Quando a terra treme de forma violenta em qualquer parte do mundo os meios de comunicação social rapidamente nos põem a par da destruição e do número de vítimas eventualmente causadas. É nessa altura que nos lembramos: pode ocorrer em Portugal? Pode ocorrer na minha terra, nas Caldas da Rainha? Estamos preparados?
Luís Matias
Docente na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
Investigador no Instituto Dom Luiz
Os sismos ou tremores de terra resultam da passagem de ondas sísmicas geradas pela rotura brusca numa falha geológica. A rotura da falha dá-se quando as tensões aplicadas ultrapassam a sua resistência ao deslizamento. Após a rotura, dá-se o relaxamento das tensões e é necessário que estas se voltem a acumular de novo até à ocorrência de novo sismo. É o ciclo sísmico. Em Portugal os ciclos sísmicos das falhas ativas, aquelas que se reconhecem serem capazes de gerar grandes sismos, são muito longos, da ordem de muitas centenas e mesmo de milhares de anos. Temos por isso de recorrer ao conhecimento histórico para entender o que poderá ocorrer nas Caldas da Rainha, conhecer o passado para antecipar o futuro.
Existem três eventos que dominam a história sísmica das Caldas da Rainha. O terramoto de 1 de novembro de 1755 (de que assinalámos este ano o 270º aniversário), o sismo de 23 de abril de 1909 (com origem nas proximidades de Benavente) e o evento de 28 de fevereiro de 1969 ocorrido a Sudoeste do Cabo de S. Vicente. Na ausência de instrumentos sísmicos para medir a vibração do solo, a sua severidade é estimada por uma grandeza designada por “intensidade macrossísmica” ou “intensidade sísmica”. O movimento do solo é avaliado através dos efeitos que o sismo tem sobre pessoas, animais e construções. A classificação dos danos nos edifícios tem em consideração o material de construção e a sua resistência estrutural. A intensidade sísmica exprime-se em escalas, sendo a mais vulgarizada entre nós a escala de Mercalli Modificada que está a ser substituída pela escala EMS ou Escala Macrossísmica Europeia. A partir do grau V começam a observar-se danos nas estruturas menos resistentes. Nesta escala temos nas Caldas da Rainha os seguintes valores estimados: 1755 VII a VIII; 1909 VI a VII e 1969 VI a VII. Como referência apresentamos alguns elementos que caracterizam uma intensidade de VII nas construções. Muitos edifícios de alvenaria menos resistente sofrem danos substanciais, fendas largas e extensas na maioria das paredes, telhas desprendidas, chaminés fraturadas. Alguns destes edifícios podem sofrer danos muito graves, colapso, queda de paredes, queda parcial de tetos e chão. Muitos edifícios comuns de boa construção sofrem danos moderados: pequenas fendas nas paredes, quedas de estuque, quedas parciais de chaminés.
Estamos preparados? Apesar das consequências dos sismos no passado não parecerem particularmente gravosas para os edifícios comuns de boa construção nas Caldas da Rainha, não devemos ficar descansados com os edifícios mais antigos de menor resistência.
Devemos pensar a preparação para a ocorrência de sismos a três níveis. O primeiro é o nível individual e familiar. Conhecer as normas recomendadas pela Proteção Civil, ter um plano de emergência familiar (definir o ponto de encontro, conhecer o contacto exterior à zona afetada), ter um kit de emergência, conhecer e praticar os três gestos que podem salvar vidas (abaixar, proteger e aguardar).
O segundo nível de preparação tem a ver com a vulnerabilidade dos edifícios e construções. Como se costuma dizer, não são os sismos que causam vítimas mas os edifícios. Atualmente, encontra-se em vigor o Regulamento Europeu denominado Eurocódigo 8, que é aplicado em Portugal desde o final de 2019. Também as construções mais antigas que sofrem reabilitação estão sujeitas a normas de reforço do seu comportamento sísmico. Estes regulamentos pretendem assegurar que os edifícios não colapsam, mas todos os restantes elementos não estruturais podem cair e causar ferimentos ou morte. O regulamento atual considera dois tipos de fontes sísmicas geradoras de vibrações fortes. A ação tipo 1 considera sismos de maior magnitude com origem sob o oceano, como os sismos de 1755 e 1969. Em função da vibração expectável, Portugal está dividido em zonas. As Caldas da Rainha estão na zona 1.5, uma das menos gravosas, sendo a mais gravosa a zona 1.1 no Sudoeste do Algarve. A ação do tipo 2 considera os efeitos dos sismos com origem em terra, com o sismo de 1909 em Benavente, estando as Caldas na zona 2.4. Em Portugal continental a zona mais gravosa é a 2.3 numa área em redor de Lisboa e noutra no Algarve.
Define-se risco sísmico como uma medida das perdas (económicas e/ou humanas) esperadas, para determinados elementos expostos ao perigo, face a um sismo futuro. Os elementos em risco podem ser bens construídos, atividades económicas ou população. O risco sísmico é a composição de 3 elementos, a perigosidade, a vulnerabilidade e a exposição. É assim fácil de perceber que em Portugal o maior risco sísmico ocorre na região de Lisboa, não por sofrer mais sismos, mas por ter uma grande concentração de atividade económica e ocupação humana. Comparativamente, o risco sísmico nas Caldas da Rainha será bastante inferior ao de Lisboa, menor perigosidade e menor exposição. O terceiro nível de preparação tem a ver com a resposta da Proteção Civil a situações de emergência para o que existem a vários níveis de decisão planos de emergência a cumprir.
Como vemos, as Caldas da Rainha não são uma região em Portugal Continental cujas ações sísmicas a esperar no futuro, a partir da experiência do passado, sejam as mais gravosas. Foi por isso com uma grande surpresa, e agrado, que em 2013 tomámos conhecimento da iniciativa do Sr. Cte dos Bombeiros José António Silva de construir duas plataformas sísmicas que pudessem ser levadas às Escolas de forma a alertar a população escolar para o perigo sísmico e para a treinar na prática dos três gestos que podem salvar a vida. Desde então temos estimulado e apoiado várias Escolas na região de Lisboa a pedir emprestado esta plataforma, pedidos a que a Câmara Municipal e o serviço de Bombeiros e Proteção Civil têm amavelmente acedido, algumas das vezes providenciando mesmo o transporte.
Terminamos lembrando que o Concelho das Caldas da Rainha tem praias que estão por isso expostas a outro tipo de risco, o risco de inundação por tsunami. Se observarem um comportamento anómalo do oceano, sentirem um sismo forte e prolongado, se ouvirem um barulho surdo vindo do mar, não esperem pela informação ou aviso oficiais. Dirijam-se rapidamente para um local elevado.







