

O livro parte de uma experiência pessoal: «A Segunda Repartição, a PIDE militar, quis mostrar serviço e violou a correspondência sem brio profissional nem competência. Podiam ter feito desaparecer a carta mas preferiram dizer que a vigilância continua. Rasgaram o envelope, leram a carta, analisaram o conteúdo, talvez o tenham considerado inofensivo ou, mesmo, piegas e deixaram as folhas no saco do correio de Empada.» Mas atinge um olhar sobre a situação geral do País: «Não dá para recuperar a honra perdida dessa instituição que, há muito, constitui o pilar principal desse fascismo rústico, beato, de falinhas mansas, voz esganiçada, amaricada até, que à tortura chama «safanões dados a tempo» e ao campo de concentração, da morte lenta, do Tarrafal, candidamente chama colónia penal, tão bem corporizado por essa figura sinistra que nos chegou de Santa Comba com passagem pelo seminário e Universidade de Coimbra, esse António, esse Oliveira, esse Salazar, esse filho-da-puta» Nesse tempo (1971-1973) havia duas verdades, a oficial e a verdadeira. Oficial: «Por acidente com arma de fogo quando se encontravam de serviço no HMBIS faleceram 02 militares de C. Caçadores.» Verdadeira: Mortos 2 soldados por um outro soldado português internado em Psiquiatria no Hospital Militar de Bissau». O livro «Poesias e Cartas» de José Bação Leal tem um espaço próprio: «Mataram-no em Moçambique, no Hospital de Nampula mas a mãe não o deixou morrer: foi bater à porta dos amigos do filho a quem ele tinha escrito. Juntou cartas aos poemas dele que tinha resgatado do cesto dos papéis para onde ele os atirara e pediu um prefácio a Urbano Tavares Rodrigues.»
(Editora: Parsifal, Prefácio: Francisco Belard. Capa: Pedro Gil. Paginação: Augusto Nunes)







