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Memórias de um antigo combatente

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Jardim da Estrela, Lisboa, num pequeno parque infantil entre baloiços, escorregas e bancos de jardim, sempre vigiados pelas nossas Mães, um grupo de crianças lá vai passando o tempo.

A certa altura a minha Mãe chamou-me e indicou-me um homem sentado num banco lendo um jornal. Aproximei-me e dei os bons dias, acrescentando que o meu Avô também lia o jornal “O Século”. Iniciou-se aqui uma pequena conversa, pois salientei que já sabia ler (tinha passado para a terceira classe) e que em certos momentos acompanhava o meu Avô na leitura. Admirou-se e deu-me os parabéns! Perguntei como se chamava? Respondeu Coutinho… e eu sou o Armando. A conversa pouco mais durou, mas quando cheguei a casa o meu Avô disse-me que eu tinha falado com Gago Coutinho…

Natal de 1968, ano do início da minha curta carreira militar, depois de fazer o CSM (curso de Sargentos Milicianos em Tavira e Tancos, especialidade de Eq. Mec. Eng.) fui colocado no Batalhão Sapadores Caminhos de Ferro, em Campo de Ourique, dando instrução de preparação física, manejo de armas e outras atividades militares, aos instruendos duma companhia de saúde, cuja formação técnica era ministrada por médicos do Hospital Militar da Estrela.

Nesta época de Natal organizou-se na unidade um almoço da guarnição militar, comemorando a efeméride. Aqui conheci um figurão ímpar das nossas Forças Armadas. O Senhor Aníbal Augusto Milhais, que entre outras condecorações ostentava o colar da ordem militar da torre e espada. Eu conhecia a história do célebre Soldado Milhões, que se distinguiu na Grande Guerra, em França. No fim da conversa desejou-me felicidades pois comuniquei que estava para breve a minha ida para Moçambique, destino: 2ª Companhia Engenharia – Vila Cabral – Niassa.

Quando me lembro destes dois episódios, fico feliz e em certas alturas a emoção … transvasa.

Depois duma longa viagem (36 dias) lá cheguei ao destino, no norte de Moçambique. Aqui fiquei 26 meses, percorrendo o Niassa, ajudando na construção de picadas para a Força Aérea, pontões e uma ponte com quase 150 metros. Ajudando também as populações, em especial na época das chuvas, fomentando a paz, em tempo de guerra, em locais remotos.

Muito mais haveria a dizer, mas termino saudando os militares portugueses que por esse mundo fora protegem populações e evitam o desenvolvimento da guerra. Que um dia quando regressarem façam parte da família de antigos combatentes, como eu, que entre outros, têm como símbolo honrado a sala do capítulo do Mosteiro da Batalha, para que a nossa nação continue Nobre e Imortal. ■

Armando Martins Alvoeiro
(2ª Companhia Engenharia “Com jeito vai” – Sócio
Combatente n. º179.338)

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Edição #5625

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