Embora o autor invoque Aquilino, Eça, Camilo e Pessoa, pode vir a propósito lembrar outros vultos da Literatura que estas páginas homenageiam: Miguel Torga, Trindade Coelho, João de Araújo Correia, Raúl Brandão. Já um dia Vitorino Nemésio advertiu que «a Geografia é mais importante do que a História» e será esse o caso deste livro agora em apreço. Este volume de 67 crónicas tem semelhanças com uma garrafa de vinho fino. Porque no livro, como na garrafa, quando se chega ao fim há o desejo de recomeçar. Afinal, tal como o vinho fino, estas crónicas são «tempo conservado». Este livro conserva um tempo português determinado entre os Pereiros e Lisboa, entre o Algarve e Moçambique sem esquecer as Ilhas de São Tomé e do Príncipe.
De Moçambique tem, por exemplo, a memória da Guerra na página 186: «voltei eu com uma guerra às costas que ganhei, costumo blasonar, minas, crueldade, tiros, mas não ganhei nem sequer empatei. Perdi.» O sonho de vencer a Morte está num desejo da página 100 quando o autor começa um parágrafo a afirmar «Nem quero imaginar qual será o aspecto da minha terra se um dia os sobreiros desaparecerem» e o conclui a desejar «Deviam ser eternos os sobreiros da minha terra, nós próprios e todas as pessoas que um dia amámos o deviam ser».
Como amostra do estilo depurado e fino, emocionado e contido, ritmado e sintético, fica um excerto da página 133 sobre Albufeira: «Mas ouviram contar ou leram sobre as fábricas de conservas, sobre os galeões que chegavam, sobre o ribeiro, sobre o campo da bola, sobre a actividade piscatória, chegaram mesmo a identificar na fotografia os ferros de uma armação e um estaleiro de reparações mas nenhum deles se alarmou por não ver vivalma no local, nem gente, nem bicho, nem peixe».
(Editora: Zaina, Prefácio: Idalina Fernanda Meireles, Capa: Álvaro Carrilho)