Forte participação da comunidade local na Semana Santa de Óbidos

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Óbidos celebra a Semana Santa com vários eventos religiosos e culturais até ao próximo domingo, dia de Páscoa. As cerimónias começaram no passado fim-de-semana e tiveram um dos pontos altos no domingo, com as procissões dos Ramos e dos Passos do Senhor, que percorreram toda a vila e envolveram largas centenas de pessoas.
Hoje, 14 de Abril, à noite, será realizada a procissão do Enterro do Senhor, com um cortejo, em silêncio e apenas iluminado pelas luzes de archotes, por dentro do recinto muralhado.

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A procissão do Senhor dos Passos conta com mais de 300 participantes e largas centenas de pessoas a assistir | FF

[showhide] Pelo chão pedaços de alecrim, cedro e outras plantas aromáticas compõem um tapete que se estende pelas ruas da vila na tarde de domingo. À porta do Museu Paroquial (fora da muralha) os escuteiros distribuem os últimos ramos pelos presentes, para que possam, minutos depois, ser benzidos por D. José Traquina, bispo auxiliar de Lisboa, que preside às cerimónias.
A procissão dos Ramos, onde se comemora a entrada do Senhor em Jerusalém, segue pela Rua Direita rumo à Igreja de Santa Maria, onde é celebrada a eucaristia. Cá fora, são muitos os fiéis e curiosos que vão ocupando os muros da Praça de Santa Maria e os lugares à sombra, à espera da procissão dos Passos, que sairá daquele templo e percorrerá, durante mais de duas horas, algumas das ruas calcetadas, dentro e fora das muralhas de Óbidos.
O cortejo é encabeçado pela figura do “gafaú”, que tem a cabeça coberta com um pano e transporta nas mãos um “serpentão” que anuncia à multidão a aproximação do condenado. Um cortejo simbólico do caminho que Jesus fez até ao calvário.
Seguem-se perto de uma centena de homens e mulheres de capas roxas que transportam as bandeiras, quadros, lanternas e alguns objectos religiosos, assim como o andor de Cristo com a cruz. A segurá-lo vão seis homens que, com uma cadência certa, calcorreiam as acidentadas ruelas. O presidente da União de Freguesias de Santa Maria, S. Pedro e Sobral da Lagoa, João Rodrigues é um desses seis.
Actualmente com 47 anos, há cerca de 35 que participa nas celebrações da Semana Santa. Recorda que começou como acólito, a acompanhar o padre, mais tarde interpretou o personagem de S. João e há meia dúzia de anos surgiu uma vaga e começou a carregar o andor.
O peso é muito e o segredo está em “ter sempre muito cuidado com o passo”, diz, especificando que este tem que ser certo e equilibrado entre os seis homens. Hoje, Sexta-feira Santa, vai participar à noite na procissão do Enterro, carregando a cruz com o pano.
Católico praticante, João Rodrigues participa nestas cerimónias por fé, mas também reconhece a sua importância cultural para a vila.

Uma procissão com mais de 450 anos

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Ao final da Rua Direita (junto à cerca do castelo) dá-se o encontro de Jesus com a sua mãe, ou seja, o andor do Senhor dos Passos fica em frente ao de Nossa Senhora das Dores, que entra pela porta da Cerca. A carregá-lo vêm quatro homens, acompanhados por mais quatro a segurar as lanternas.
Este andor, que sai em todas as procissões, é coordenado por Bruno Duarte, um obidense de 42 anos. Participa nas celebrações há cerca de 20 anos, altura em que um dos homens teve que sair e ele ocupou o seu lugar.
Actualmente é o mais antigo dos quatro a levar o andor, mas já estão juntos há cerca de uma década. As subidas são a parte mais difícil para os elementos que vão atrás, enquanto que as descidas castigam mais os da frente, diz o voluntário que se posiciona na frente do andor e o carrega no braço direito. As “dicas” para se fazer melhor o percurso passam por evitar solas que escorreguem e levar calçado de borracha.
Bruno Duarte reconhece que antigamente havia mais interessados em participar e considera que esta é uma tradição cultural que é importante preservar. Cada um sabe a sua tarefa e por isso basta que alguns dias antes o coordenador envie uma mensagem para se encontrarem momentos antes das procissões.
“Gostaria de um dia passar o testemunho a um filho”, conta, acrescentando que se trata de “uma responsabilidade boa” e que se sente bem por participar.
As celebrações da Semana Santa são organizadas pela Santa Casa da Misericórdia de Óbidos (que é detentora do património), em colaboração com a paróquia, autarquia, associações locais, GNR, Bombeiros e escuteiros de Óbidos. Um evento que assume cada vez mais a sua índole turística, atraindo bastantes espanhóis, traduz também o dinamismo da comunidade.
Carlos Orlando, provedor da Santa Casa da Misericórdia, explica que os preparativos têm início quando começa a Quaresma e que envolvem muitos voluntários, entre eles jovens que colaboram na preparação dos andores e das capas e senhoras que organizam as roupas e ajudam a vestir os figurantes.
As cerimónias da Semana Santa começaram a ser instituídas em Portugal nos anos 80 do século XVI. Um arquivo da Misericórdia de Óbidos, datado de 1604 e assinado pelo então patriarca de Lisboa, D. Miguel de Castro, dá conta da sua autorização que se realize “mais uma vez a procissão do Senhor dos Passos na vila de Óbidos”, diz o provedor, o que mostra que esta já se realiza há mais de 450 anos.
Este responsável destaca ainda que, entre as cerimónias da quadra, uma das mais importantes é a procissão do Enterro, prevista para hoje às 21h30. “Desenrola-se dentro do recinto muralhado e, por tradição dos obidenses, é mantido silêncio e um ambiente escuro, propício à reflexão interior dos participantes”, revela. Carlos Orlando acrescenta ainda que, depois da procissão os bares e restaurantes voltam a abrir as portas e que “é muito agradável ver as pessoas a conviver”.
No sábado de manhã decorre o Ofício de Leituras e Laudes e à noite a vigília pascal, na Igreja de S. Pedro. As cerimónias pascais terminam no domingo, com a celebração da missa da Ressurreição no mesmo templo.

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