
Entre a Natureza e a Cultura, a voz do poeta interpela Deus. Pode ser em Jerusalém («Logo à entrada da praça / do templo de Salomão / um soldado israelita buscara em nossa posse / a arma de onde pudéssemos extrair a / Morte ou o Mal». Ou então em Marraquexe: «do alto do minarete do souk de Marraquexe / o chamar do muezin faz questão de relembrar / que Maomé é o profeta / (o Deus único é Alá) / nessa canção que o estrangeiro não resiste / a imitar /(ignorante e feliz) num tom / «mais ou menos» / árabe». Outras vezes o poema oscila entre a Geografia e a História. Por exemplo: «Agora é a vez de deixar / que seja o mar a tocar-nos / (o mar interior primitivo o caldo primacial) / ontem rasgado por remos da Fenícia até Cartago». Ou então: «Dobram os sinos católicos para celebrar a vida – onde se ergue esta igreja já foi / um templo pagão (usada como celeiro teatro prisão e paiol). Os muros foram somando / lições de arquitectura (Gótico sobre Românico Barroco sobre Renascentista) dando vida/ à língua morta com que estas paredes rezavam.»
O quotidiano está presente; seja individual seja colectivo. Primeiro caso: «As perucas das senhoras em quimioterapia uma / vez por semana fogem para o cabeleireiro». Segundo caso: «Na viagem para Auschwitz a lenha alimenta o vapor. Por fim respiramos fundo. /Que mais pode acontecer?» E afirma o poeta – «Não gosto do Mediterrâneo / transformado em cemitério.» Por sua vez o autor da citação inicial avança no final com uma ideia oposta: «Os sábios da Antiguidade ensinavam que os confins do Mediterrâneo se situam onde a oliveira se detém.» Talvez porque nada existe de mais parecido com um poema do que o azeite em repouso nas tarefas dum lagar.
(Editora: Quetzal, Revisão: Teresa Machado, Capa: Rui Rodrigues, Composição: José Campos de Carvalho)







