Associação A Minha Casa lança livro que pretende ser ferramenta pedagógica para abordar o tema dos comportamentos aditivos nas escolas
Uma criança começa a apresentar sinais de tristeza sem que os colegas ou professores compreendam a razão. Este é o ponto de partida do livro infantil “O segredo da Sofia”, lançado pela Associação Minha Casa, numa edição Betweien, que pretende ser uma ferramenta pedagógica inovadora para abordar, de forma acessível e sensível, o tema dos comportamentos aditivos e das dependências, com especial foco no consumo de álcool. Para além do foco nos comportamentos aditivos, o livro integra ainda, de forma subtil, a prática do Mindfulness como recurso terapêutico, contribuindo para promover o bem-estar emocional e a autorregulação das crianças.
Apesar da associação trabalhar com vários tipos de dependências, a escolha do álcool para temática do livro prendeu-se com o facto do seu consumo, por vezes em excesso, ser “socialmente aceite”. “É muito difícil perceber onde é o limite e quando é que já é demais. Aliás, em termos de saúde, já é mesmo sugerido que não se beba de todo”, explica Olga Prada, acrescentando que sempre foi objetivo da associação que o livro fosse uma ferramenta pedagógica para abordar o assunto nas escolas, especialmente no primeiro e segundo ciclos.
“Quisemos que a história fosse na escola, realista, para que fosse possível as crianças se reverem um bocadinho nesta menina – a Sofia – e os professores poderem explorar e trabalhar o tema na sala de aula”, explica Olga Prada. A associação está disponível para colaborar com os docentes, “ensinando-os”, a trabalhar com o livro para poderem explorar a temática. “A nossa intenção é que o próprio livro fosse um bocadinho autoexplicativo, mas estamos disponíveis para colaborar, permitindo aos professores explorar a história na sua totalidade”, concretiza Olga Prada.
Já houve também interesse na sua utilização com uma finalidade terapêutica. Na apresentação da obra uma “psicóloga que trabalha na área da educação ficou fascinada com a história e com a potencialidade de poder usá-lo em sessões terapêuticas porque é muito fácil, através de um livro, a criança que tem um pai ou mãe alcoólica rever-se na protagonista”, explicou a facilitadora de Mindfulness da associação A Minha Casa.
“Socialmente aceite”
Em cada 10 jovens de 18 anos, sete a oito beberam álcool, quatro fumaram tabaco, dois consumiram pelo menos uma vez uma substância ilícita, principalmente a canábis, seguida por substâncias estimulantes como as anfetaminas/metanfetaminas e a cocaína. Os dados são revelados pelo relatório “Comportamentos Aditivos aos 18 anos – Inquérito aos jovens participantes no Dia da Defesa Nacional 2024: consumos de substâncias psicoativas”. O mesmo documento, e no que diz respeito ao álcool, refere que em cada 10 jovens, cinco beberam de forma binge (consumo episódico excessivo) e três a quatro embriagaram-se severamente, nos 12 meses anteriores.
A idade de início do consumo de álcool entre os jovens portugueses também se tem agravado, razões para que haja uma sensibilização nas faixas etárias mais novas, entre os seis e os 12 anos, de modo a prevenir comportamentos de risco, justifica Olga Prada. “E depois em adultos, na nossa comunidade, já estamos a tratar do álcool, que é uma substância de substituição. Portanto, a primeira dependência de substância foi alguma droga e depois veio o álcool, que é socialmente aceite”, refere, realçando que é importante desmistificar essa situação. “É necessário sensibilizar as crianças de que facilmente ficamos dependentes e que o consumo de álcool tem consequências fisiológicas nefastas, como o retardar do desenvolvimento do cérebro e problemas de coordenação”, esclarece.
O livro “O segredo da Sofia” esclarece também que a dependência é uma doença e que a pessoa não deve ser marginalizada, mas sim tratada para mudar comportamentos.
Terapêutica e vida comunitária na associação
Sedeada no Olho Marinho, a Associação Minha Casa – Comunidade Terapêutica, fundada em 1996, é uma instituição sem fins lucrativos que apoia pessoas em situação de dependência. O seu modelo terapêutico baseia-se na abordagem cognitivo-comportamental e combina vida comunitária, psicoterapia, lazer e trabalho, promovendo novos hábitos, autoestima e relações saudáveis. Atualmente, dispõe de 54 camas licenciadas, sendo 43 protocoladas com o Ministério da Saúde e, 11 camas particulares.
As pessoas em processo de reabilitação do consumo de adições permanecem internadas por 12 meses (podendo estender-se por mais seis), período durante o qual são responsáveis por cozinhar, fazer as limpezas e os restantes trabalhos da casa. Para além disso, também se dedicam a fazer pequenas reparações, à horta, carpintaria, artesanato, consoante os seus gostos pessoais, dando-lhes também competências para a sua integração na sociedade.
Olga Prada realça o facto de Portugal ser “o único país no mundo que não criminaliza o consumo dos toxicodependentes”, destacando o investimento feito, por parte do Estado, em comunidades terapêuticas com a finalidade de tratar e reabilitar as pessoas com dependências.







