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Incorporar inovação é o grande desafio das cooperativas de solidariedade social

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Encontro Nacional decorreu em Peniche e discutiu necessidade de incorporar inovação, mas também a valorização do trabalho e do investimento social para um futuro mais justo e inclusivo

O Encontro Nacional das Cooperativas de Solidariedade Social decorreu nos dias 27 e 28 de novembro em Peniche e ficou marcado por um apelo à inovação, à valorização do investimento social e à afirmação das cooperativas como motor de desenvolvimento económico e inclusão. Estas organizações estão na linha da frente da resposta às fragilidades sociais, mas enfrentam um momento decisivo em matéria de financiamento, modernização e reconhecimento público.

Para Joaquim Pequicho, dirigente da Fenacerci e presidente da Confecoop e da CERCINA, o balanço do encontro é “sempre positivo” porque junta pessoas que partilham “um conjunto de princípios, de uma visão e de uma missão” na defesa das pessoas com deficiência, num movimento cooperativo que celebra agora 50 anos. O dirigente sublinha que estes momentos permitem “fazer pontes” entre diferentes posições e ideias, num espaço de debate formal e informal onde se constrói “um caminho que nos honra” e que tem marcado a história do movimento CERCI.

O responsável identifica como grande desafio “incorporar a inovação e a experimentação naquilo que já fazemos”, encontrando novas respostas para necessidades cada vez mais complexas que o atual quadro de cooperação não consegue cobrir totalmente. Ao mesmo tempo, aponta à integração de indicadores ESG e a uma “narrativa mais mainstream” que permita afirmar que, para além do altruísmo e da inclusão, as cooperativas de solidariedade social “são também economia”, num modelo híbrido que não é associação nem empresa, mas que presta contas, é transparente e contribui para a riqueza do país.

Ana Mendes Godinho, ex‑ministra do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social, levou ao encontro a mensagem de que “a economia social é o futuro”, porque organiza a sociedade em torno do progresso convertendo a rentabilidade não em lucro, mas “na capacidade de transformar a vida das pessoas”. A ex-ministra defendeu que estas organizações precisam “de ter mais força, mais voz” e de ver o investimento social assumido como prioridade nas políticas públicas.

Ana Mendes Godinho alertou para um “momento crítico” que a economia social vive, aludindo ao corte de 280 milhões de euros no PRR dedicado ao investimento social, o que, afirma, reduz cerca de 24 mil respostas a pessoas, questionando se o país quer “desistir do investimento nas pessoas”. A ex-ministra que tutelou o setor realçou que o investimento na infância tem retorno económico elevado, recordando que, na sua legislatura, o reforço de 0,5% do PIB nas crianças dos 0 aos 3 anos permitiu reduzir em 11 pontos percentuais o risco de exclusão. Com estes dados, apontou que o desinvestimento no social é “um erro histórico” que está a acontecer.

Entre as prioridades, Ana Mendes Godinho destacou ainda a necessidade de “valorizar quem trabalha na economia social”, lembrando que o setor emprega cerca de 300 mil pessoas. Defendeu a criação de um “estatuto do trabalhador da economia social” como forma de reconhecimento de quem está “ao serviço dos outros” e apontou a inovação e a ponte com a economia tradicional como terceiro eixo estratégico.

Ana Mendes Godinho também focou a necessidade de articulação com o mundo empresarial e os modelos ESG, propondo a criação de “um selo sobre o impacto social das organizações da economia social”, que possa ser integrado nos mecanismos de certificação, reforçando a visibilidade e o peso destas entidades. A ex-ministra considera que este caminho permitirá consolidar o papel da economia social como força de inclusão, justiça social e aproveitamento do talento das pessoas.

O setor tem um universo de cerca de 2.100 cooperativas em Portugal, inseridas nas 74 mil organizações da economia social, das quais o ramo da solidariedade social assume um papel decisivo junto “dos segmentos mais frágeis da comunidade”, enquadrou Filipe Almeida, presidente da Portugal Inovação Social. No encontro, sublinhou que, com a rede CERCI, se fala da “franja mais vulnerável dentro do segmento mais vulnerável”, referindo‑se às pessoas com deficiência intelectual e à importância de “dar luz” às necessidades destas organizações.

O responsável destacou dois eixos centrais: modernização e inovação. Na modernização, apontou a necessidade de políticas públicas que reforcem as cooperativas, promovam a descentralização para fora dos grandes centros urbanos, combatam desigualdades territoriais e apoiem o desenvolvimento de competências especializadas, formação e profissionalização das equipas. Na inovação, defendeu sobretudo uma inovação incremental, “formas diferentes de prestar serviços”, sejam novos métodos, práticas ou serviços, que melhorem a eficácia das respostas face a desafios sociais complexos e interdependentes.

Sobre a capacidade do setor social em acompanhar mudanças rápidas, Filipe Almeida afirmou que este “sempre foi o berço original das principais inovações sociais na história da humanidade”, lembrando que reúne organizações da sociedade civil que respondem a necessidades não cobertas pelo mercado, nem plenamente pelo Estado. O dirigente sublinhou que as CERCI são “os grandes especialistas nos problemas sociais da comunidade” e, muitas vezes, a fonte de soluções que mais tarde se transformam em políticas públicas estruturadas.

No plano do programa público de inovação social, desde 2014, utiliza fundos europeus para apoiar respostas inovadoras, cerca de 90% das organizações financiadas pertencem à economia social. Para o presidente da Portugal Inovação Social, este dado confirma que o setor “está a responder” e continua a ser o berço natural da inovação social de que o país precisa para construir políticas mais eficazes e uma sociedade mais inclusiva.

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Edição #5625

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