

O edifício onde, na primeira década do Séc. XX, funcionou o Hotel Madrid, começou a ser construído em 1899. Com a entrada principal pela então travessa do Espírito Santo, fazendo esquina para a chamada Rua Nova.
Num pouco conhecido livro intitulado “As Ruas das Caldas”, da autoria de Rui Forsado, vem referido que esta foi a primeira rua da povoação, decerto ao tempo da edificação do Hospital Real, por provisão datada de 1488.
E mais consta que, em sessão da Câmara Municipal de 4 de Junho de 1902, o vereador José Pedro Ferreira, fundamentando-se na “Grande Festa em honra a Rafael Bordalo Pinheiro que a imprensa do país tinha decidido levar a efeito, propôs que a Rua Nova mudasse para rua Rafael Bordalo Pinheiro, atendendo não só aos merecimentos de tão grande artista, mas ainda ao manifesto interesse que ele tem tomado por esta terra, escolhendo-a para desenvolver nela o seu génio artístico na indústria cerâmica”.
A Câmara foi unanime em aprovar a proposta do digno Vereador e foi assim que a ” Velha” Rua Nova passou a ter a designação que ainda conserva, espera-se que para todo o sempre…
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O Hotel Madrid teve como proprietários os meus avôs matemos, Joaquim DeI Rio e Adelina Del Rio, ambos de ascendência espanhola. Na sua quase totalidade os hóspedes também vinham de Espanha. Numa época que os automóveis eram uma raridade, era utilizado o comboio do ramal de Cáceres que, naquela época terminava na estação do Rossio. Aí faziam transbordo para a linha do Oeste saindo na estação das Caldas. Á chegada dos comboios, o Hotel tinha um trem para utilização gratuita dos hóspedes e uma carroça tirada por duas mulas para transporte das bagagens.
O pessoal que trabalhava no “Madrid”, também era contratado em Espanha e mantinha-se ao serviço de Abril a Novembro, concertando com o período do funcionamento do balneário termal.
Notável para a época: os hóspedes dispunham da comodidade de poderem liquidar as suas contas em pesetas, dinheiro depois utilizado em pagamento aos empregados, poupando-se o câmbio bancário.
Um luxo pouco frequente: nas torneiras das casas de banho corria água quente, permanentemente bombada de uma nascente de água termal existente numas traseiras do edifício, para um depósito fixado ao nível do telhado. A força da gravidade fazia gratuitamente o resto do trabalho…
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Rafael Bordalo Pinheiro começou por ser um habitual cliente do restaurante “Madrid”, que além de ter fama de servir bem, se situava a curta distância do atelier do grande artista. Mas, nos últimos tempos de vida, com a posse da Fábrica das Faianças em litígio judicial, Rafael nas suas deslocações às Caldas, utilizava habitualmente o quarto 36, com a janela para a Travessa João de Deus. A minha amiga muito estimada Isabel Castanheira, a propósito de uma resenha histórica de algumas ruas das Caldas, fez publicar na Gazeta uma curiosa fotografia onde em primeiro plano se observa a primitiva chapa com o número do quarto e depois, o interior do aposento que o artista utilizou.
A propósito de recordações fotográficas, acrescentarei que quando tomei conta do edifício, encontrei um velho retrato datado de 1906, representando o primeiro grupo de Forcados Amadores das Caldas que o meu Avô Joaquim integrava. O profissionalismo de Valter Vinagre conseguiu uma excelente recuperação. Ao meu amigo Alfredo das Cruzes, grande entusiasta da festa brava, foi oferecido um exemplar da histórica recordação dos” Amadores” de 1906. Guarnecida com moldura a condizer, está fixada em local de fácil acesso, para quantos desejarem ver como eram os rostos e as jaquetas de ramagens de quem, há mais de 100 anos e por puro amadorismo, pegava toiros na praça das Caldas.
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No começo dos anos trinta do século passado, a Gazeta decidiu facilitar a vida aos seus leitores, publicando na primeira página, a lista dos telefones das Caldas da Rainha.
Uma rápida leitura dá conta que o número mais elevado é o 110, correspondendo ao posto telefónico Flor de Lis, de Manuel Macieira.
Quanto a hotéis, temos o Central com o tel. 78. O Copa com o número 41 e, o Leiriense com o 39. O grande hotel Lisbonense era o tel. 7. O hotel Rosa aparece com número 14 e o Palace Hotel tem o número 18. O Hotel Madrid figura na lista com o número de telefone 88. Mesmo com as muitas alterações impostas pelo aumento de assinantes e pelos progressos técnicos, o 88 ainda hoje corresponde ao telefone que continua instalado no edifício onde o Madrid funcionou.
Mais uma revelação: conservo o telefone inicialmente atribuído ao Hotel, com uma guarnição de metal amarelo onde está inscrito o número 88. Pode parecer estranho, mas o aparelho ainda está em condições de bom funcionamento.
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Referência final: o Hotel nasceu com a vinda dos espanhóis para as Caldas e acabou quando a terrível guerra civil de Espanha iniciada em 1936 que desorganizou completamente o país, impediu todo o trânsito das fronteiras.
Joaquim Del Rio Mendes Nazareth





