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Festa deu lugar a um ‘dia negro’ na Rainha das competições nacionais

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Com tudo preparado para receber o Sp. Braga na Mata, o Caldas viu-se obrigado a mudar o palco do jogo em menos de 24 horas, alegadamente, devido ao estado do relvado, mas acabou por jogar num ainda pior. Pelicanos perderam em campo (0-3), mas reforçaram o respeito do futebol português

Os jogos da Taça de Portugal costumavam ter outro encanto. É o futebol no seu estado mais puro, em que a ‘magia’ do sorteio junta equipas de escalões inferiores aos maiores clubes nacionais, em 90 minutos em que tudo pode acontecer. É a festa dos adeptos, que se juntam em redor do estádio para um são convívio antes do jogo e sonham ver o seu clube ‘pequeno’ ser tomba gigantes. No passado dia 23, estava tudo preparado para ser mais um desses dias na Mata Rainha Dona Leonor, como tantos outro vividos sobretudo no últimos 10 anos, mas destas vez outros valores se elevaram e uma autêntica novela mexicana tirou em menos de 24 horas a festa aos adeptos do Caldas.

A Federação Portuguesa de Futebol (FPF), com base num relatório de uma vistoria surpresa ao Campo da Mata, decidiu interditar o estádio do Caldas e mudar o jogo para o estádio do maior rival dos pelicanos, o Campo Manuel Marques, casa do Torreense, para um relvado que se encontrava ainda em piores condições do que o do recinto caldense, obrigando, assim, mais de 4000 adeptos do Caldas a terem que se deslocar cerca de 90 quilómetros para assistir ao encontro.

A decisão incompreensível da FPF gerou uma onda de solidariedade que surgiu um pouco por toda a parte, desde clubes da região (como o Gaeirense, o Bombarralense e o Caldas Rugby Clube), a grupos de adeptos, páginas dedicadas ao desporto-rei, até comentadores e personalidades com responsabilidade na opinião pública.

O jogo
Os jogadores do Caldas ameaçaram não a ir a jogo, mas acabaram por fazê-lo temendo as repercussões que a decisão poderia ter para o clube em termos financeiros e disciplinares. Mas alinharam sob protesto. Durante o primeiro minuto, os jogadores do Caldas alinharam no grande círculo, da mesma forma como, por norma, se cumpre um minuto de silêncio, com o capitão Clemente com a bola segura no pé esquerdo. Das bancadas vinha apoio ao clube e entoava-se “vergonha” pela decisão de alterar o recinto da partida.

Dentro das quatro linhas, o sentimento de injustiça pode bem ter sido combustível para uma primeira parte que colocou o Sp. Braga em sentido, Foram do Caldas as melhores oportunidades do primeiro tempo, com a ala esquerda formada por Clemente e Farinha e reforçada por Pipo a criar dificuldades à defensiva arsenalista. Maior frisson aos 20, 26 e 40 minutos, com dois remates de ressaca, por Yordy e Gonçalo Barreiras, a levarem perigo à baliza de Tiago Sá, e na última novamente Barreiras a protagonizar um lance que fez lembrar o golo histórico apontado ao Benfica, mas valeu a intervenção de um defensor do Braga.

Na segunda parte, em dois pontapés de canto nos primeiros 10 minutos os gverreiros marcaram dois golos, por Fran Navarro e Paulo Oliveira. E um terceiro logo a seguir arrumou o jogo, um grande remate de Dorgeles.

Indignação e frustração
No final do encontro, Clemente não poupou críticas à forma como todo o processo foi conduzido, falando num dia em que “perdeu o futebol português”. Visivelmente indignado, o capitão do Caldas sublinhou que a decisão de retirar o jogo do Campo da Mata, comunicada apenas na noite anterior, deixou a equipa “psicologicamente morta”, sentindo que os clubes mais pequenos são sistematicamente prejudicados. Para Clemente, ficaram em causa valores como a honra, a dignidade e o carácter, que considerou não terem preço, apontando o dedo a um futebol “podre em certos valores”, onde “os grandes é que contam”. O jogador deixou ainda palavras de agradecimento aos adeptos, à direção e a todo o staff do Caldas, destacando o esforço feito para que o jogo pudesse realizar-se na Mata, e defendeu que os clubes de menor dimensão têm de se unir para contrariar uma realidade que, na sua opinião, continua a afastá-los de competir em pé de igualdade.
José Vala também não poupou críticas ao processo. “Jogámos num campo que está pior do que o da Mata”, afirmou, completando que “o campo da Mata estava a 90%, muito melhor do que este. Aqui havia um campo inteiro em más condições, que foi ficando ainda pior ao longo do jogo.”

“Houve alguém que decidiu isto e essa pessoa tem de ser responsabilizada. Houve exagero ou mentira premeditada para que o jogo não fosse na Mata”, acusou, sublinhando que todos acabaram por sair prejudicados. “O Caldas até podia perder o jogo na mesma, mas perdeu-se aquilo que é mais bonito no futebol: a festa.”

José Vala destacou o trabalho da direção e a oportunidade desperdiçada para o clube e para a cidade. “Ia ser uma festa brilhante, como já aconteceu noutras eliminatórias históricas. O futebol e a Taça de Portugal iam ficar a ganhar”, lamentou, sublinhando o “orgulho grande neste grupo, neste clube e nesta direção”.

Curiosamente, também o treinador do Sp. Braga, Carlos Vicens, criticou o estado da relva do Manuel Marques, responsabilizando o piso pela má primeira parte da sua equipa. “Na primeira parte o nosso ataque foi mais lento, muito por causa da zona direita, onde o relvado estava em pior estado e dificultava a circulação de bola”, disse, acrescentando que o Caldas exigiu “mentalidade extra” à sua equipa. O técnico espanhol mostrou solidariedade com o Caldas: “teríamos gostado de jogar na Mata”.

O Caldas saiu da Taça, mas caiu de pé e, no processo, viu reforçado o sentimento de respeito que vem granjeando no futebol português. O clube foi ‘castigado’ por querer jogar na sua casa, um episódio que fez aumentar a discussão sobre se são os clubes pequenos a adaptarem a sua casa para jogarem com os ‘grandes’, ou se deve ser o inverso.

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Edição #5625

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