferem com o valor em dívida declarado pelas Finanças no seu site institucional”.
Por sua vez, a CDU lembrou que “há muito que alertou para este acto doloso que foi a criação da empresa municipal Terra de Paixão e a super rápida escolha da empresa MRG para ter os 51% da Cister Equipamentos S.A.” e que “só a CDU, em Programa, em Câmara e na Assembleia Municipal, se opôs a esta aposta, ruinosa, da maioria PSD”.
A pedido da oposição, os partidos ficaram de agendar uma reunião, possivelmente ainda durante esta semana, para debater o problema.





