
Josefa é intemporal. Com raízes espanholas, mas com alma lusitana, que chega aos nossos dias com a mesma frescura e capacidade de atrair olhares e emoções como se não houvesse tempo. Nos seus quadros, de cunho espiritual, revela-nos a forte personalidade, marcada pela influência da mística de Santa Teresa d’Ávila.
Mulher impar. Os pais consentem na sua emancipação o que lhe permite manter-se solteira, dedicando-se totalmente à arte. A 13 de Junho 1684 faz o seu testamento, onde, curiosamente pode ler-se que deixa a sua herança “às fêmeas da família” e à Ordem das Carmelitas. Morre poucos dias depois.
A Ordem Carmelita foi difundida na Península Ibérica por Santa Teresa, cuja espiritualidade e ousadia tanto inspirou Josefa, quase um século depois, mergulhada no Barroco “tenebroso” dum Portugal seiscentista, muito pobre e decadente, acabado de sair do domínio Filipino.
É deste Portugal dramático e escuro que Josefa irradia, cheia de cores e luz, plena da irreverência que a distingue do panorama artístico. Podemos dizer que a gramática cromática usada por Josefa, bem como o olhar nascido da fé, foram capazes de produzir telas com uma beleza pedagógica, capaz de introduzir no Espírito Teresiano e na plenitude do Amor.
É certo que as obras mais conhecidas de Josefa d’Óbidos são as suas naturezas mortas, definidas como “xaroposas”, próprias duma mulher barroca. Mas, quem olha e se adentra nos seus quadros de inspiração teresiana percebe a densidade de alguém que desnuda a alma seduzida pelo Belo como expressão máxima do Bem que é Deus.
No Livro dos Génesis, o estribilho que marca a conclusão de cada dia criado é “Deus viu que era bom”, contudo o texto em hebraico diz: “Deus viu que era Belo”. O Belo como a imagem de Deus que se reflete na criação do mundo.
Esta obra espelha o Belo que nos introduz na vivência das Bem-aventuranças desejadas para as Caldas pela nossa Leonor.
Convido-vos a irem ao Museu do Hospital, a deixarem-se seduzir pela mensagem desta Senhora do Pópulo. Na próxima edição poderemos fazer, em conjunto, uma leitura teológica deste tesouro da nossa cidade.
Margarida Varela
Catequese de Adultos





