«A céu aberto» de Paulo da Costa Domingos

É complicado procurar ver na poesia de alguém a sua voz pessoal mas corro esse risco ao fazer a ficha de leitura deste livro de 108 páginas cujo título é retirado de um dos quatro capítulos do mesmo. O ponto de partida é o Outono: «Não será portanto / a mais bela idade da vida / mas não deixa o Outono / de ter o seu peculiar encanto: / a sua dádiva de calma doçura / a mansidão que para vós coa / um magnífico vinho novo.» O olhar do poema fixa-se no horizonte: «Famílias transtornadas em gangues / de assalto à comida, minúsculas ilhas / à deriva, é o salve-se quem puder.» Entre o ponto de partida e o horizonte, a ironia do poema tanto pode devastar a poesia de Augusto Gil («Batem leve, levemente / água abundante e laranjas / do mesmo olival») como arrasar uma canção de Amália Rodrigues («Temente que a achassem feia / tomou o barco negro prá cidade») sem esquecer o cinema («É de evitar mesa posta / para os doze indomáveis patifes») ou a literatura num título de Alexandre Herculano: «A dama pé-de-cabra». Outras vezes o texto poético fica na ironia mais (digamos) simples à volta do real («o real é moscas sobre bosta humana») ou daquilo a que podemos chamar real: «Os que não conseguem / uma chefia/ batem no cão / por serem / celibatários». O tempo actual pode definir-se no poema «Seita» – «Nem oiro nem sossego / se encontra aqui / nem saúde nem fraternidade / só gente ruim, / avariada». Porque não há saída nem solução: «Veio mesmo para ficar / dizem, a crise dominante / que nos torna inofensivos / suplicantes obrigados.» Ao longo dos tempos a Poesia nunca hesitou em chamar as coisas pelos seus nomes. No mesmo poema um verso recorda «a solidão dos jardineiros» que podia ser um título possível para este belíssimo livro de poemas.
(Editora: Averno, Desenhos: Pedro Calapez)





