
Natacha Narciso
nnarciso@gazetadascaldas.pt
Corriam os primeiros anos da década de 70 e já António Ribeiro comprava discos proibidos na sua terra natal, Almada. Logo no início da sessão revelou como foi difícil conseguir “Os Sobreviventes”, o primeiro álbum de Sérgio Godinho, numa das discotecas locais. O proprietário da Alma Danada, a discoteca, nunca o tinha visto e por isso o ainda jovem teve que pedir três vezes que lhe fosse vendido este disco, então proibido. “Custou-me 150 escudos [75 cêntimos], o que na altura era uma pipa de massa, mas eu tinha-o guardado para o ter!!”, contou o orador, recordando que os discos de artistas como Luís Cília, Zeca Afonso, ou Adriano Correia de Oliveira “eram postos à venda ao meio dia nas lojas e à uma da tarde estavam a ser retirados pois eram proibidos naqueles últimos dias de ditadura”. O cantor e compositor partilhou que lê de forma voraz, hábito que cultiva desde criança. E depois de ter revelado alguns dos seus autores de eleição – como Daniel Silva e Rentes de Carvalho – António Manuel Ribeiro deu a conhecer que releu recentemente “Os Maias” de Eça de Queirós, tendo achado a obra totalmente actual. “A grande diferença talvez esteja nos carros!”, disse, acrescentando que também se chega a Sintra de forma mais rápida do que em oitocentos. “No resto estamos na mesma!”, reforçou.
RADICALISMO UNIVERSITÁRIO NO PÓS-REVOLUÇÃO
António Ribeiro conta que sempre se preocupou em ter uma intervenção cívica e quando frequentava a Faculdade de Direito deixou-se impressionar por alguma acção da esquerda radical de então onde pontuavam Durão Barroso e Arnaldo Matos. O uso de violência e a forma de agir como se fosse normal fazer “guerras campais” na universidade, após a Revolução dos Cravos, acabaram por ditar uma mudança de universidade. Cansado dos tumultos, o cantor mudou-se para o curso de Letras, numa altura em que o primeiro ano se fazia por passagem administrativa “já que era considerado burguês não passar de ano”. A nível político, António Manuel Ribeiro foi uma presença constante na Assembleia Municipal de Almada como independente e também acreditou em vários homens e nas suas campanhas. A primeira foi a de Mário Soares e também diz que se deixou encantar por António Guterres, sobretudo pela forma como apoiou a sua primeira mulher, que acabou por falecer, vítima de doença prolongada. Já em 2005 “falaram-me ao ouvido na candidatura de Manuel Alegre e eu aceitei participar. Na primeira apenas”, contou o vocalista. Mais tarde foi apoiante da candidatura de Fernando Nobre e finalmente na de Paulo Morais, ambos candidatos independentes à Presidência da República, sem o apoio das máquinas partidárias. “Foi quando o vi a afirmar na internet, na Assembleia da República que aquela era a casa da Corrupção, que decidi dar-lhe o meu apoio”, disse o cantor, acrescentando que era esta é a sua forma de intervir e de tomar posição. António Manuel Ribeiro, além de músico também edita livros de poesia e contou na sessão que no início da carreira da sua banda teve algumas canções que foram menosprezadas e só passavam a desoras, mesmo depois do 25 de Abril. E porquê? “Porque se referiam a temas difíceis”, disse o convidado. A primeira canção dos UHF, “O Jorge Morreu” não era bem cotada porque abordava o tema das drogas duras. Também “Fim de Vida” não reunia bons créditos pois referia-se a um suicídio muito dramático que teve por base factos reais. “Chamem-me Narciso” também era uma canção mal vista “porque falava do Sexo dos Anjos” e por fim “Na tua Cama” pois continha a expressão “fui de rapaz até homem”, explicou o cantor-poeta. O mais conhecido rosto dos UHF diz que quem ouve o grupo tem entre os oito e os 80 anos. E contou com orgulho que gosta de conhecer fãs dos UHF que lhe dizem que conheceram as suas mulheres num dos seus concertos e que foi ao som das suas canções que lhes deram o primeiro beijo. O cantor ainda se lembrou de um concerto que fez nas Caldas no seu início da carreira. Foi na passagem de ano de 1979 para 1980 e a banda actuou a favor da Infancoop. O concerto durou três horas quando, na verdade, a banda de “Cavalos de Corrida” só tinha repertório para uma. Recordou que o concerto foi assistido por várias famílias, satisfeitas para assistir ao concerto e à boa disposição do grupo que repetiu o seu repertório três vezes. E quando alguém partilhava com o músico os grandes concertos dos Beatles em Hamburgo que durava seis horas em palco, nos anos 60, ele pensa sempre que viveu algo muito parecido nas Caldas da Rainha.





