Num do primeiros dias de outubro, tocou à campainha alguém que me procurava e não conhecia, que chegava das Caldas da Rainha.
Estávamos em 1973, a mais de 1700 quilómetros das Caldas – a situação ocorria numa das torres do Boulevard Massena, em Paris. Morava aí há pouco tempo, desde que me fora concedido o estatuto de refugiado político e conseguira arranjar trabalho. Diga-se em abono da verdade que a atribuição do estatuto de refugiado fora menos difícil do que esperado pelo facto de o jornal “Le Monde” ter noticiado a minha prisão pela Pide em abril de 1971, mencionando a condição de ex-candidato da Oposição Democrática.
Havia um ponto em comum com o recém-chegado “caldense” (como a Gazeta gosta sempre de distinguir os protagonistas das suas notícias). Cumprindo o serviço militar até ao embarque para África, deixámos ambos nessa altura o exército colonial, assumindo as então bem pesadas consequências dessa atitude. Pelo meu lado, anos antes, fora subscritor de um manifesto que criticava a política colonial da ditadura, e defendia a aplicação às colónias das recomendações das Nações Unidas, que o regime contrariaria até ao fim.

Pelo meu lado, nada sabia das movimentações em curso no interior das Forças Armadas e, ao contrário do José Luiz (que entretanto fora trabalhar para Rouen e com quem ia conversando nos fins de semana) não acreditava que estivesse para breve a queda do regime, sem a qual não poderíamos regressar… a não ser para cumprir uma longa pena de prisão.
Eis senão quando, poucos meses depois, uma grande surpresa “bate à porta”: a comunicação social francesa dá notícia dum levantamento militar contra o regime, com os revoltosos a sair dum regimento da Caldas da Rainha, rumo a Lisboa. O movimento não triunfa e é seguido de elevado número de prisões. Era absolutamente revelador da intensidade do mal estar que já se vivia nas Forças Armadas – novas surpresas eram possíveis!
E assim aconteceu. O derrube da ditadura chegaria pouco mais de um mês depois desse levantamento que associou as Caldas da Rainha ao prenúncio do 25 de Abril. Nos primeiros dias de Maio – não só o José Luiz e eu como centenas de outros exilados – já estávamos de novo no País, graças também ao contributo do “caldense” 16 de março. Obrigado aos que o fizeram. ■





