
O papel da imprensa regional na defesa de democracia e a sua importância na construção da memória coletiva foram destacados por José Pacheco Pereira na conferência “Porque é que a Imprensa Local é nacional”, que lotou o Âmbito Cultural do El Corte Inglés. A iniciativa marcou o arranque oficial da exposição “Os 100 anos da Gazeta das Caldas”, a 16 de dezembro
“A imprensa regional é o melhor retrato dos cortes da censura nos anos da ditadura” começou por afirmar Pacheco Pereira que, numa interessante “aula” de história, percorreu o passado e presente da imprensa regional em Portugal. Perante uma sala lotada, o historiador e professor universitário, mostrou exemplares de boletins dos cortes da Censura, datados de inícios da década de 30 do século passado e que contemplavam todos os jornais locais. “Há toda uma sucessão de conflitos, aparentemente menores, mas que na realidade retratam bem o que era a vida no período do Estado Novo”, explicou, dando nota que os cortes abarcavam múltiplas áreas da sociedade. Para além da secção de política, para proteger Salazar e os representantes do Estado Novo, os cortes registavam-se também em matérias de índole social e conflitos de “caráter moral”, como casos de violência doméstica, conflitos, fuga, dando o exemplo do corte de uma frase, num jornal local de Évora, que dizia apenas “rapariga fugiu de casa dos seus pais”, elencando as diversas hipóteses que estariam na cabeça do censor para o fazer. “Este tipo de cortes são sistemáticos e retratam um país muito violento do ponto de vista dos costumes”, registou, fazendo notar que muitas dessas notícias, “casos do dia”, apenas vinham contadas na imprensa regional.
O historiador lembrou que Portugal teve a mais longa ditadura da Europa (com exceção da União Soviética) e que uma geração, pelo menos, nunca leu um jornal em liberdade. Mas houve uma edição da Gazeta das Caldas que “violou as regras”, como realçou Pacheco Pereira, ao deter-se junto da segunda capa do semanário exposta na sala (de 29 de julho de 1928), para mostrar como este colocou em grande destaque “Visado pela Comissão de Censura” contrariando, deliberadamente, as indicações da Comissão de Censura, que queria “permanecer sempre escondida” e que o espaço dos artigos censurados não permanecesse em branco.
De acordo com Pacheco Pereira, a censura é a estrutura mais eficaz do Estado Novo e ela molda, ainda hoje, “a nossa maneira de pensar, de formas muito ínvias, na vandalização, na demonização da política e da ideologia. Há muitos aspetos em que nós ainda somos filhos da censura”. A PIDE e as instituições repressivas acabaram, mas “não acabou a denúncia, que também é um mecanismo muito comum e, infelizmente, um mecanismo muito popular ainda nos nossos dias”, concretizou.
A importância do jornal em papel
José Pacheco Pereira falou sobre os jornais regionais que lê, entre eles a Gazeta das Caldas, e mostrou a sua preocupação com o desaparecimento de uma “grande quantidade” de jornais locais, considerando-o um dos motivos de reflexão sobre o processo democrático, pois as comunidades deixam de ter notícias. Deu o exemplo da compra, por parte de grupos ligados à extrema direita, de rádios locais e órgãos da imprensa regional, “criando uma rede alternativa que tem, depois, muita influência nos media local”. Nos Estados Unidos, muitas das rádios mais radicais pro Trump são rádios locais e, no Texas, elas têm bastante influência, exemplificou.
Atentando a alguns jornais que ainda hoje sobrevivem e têm e tiveram uma “enorme influência”, deu os exemplos do Aurora do Lima, Jornal do Fundão, O Mirante e a Gazeta das Caldas. São “jornais que combinam o noticiário local com considerável independência e o tratamento das questões nacionais e artigos de opinião e cobertura das atividades culturais”, resumiu, dando nota de que o desaparecimento de “qualquer um destes jornais é uma tragédia para a democracia”.
Apesar da digitalização estar a ser “pessimamente tratada” com o “deslumbramento tecnológico”, Pacheco Pereira não vê problema algum em que os jornais sejam digitalizados, disponibilizando os seus arquivos. “O problema está em deixarem de existir em papel, argumenta o historiador, realçando que “não lemos da mesma maneira no ecrã do computador como lemos no papel. Esse tipo de deslumbramento tecnológico esquece que nós somos analógicos, não somos digitais”, especificando que temos limitações nos nossos sentidos que têm que ver com o ato de folhear, com a maneira como procuramos informação.
“Especialista” em necrologias, Pacheco Pereira defende a existência de uma base nacional de necrologias de todos os jornais, na qual a imprensa regional teria um grande papel. “O conhecimento das biografias das pessoas comuns ou que foram relevantes a nível local é um elemento muito importante para se poder fazer uma história de Portugal diferente daquela que se faz”, disse, lembrando que há uns anos propôs à sua escola – o ISCTE – fazer uma base de dados, que tinha o título “modesto” de TUDO, onde os investigadores e autores de biografias locais poderiam colocar informação. Essa base de dados só funcionaria quando tivesse milhões de entradas e permitiria fazer trabalhos com uma “dimensão muito diferente sobre a realidade”, explicou, lembrando que a Ephemera, embora numa variante menor, recolhe muita dessa informação. Interessa-lhe esse espólio das pessoas comuns, que lhe permite conhecer o quotidiano, por exemplo, de uma costureira, de um ferroviário, de um portador de deficiência. Essa base de dados contaria ainda com os artigos publicados, entre entrevistas, notícias de âmbito cultural e os conflitos nas autarquias e nas assembleias municipais, acrescentou. “E se essa base de dados fosse feita a partir da Gazeta das Caldas, Caldas seria dominante e tem muito a contar”, desafiou o historiador, lembrando, por exemplo, a história da família Maldonado Freitas na oposição ao regime. Deixou ainda um desafio aos estudantes para que estudem como evoluiu a escolha das entrevistas no jornal durante um século, porque os padrões mudaram “significativamente”, do mais institucional para um “comportamento mais informal”, com a recolha de testemunhos a escritores ou animadores culturais.
O problema da distribuição
O problema do atraso na distribuição dos jornais, por parte dos Correios também foi levantado. Pacheco Pereira não tem dúvidas que “há um combate a fazer” para mostrar o que as pessoas perdem não tendo acesso à informação. Defende que, sempre que haja eleições, seja “abordado o problema da imprensa local e da distribuição da imprensa nacional como uma questão central da democracia” e isso significa que “no programa dos partidos políticos e no comportamento dos atores políticos tem de se introduzir a defesa da imprensa local e nacional”. Entende que é preciso que o Estado apoie mas, mais do que isso, é necessário que “se crie um movimento de opinião pública ou nas elites para que o Estado se sinta obrigado a apoiar, pressionando os deputados a nível local, levando moções à Assembleia da República…”
Combates que, no entanto, reconhece, são “muito difíceis” porque “à medida que uma informação qualificada vai desaparecendo, a opinião pública muda e torna-se muito mais grosseira, muito mais recuada nestas matérias” e, por isso, é também “um combate que se tem de travar nos domínios cultural e político”, advoga o investigador.
A Gazeta no El Corte Inglés
A exposição “Os 100 anos da Gazeta das Caldas”, que mostra momentos marcantes da história deste semanário, através das suas primeiras páginas, suplementos temáticos e peças de autor, encontra-se patente no espaço Âmbito Cultural do El Corte Inglés, até 16 de janeiro. Aquando da sua inauguração, o coordenador das comemorações do centenário, Carlos Querido, salientou que a história que esta pretende contar resume-se na primeira página da edição do centenário, de 2 de outubro, “1925/2025: Um século a cumprir uma missão”, destacando tratar-se de uma “história de resiliência, em que cada dia é uma batalha pela sobrevivência”. Esta mostra é “uma homenagem aos Homens e Mulheres que durante um Século, todos os dias, construíram um arquivo vivo da Memória das Caldas, da Região e do País”, e homenageia também aqueles que, “numa conjuntura tão adversa têm a coragem de dar continuidade a um projeto ameaçado pela embriaguez da tecnologia digital”. A Gazeta das Caldas abre, assim, “as suas páginas ao Mundo, partilhando memórias e momentos, como um arquivo vivo, fator de agregação e de identificação comunitária” e, com a presença naquele espaço, em Lisboa, pretende também “contribuir para a reflexão e debate sobre as ameaças que pairam no horizonte sombrio dos jornais regionais, e sobre o desolador e irremediável vazio que fica quando um jornal regional desaparece”.
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