
O projecto Verão Azul proporciona todos os anos, desde 2008, cinco semanas de férias a um grupo de crianças provenientes de Ivankiv, nos arredores de Chernobyl, onde ainda subsistem elevados níveis de radioactividade desde o acidente nuclear.
José António de Sousa, CEO da Liberty Seguros Portugal, disse à Gazeta das Caldas que o grande objectivo do projecto é “permitir a estas crianças encherem o depósito de saúde, com boa alimentação, sol, praia, e sobretudo iodo, que lhes permite voltar para aquela atmosfera contaminada de Chernobyl e ter uma qualidade de vida maior”.
A selecção das crianças é feita anualmente, directamente em Ivankiv, e procura conjugar dois aspectos fundamentais: “crianças para quem esta vinda representa um importante benefício de saúde e provenientes de famílias carenciadas que não podem, de outra forma, proporcionar aos filhos umas férias deste tipo”, referiu José António de Sousa.
Este ano foram 14 as crianças beneficiadas, mas a seguradora tem perspectivas de aumentar o número de vagas, até porque o número de famílias de acolhimento têm vindo a aumentar.
Todos os anos as férias terminam com um encontro que reúne as crianças, as famílias de acolhimento, os responsáveis pelo projecto e os parceiros. Este ano o local escolhido foi o Buddha Eden, no Carvalhal (Bombarral). “É um marco muito bonito desta zona, é um local que permite um momento aprazível e é também uma forma de ajudar o concelho a divulgar os seus pontos de interesse”, disse o CEO da Liberty Portugal.
A costa portuguesa é ideal para estas crianças devido à riqueza das nossas águas em iodo. Este elemento é bastante importante para as crianças, e não só, que lidam com o ambiente daquela região ainda marcado por índices de radioactividade acima do normal.
O iodo é, segundo a Unicef, importante no combate ao risco de cancro da tiróide, um problema grave entre os jovens provocado pelo acidente nuclear, e a sua carência é também associada como principal causa de atraso mental, podendo levar à diminuição de 15 pontos do QI de uma população.
Três famílias de acolhimento em Peniche
Das 14 famílias que acolheram crianças de Chernobyl este ano, três são de Peniche. Hernâni e Maria João Leitão fazem parte desse grupo, num desafio que abraçaram há cinco anos. Ania Kot foi a criança que os visitou, em 2009, então com nove anos. Tem regressado todos os anos e desde então é mais um elemento da família.
No início a língua ainda foi uma barreira, ultrapassada pela mímica e pelo facto de Ani – como carinhosamente a tratam – saber um pouco de francês. Hoje fala bem português e está perfeitamente integrada. “Sente-se à vontade com a família, com os nossos amigos, com o ambiente de Peniche, é uma segunda casa e uma segunda família para ela, e uma felicidade para nós ela estar aqui e gostar de nós”, contou Hernâni Leitão ao nosso jornal.
As cinco semanas de férias são de “uma felicidade intensa”, mas passam depressa. Durante o resto do ano mantêm contacto através do telefone e da Internet. “Ela nunca se esquece dos aniversários da família toda, liga sempre, nós também ligamos várias vezes, e com o e-mail e o facebook todas as semanas comunicamos. Acompanhamos como ela está, a família, como vão os estudos, é uma ligação muito forte”, acrescenta.
Ania Kot, hoje com 14 anos, diz adorar tudo o que vive em Peniche durante as férias. “Tenho a minha família na Ucrânia, mas eles são a minha segunda família, gosto muito deles”, referiu.
O que mais gosta em Portugal são as praias, mas sublinha que gosta de tudo, sobretudo do carinho com que é tratada. “Sinto que sou o centro, toda a gente pergunta como estou e gosto de sentir esse carinho”, complementa.
É por isso que não quer deixar de regressar a Portugal todos os anos e até tem planos para o futuro. Quer tirar um curso de turismo na faculdade, no seu país e, quem sabe um dia, vir viver para Portugal.
Joel Ribeiro
jribeiro@gazetadascaldas.pt









