
Tal atitude configura uma completa inversão dos valores sociais e políticos que estruturam a nossa sociedade democrática. O facto da campanha publicitária ser animada por um cantor reconhecidamente popular como Tony Carreira, não legitima a maioria instalada na Câmara Municipal para dar corpo político a esta nova forma perversa de privatização do espaço e do erário públicos em benefício de uma campanha publicitária da cadeia de hipermercados de um poderoso grupo económico. Num comunicado recente, escreve o senhor presidente da Câmara, de uma forma pretensamente muito cândida, que “ (…) o município apostou na vinda de um artista de primeira linha, que foi possível trazer na época alta dos espectáculos no país e a um preço muito mais reduzido, custando menos de metade daquilo que custaria se não tivesse um patrocínio comercial.” (‘Gazeta das Caldas’ de 21 de agosto). Os Caldenses não são tolos, nem se deixam enganar com papas e bolos. Por isso, todos temos o dever de dizer ao senhor presidente da Câmara o seguinte: “Não, a Câmara não pagou a um artista de primeira linha um espectáculo com um patrocínio comercial, como o senhor presidente escreve. Foi exactamente o inverso, a Câmara subsidiou um espectáculo integrado numa campanha publicitária da cadeia de hipermercados ‘Continente’, animada com um momento musical pelo artista Tony Carreira.” O vínculo contratual do popular artista Tony Carreira é com o ‘Continente’ e não com a Câmara, como o senhor presidente parece querer sugerir. As 20 000 pessoas que estiveram presentes no espectáculo de domingo à noite não vieram passear pelas Caldas, mas sim ver o popular artista Tony Carreira. As Caldas foram apenas o papel de cenário, nocturno e muito apagado.
A Câmara Municipal das Caldas da Rainha deveria ter uma actuação muito mais prudente e imparcial relativamente às iniciativas da cadeia de hipermercados ‘Continente’, dado que esta tem um projecto de ampliação futura das suas actuais instalações que apresenta uma controversa e muito discutível ocupação aérea do espaço público, por cima do viaduto sobre a linha ferroviária. Considerando o seu dever de isenção relativamente aos agentes económicos, subsidiar um espectáculo integrado numa campanha publicitária do ‘Continente’ foi um acto político muito imprudente e absolutamente injustificável, que abre um precedente perigoso. As consequências de tal acto político irão ter significativos custos políticos futuros para a nossa cidade e concelho, que vão muito para além do valor financeiro já pago de 27500 euros + IVA.
Jaime Neto
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