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“Caldas é um reconhecido centro de cerâmica, cá dentro e lá fora”

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“Estamos prontos para receber o museu, após a recuperação dos edifícios por parte do Estado central”, diz a autarca

O que implica para as Caldas pertencer a esta  Rota Europeia da Cerâmica?
Esta Rota Europeia da Cerâmica é uma estrutura do Conselho da Europa, uma agremiação de estados que engloba os vários países europeus. Esta ganhou forma em 2012 e foi presidida por Limoges (França), durante seis anos. Depois a coordenação passou para Faenza. Atualmente, esta rota tem 31 parceiros e 19 são países. Estes últimos, por vezes, estão representados por várias cidades.
Somos a segunda cidade portuguesa a ser admitida nesta Rota, depois de Aveiro. Tínhamos esta expectativa pois estávamos inscritos desde julho e a candidatura foi agora aceite.
Passamos a fazer parte desta rota europeia que tem, entre outros, objetivos de preservar o património, reforçar o intercâmbio, valorizar os saberes cerâmicos e também o desenvolvimento do turismo cultural sustentável.

O que é que tem contribuído para esse posicionamento das Caldas em palco internacional?
Creio que tem ajudado o facto de pertencermos à Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica (AptCVC) que nasceu em 2018 por iniciativa de um conjunto de municípios com ligação à cerâmica, e que acaba por permitir maiores ligações em termos internacionais. Por pertencermos à AptCVC foi também possível acolher em 2024 o Congresso de Cerâmica. Por, atualmente, liderarmos a AptCVC temos assento por inerência também no Agrupamento Europeu de Cerâmica.
Também pretendemos integrar a Academia Internacional de Cerâmica com quem trabalhámos em 2024 e que ficaram de criar um domínio para pode integrar municípios . Já estamos a preparar um dossier de adesão.

Além destas presenças institucionais, Caldas possui cidades parceiras, resultantes de geminações, no que diz respeito à cerâmica?
Sim, temos uma forte parceria com Deruta (Itália) que está muito ativa e estamos interessados em definir uma política de geminações que nos permita ter relações bilaterais com outros centros cerâmicos, dentro e fora da Europa.
Estamos a ponderar geminar com cidades como Ráquira na região de Boyacá na Colômbia,
Temos fortes contatos com aquela região colombiana. Terá que haver um sentido e um propósito para fazermos as geminações.

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A preservação dos saberes antigos em relação à cerâmica é uma preocupação?
É, sem dúvida, que sim. Cada cidade tem as suas especificidades. Por exemplo, Deruta aposta na pintura na cerâmica, enquanto que a cidade colombiana de Ráquira possui uma cerâmica artesanal e voltada para o que eram os saberes ancestrais. Estes devem ser preservados pela simples razão de que, muitas vezes, a inovação passa por ir buscar coisas que se faziam antigamente, antes da industrialização e que têm provado que são materiais eficazes, resolvendo até problemas que a modernização causou.
O saber fazer e os métodos ancestrais são importantes para entender e valorizar as técnicas antigas, muitas vezes esquecidas e que hoje se revelam muito pertinentes.

A Mestra é um evento que tem vindo a crescer. O que dizem os participantes do certame?
Sim, a iniciativa está de facto consolidada e, apesar de nós valorizarmos a componente da inovação, também há espaço para promover a cerâmica tradicional.
O evento que se realiza no Parque D. Carlos tem vindo a crescer em dimensão e na inclusão de autores de outras regiões.
É um caso de sucesso pois há um grande grau de satisfação por parte dos ceramistas.
No início tivemos 29 inscrições, na segunda, 35. Na terceira, 39 e, nesta última 70, o que corresponde a mais de uma centena de ceramistas pois há alguns casais e outros são coletivos.
No último inquérito que fizemos, a maioria referiu que o evento é um bom local para as suas vendas, algo que é essencial e que foi expresso por 61% dos participantes que tiveram banca no evento.

Quando começaram a participar ceramistas de outras regiões? Gostaria de ter autores estrangeiros no evento?
Logo na segunda edição vieram autores da Covilhã e Barcelos, que são como nós cidades criativas. Tivemos autoras de Deruta (Itália) que participaram na exposição de azulejos dedicados à Rainha D. Leonor. Temos a ambição de ter participantes estrangeiros nas futuras edições.

Quais serão as novidades da próxima edição da Mestra?
Vamos aumentar um pouco o número de participantes mas não muito, pois o evento está estabilizado. Iremos aumentar sim a tenda da Criatividade, onde participam as escolas.
Preferimos fazer bem a fazer muito. Gostaria de alargar a mais algumas localidaes e fizemos o convite a todas as cidades da AptCVC.
Gostaríamos que a tenda da Mestra ficasse no Parque das Bicicletas e que a da Criatividade passasse para um outro espaço e desta forma as duas estruturas poderão respirar mais.
Não queremos abarcar o parque todo, não teremos nada parecido com as feiras dos anos 80, com os fornos e o pendor mais industrial.

Em que ponto está a situação do Museu de Cerâmica?
O Museu ainda está sob a alçada da Museus e Monumentos que entretanto já nos apresentou um “draft” de um projeto de arquitetura para a renovação do museu que necessita de várias alterações.
Há particularidades relativas ao edifício que é preciso acautelar.

Mas neste momento já não estão coleções no Museu…
Não, as coleções que pertencem à autarquia e a outros proprietários já foram devolvidas.
Agora resta-nos acolher o que é do município no CCC, com todas as condições asseguradas, seja contra roubos ou tremores de terra.
Toda a coleção do museu foi alvo de novo de catalogação, limpeza e de uma correta acomodação e embalagem das muitas obras.

O que se segue em relação a este processo?
A Museus e Monumentos ainda está à procura de financiamento para as necessárias obras. Nós, autarquia, aceitaremos o projeto e a garantia de que há financiamento para a recuperação do edifício do museu. Falamos de uma obra orçada em dois milhões de euros.

O Museu de Cerâmica tem um papel importante na estratégia que o município possui em relação a esta área?
Este espaço museológico é vital para que as Caldas cumpra integralmente a sua vocação cerâmica e para que evidencie toda a sua dimensão cerâmica.
Recordo que este museu nasceu a partir da iniciativa de um conjunto de cidadãos caldenses em 1983.

A cerâmica continuará a ser valorizada pela autarquia e destacada em inciativas?
Sim, sem dúvida, e terá o seu devido palco. Vai estar por exemplo em destaque no próximo ano nas celebrações do centenário da cidade que será assinalada a 26 de agosto. Em janeiro do ano seguinte voltará à ribalta em janeiro durante as celebrações do centenário do nascimento de Ferreira da Silva.
A cerâmica é fundamental na história das Caldas e Ferreira da Silva é o ceramista-chave dos últimos 70 a 80 anos nesta cidade.

Relativamente à celebração do centenário da cidade das Caldas, quais serão as linhas principais?
A celebração do centenário da cidade irá versar sobretudo nos séculos XX e XXI.
A programação, coordenada por João Paulo Feliciano, será apresentada nas próximas semanas à população, olhará para os últimos 100 anos e seguramente a cerâmica constará desta programação.
Já se celebraram as efemérides relacionadas com a Rainha e com Zé Povinho…
Tivemos anteriormente as celebrações relacionadas com a Rainha D. Leonor e que nos permitiram olhar para o passado.
Seguiu-se o aniversário de Zé Povinho que nos fez refletir Bordalo Pinheiro, sobretudo para a área da caricatura.
Faz por isso sentido celebrar a cerâmica no centenário. Agora queremos olhar para o futuro.

Serão então comemorações mais voltadas para o que se segue?
Só o ser humano sabe o que é o futuro e pensar sobre o mesmo é em si, um ato cultural. Perspetivar o futuro das Caldas será interessante, até questionando os próprios caldenses sobre alguns temas.
Temos que nos questionar se vale a pena dizer que somos uma cidade criativa se depois recorrermos a modelos estafados de concretização cultural?
Estas são questões essenciais para esta comemoração onde vamos tentar fugir a uma celebração de eventos.

A intervenção prevista para o edifício da Biblioteca Municipal será iniciada quando?
A intervenção está prevista para o início do próximo ano, devendo a Biblioteca Municipal funcionar no Ramalho Ortigão durante as obras. Está dependente da saída do Centro de Saúde.

Onde estará a cidade das Caldas da Rainha daqui a 20 anos no que diz respeito à cerâmica?
Creio que na verdade ninguém sabe… Neste momento acho que as Caldas atravessa um bom momento cultural e artístico.
É preciso acarinhar esta população que nos escolhe, apoiar e projetar os emergentes e saber que tem ou não qualidade. Seguramente temos atualmente mais de 150 ceramistas.
Caldas da Rainha estará onde nós a soubermos colocar, apostando no que interessa para a cidade. Continuaremos a apostar fortemente na Educação em interligação com a Cultura.
nnarciso@gazetadascaldas.pt

A cerâmica continuará em destaque e o Museu “é um pilar dessa estratégia”
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