
Isabel Xavier, presidente do Património Histórico, recordou a conjuntura económica e social das Caldas que permitiu a elevação a cidade. Recordando o peso do regionalismo (corrente que defendia que do esforço de cada região resultaria o progresso nacional) e dos regionalistas no poder local e central, a forte expansão demográfica vivida nas Caldas entre 1878 e 1930 e o programa de obras públicas do século XIX, a oradora disse que, “enquanto Berquó foi o arquitecto das Termas, Paulino Montês foi o da cidade numa acção que pode ser considerada complementar, respectivamente marcante do princípio e do fim de uma conjuntura que levou Caldas da Rainha da condição de vila à de cidade”.
No entanto, o estatuto de cidade não faria falta a uma estância termal, marcada pela sazonalidade, mas sim a um centro urbano que aspirava a ser um pólo entre o sul de Leiria e o norte de Lisboa, sendo nesse âmbito criadas as exposições económicas da região. Salientando a repercussão nacional da quinta (e última) exposição realizada, afirmou que esta “está indelevelmente ligada à elevação a cidade, até de um ponto de vista cronológico, já que coincidiram no tempo”. É que a exposição decorreu entre 21 e 28 de Agosto, sendo que a notícia da elevação a cidade chegou às Caldas a 25, efectivando-se no dia seguinte em cerimónia com o Presidente da República de então, Óscar Carmona.
Mostrando nas páginas da Gazeta de 28 de Agosto um artigo que se referia à elevação a vila titulado “Caldas da Rainha: a condenação do passado, o elogio do futuro”, “a ideia é que se está numa fase de transição e muito importante para o futuro da cidade. E a Gazeta das Caldas teve um papel decisivo e fundamental nesta conjuntura”, afirmou Isabel Xavier.
A oradora destacou também o papel da “propaganda” que procurava atrair pessoas pelo turismo, termalismo, praias, touradas, exposições, cultura e arte. “A arte constitui o aspecto mais inovador do desígnio que havia para as Caldas”, disse.
Citando João Bonifácio Serra, historiador que foi também colaborador na Gazeta das Caldas: “a escultura e a pintura foram chamadas a colaborar na promoção das termas e a assinalar em espaços públicos as figuras e os momentos fundadores do centro urbano, enquanto o urbanismo era convocado para a ‘extensão, regularização e embelezamento’ da cidade”.
E foram vários os exemplos disso mesmo. Projectando um número especial da Gazeta das Caldas de 1925 (dedicado ao IV centenário da morte da rainha D. Leonor) onde se noticia a aceitação por José Malhoa do convite da Associação Comercial e Industrial para fazer o quadro da rainha e onde se publicava o esboço feito pelo pintor, recordou o papel de António Montês e de Júlio Lopes, vice-presidente e presidente, respectivamente, da associação.
Para além disso, o primeiro era um dos principais colaboradores do jornal Gazeta das Caldas, enquanto que o segundo foi editor (1938-1961) e director (1949-1961) do semanário nascido em 1925 (e que este ano comemora 90 anos).
A IMPORTÂNCIA DA ARTE
Assim, apresentou exemplos do que se fez artisticamente que ajudou a elevar a vila a cidade: em 1926 é concluída a tela da Rainha e da exposição do quadro na Casa de Barcos do Parque nascia o embrião do museu dedicado ao pintor. No ano seguinte é implantado o busto de Rafael Bordalo Pinheiro no Parque D. Carlos I.
“Na exposição regional desse ano, não só a cerâmica artística e as artes plásticas tiveram presença em pavilhões próprios, como o design da exposição foi obra de arquitecto”, refere Isabel Xavier.
No ano seguinte, em 1928, é a vez de Malhoa ter um busto no Largo Dr. José Barbosa, inaugurado nas homenagens nacionais ao pintor, cujo programa passou pelas Caldas. A Comissão de Homenagem era constituída por António Montês, Júlio Lopes, José Saudade e Silva e a Gazeta das Caldas.
Foi também na Gazeta que foi publicado um conjunto de cinco artigos de Luís Teixeira sob o título genérico de “Diversos aspectos do problema caldense” (Janeiro e Fevereiro de 1927) onde o jornalista fazia o diagnóstico da situação das Caldas, referenciando os principais problemas e apresentando soluções e onde contestou que se continuasse a pensar as Caldas exclusivamente enquanto estância termal, porque os tempos já não eram propícios a permanências prolongadas, com iniciativas apenas para agradar a quem a visitava, dependente da sazonalidade. “Pelo contrário, procurava pensar a cidade valorizando recursos próprios”, recordou a historiadora.
Em 1930 é concluído o ‘estudo de urbanização’ encomendado três anos antes pela Câmara a Paulino Montês. Ganha forma o projecto de erguer nas Caldas um Museu de Artes que viria a ser consagrado em 1934 ao pintor José Malhoa. No ano seguinte é colocada a estátua da Rainha D. Leonor na entrada sul da cidade, “completando-se assim, sob a égide das artes plásticas, o ciclo da refundação iniciado com as exposições da década anterior”.
A historiadora concluiu então com o desejo de “que estas palavras nos sirvam de inspiração e de exemplo e que tenhamos a coragem necessária para conseguir transformar a cidade, experienciando-a sob moldes ou modelos novos, com recurso às artes, afirmando-a na região e no mundo, de forma inovadora, criativa e consistente”.
As promessas de Tinta para Sto. Onofre
Tinta Ferreira, presidente da autarquia caldense, afirmou-se muito satisfeito com os mais de 100 espectadores, comparando com o evento do ano anterior em que esteve cerca de meia centena. O autarca salientou a “acção pedagógica de dar a conhecer à população que há, para além do dia da cidade, uma outra data que é importante registar, referir e acompanhar: a data em que as Caldas viu reconhecida a sua força económica e social, a sua dinâmica e a sua afirmação no contexto regional”.
Exaltando o que de bom a cidade tem, afirmou que as Caldas vive “um bom momento e também um momento decisivo, de charneira”. É que, depois das intervenções da regeneração urbana, às Caldas, “pela primeira vez desde a sua fundação, coloca-se à cidade a possibilidade de ser ela a responsável pelo que esteve na base da sua origem, que foi o Hospital Termal”.
E como estava em Santo Onofre (e em ano de eleições), recordou que no âmbito dos projectos de reabilitação urbana, a autarquia tentará requalificar alguns espaços públicos nos bairros das Morenas, dos Arneiros e da Ponte e irá tentar apoiar a construção do Teatro da Rainha. Prometeu ainda a requalificação do Centro de Saúde das Caldas e da zona do complexo desportivo (com fundos comunitários). Disse ainda que está previsto – também dependendo do acesso a fundos comunitários – apoiar a Junta de Freguesia na construção de uma nova USF em Santo Onofre.





