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O hoje longo

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“(…) é impossível transformar um humano num androide se o ser humano infringir a lei sempre que pode. A androidização exige obediência. E, sobretudo, previsibilidade. É precisamente quando a resposta de uma pessoa a determinada situação pode ser prevista com exatidão científica que as portas estão abertas à produção em massa do androide.” (Philip K. Dick, 1971)
Na coleção de ensaios O Androide e o Humano, Philip K. Dick, partilha as suas visões do futuro a partir das condições presentes, na altura, década de 1970. A sua projeção contemporânea é o que chamei hoje longo. A vida do futuro é a vida no além, como na Bíblia, ou como sentida pelo replicant Rutger Hauer, no filme Blade Runner, escrito a partir do conto “Os androides sonham com ovelhas elétricas?”, no espaço profundo colonizado, para lá de Marte, ou como uma transmutação como no conto O Homem Hiperligado de J.G. Ballard, ou como uma nuvem de cinza espalhada por um ventilador do metro. Ou, talvez o além tenha outras formas e vidas que dispensam a nossa. Salto desse lugar futuro, para o tempo presente alargado, desta coincidência entre o tempo dos escritos de Philip K. Dick, de J.G. Ballard, do Blade Runner, de Ridley Scott e das imagens dos robôs em Marte. Parece um tempo de hiper-ilusão sem futuro, a atravessar gerações sem mudar, como se o presente e o futuro fossem sempre o intervalo em que se habita – um longo hoje, assistido em HD Ready ou 6K, para usar uma metáfora visual. Será que não vamos conseguir sentir sem recurso a uma tecnologia que transforme o atrito do real na emoção do hiper-real? Não sei se é bom ou se não, mas quando Philip K. Dick fala em desobedecer à lei, estará também a referir-se à imaginação, vontade e necessidade de renovação do ser humano, para continuarmos a transformar a vida e a criar o futuro. Está agora a surgir uma geração tomada de surpresa por uma transformação abrupta do mundo e sem que a tenham preparado para isso – e que quer acabar com este longo hoje.

Será o futebol uma forma de fugir à androidização? O erro humano só causa acidentes?

Espero que seja capaz de inventar uma boa visão e transição para o futuro.
“Na Disneylândia existem aves falsas, ativadas por motores elétricos, que emitem grasnados e chilreios quando passamos por elas. Suponhamos que, uma noite, todos entrávamos no parque à socapa, com aves verdadeiras, e as colocávamos no lugar das artificiais. Imaginem o horror e consternação da administração (…) quando descobrissem a cruel partida. Aves verdadeiras! (…) E se o parque inteiro por um milagre do poder e sabedoria de Deus, se transformasse, num piscar de olhos, em algo de incorruptível? Teriam de encerrar as portas.” (1978)
Uma questão final, depois deste fim de semana de imersão coletiva na hiper-realidade do pôr do Sol em Marte: será o futebol uma forma de fugir à androidização? O erro humano só causa acidentes?

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Edição #5625

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