
De quatro em quatro anos a aldeia do Soutocico (Leiria) comemora o Enterro do Bacalhau, uma tradição antiga que volta a cumprir-se logo à noite (14 de Abril), às 21h00, num evento que reúne toda a população sob a égide do clube recreativo e desportivo local.
Em palco, ou melhor, nas ruas do Soutocico, vão estar 300 figurantes que fazem de padres, freiras, bispo, sacristão, pescadores, varinas e músicos, que vão proceder ao enterro do bacalhau por um percurso de 1,5 quilómetros que inclui paragens onde são declamados o sermão Vida e Morte do Bacalhau, o sermão Testamento do Bacalhau e o sermão Ezéquias do Bacalhau. Todos, naturalmente, de corrosivo cariz humorístico.
O cortejo termina junto à cova onde, perante os cânticos e choro das carpideiras, é feito o julgamento do Judas que conta com a declamação de último sermão dedicado ao Julgamento do Judas e à Queima do Judas.
Em paralelo, e aproveitando a alusão ao fiel amigo, decorre o 4º Congresso Gastronómico do Bacalhau, que começa um pouco mais cedo, às 19h00.
C.C.
Excerto do sermão de 2004 da Vida e Morte do Bacalhau
Até que, um dia, alguém descobriu, lá nas profundezas do oceano, um líquido negro e nauseabundo chamado petróleo.
Cheios de cobiça, os Senhores do Mundo traçaram um plano infame para se apoderarem do reino do fiel amigo e das riquezas escondidas no seu subsolo.Disseram que o bacalhau era terrorista e que constituía uma ameaça à paz e à segurança da humanidade. […]
Mas as desgraças do ZéPovinho não ficaram por aí.
Numa decisão repentina e injusta, uma coisa chamada ASAE encerrou todas as tascas e tabernas onde o povo habitualmente afogava as suas mágoas em vinho.
Proibiu as pataniscas, os pastéis e as punhetas …de bacalhau.
O Zé Povinho […]
Indignado, saiu à rua.
Exigiu do governo pão, trabalho e melhor qualidade de vida… mas não valeu a pena.
Em lugar de pão, aumentaram-lhe o IVA e o preço dos combustíveis.
Em vez de trabalho, arranjaram-lhe biscates como arrumador de carros.
[…] Destroçado, o Zé Povinho olhou em volta e viu que, contrastando com a falta de caras de bacalhau nas lojas, havia no país cada vez mais caras de cu…
E a vida do Zé Povinho não parou de piorar.
[…] E à noite […] murmurava as suas preces, sonhando
com o retorno do fiel amigo:
Santa uva que estás na parreira, purificada sejas no lagar,assim em casa como no campo.
Venha a nós[…]
Não nos deixeis cair […] e Ámen.
Meus irmãos, ide em paz,[…]










