
O ponto de partida é a fragilidade que se inscreve no poema da página 19: «Sou pela manhã, uma criatura tão frágil, tão trémula que só medicamentos, café de balde e dois cigarros me ajudam a suspirar o dia que aí vem.» Perante a fragilidade da vida só o amor pode ser resposta: «O amor é que transforma o Mundo. O Amor é que expande o Universo. Precisamos de amor-mesmo. E de sexo também.»
A Poesia pode ser (e é) o Amor: «Parecendo que não, os artistas, os escritores, os poetas, mesmo os mortos, estão muito vivos.» O poema é uma teimosa afirmação, uma dupla negação da morte. Primeiro: «Não vou morrer ainda. Vou pôr as minhas mãos em tudo o que puder. Vou abraçar os meus amigos. Vou namorar. Vou seduzir. Vou ler. Vou abraçar a minha filha com todas as forças e vou dar todo o amor que conheço.» Segundo: «Não quero deixar os meus poemas. / Não quero deixar os meus livros. / Não quero deixar a minha tentativa de palco. / Não quero deixar de beber café e fumar de manhã. / Eu sou isso tudo e mais os meus outros sonhos.».
Também na despedida há uma dupla inscrição; terra e mar. Na página 21 «Porque quando desaparecer, quero deixar um grão na terra. Só um.» Na página 20 «E quando desaparecer, gostava de levar tudo comigo no mar. É que eu sou da água. Todos sabem disso.»
(Edição: Palavras por Dentro, Ilustração: Manuel Cintra, Logotipo: Bruno Broa, Impressão: Artes Gráficas de Lisboa, Arte Final: Vítor Silva)







