No próximo domingo, 29 de Julho, faz 62 anos que Elias Francisco matou cinco pessoas e feriu três na Serra do Bouro, por causa de “mau viver” com a mulher e problemas relacionados com extremas de terrenos.
Foi condenado a 25 anos de prisão, mas suicidou-se na sua cela em 1968, treze anos antes do fim da sentença.
Gazeta das Caldas relata o que aconteceu naquele fatídico dia de 29 de Julho de 1956, divulgando o processo do recluso Elias Francisco arquivado na Cadeia Penitenciária de Lisboa. E conversou com a psiquiatra Paula Carvalho, que procura explicar o que terá levado um homem a cometer homicídios desta natureza.

Por volta das 10h30, Elias Francisco, de 48 anos, pega na sua caçadeira e dispara um tiro contra a sua mulher, Luzia Maria, na residência de ambos. No seu processo, que Gazeta das Caldas consultou na Cadeira Penitenciária de Lisboa explica-se que “disparou voluntariamente a uma distância de um a dois metros”. Diz-se ainda que ficou provado que o réu “vivia mal com a mulher por esta, sem o seu consentimento, vender proventos da casa agrícola para ocorrer às despesas do casal, como roupas para os seus cinco filhos”.
Depois de matar a mulher, Elias Francisco saiu de casa e entrou no quintal da residência ao lado da sua e disparou contra José Francisco da Costa, de 30 anos. Causou-lhe lesões de incapacidade permanente do braço esquerdo com atrofia muscular deste membro, tendo ficado com 65% de grau de invalidez.
No processo é dito que o réu desconfiava que a vítima auxiliava a sua mulher a vender os produtos agrícolas. Ficou também provado que o réu agiu de improviso e apanhando descuidada a vítima.
Elias Francisco continuou a matança passando para o quintal contíguo ao de José Francisco da Costa para disparar a curta distância (dois a três metros) sobre Joaquina Maria Baltazar, de 62 anos, que se tinha chegado à porta por causa do ruído provocado pelos tiros. O assassino acreditava que esta vítima também auxiliava a sua mulher a vender os bens agrícolas.
Aos tiros para a barbearia
De seguida dirigiu-se à barbearia da terra, que pertencia a Silvino da Costa. Hoje, a barbearia já não existe, mas à época ficava a poucos metros das casas onde tiveram lugar os primeiros crimes. Quem estava no interior da barbearia, veio à porta devido aos tiros de Elias Francisco que pretendia atingir um cunhado, Agostinho da Costa, que julgava que se encontrava naquele estabelecimento. Este até tinha lá estado, mas conseguiu fugir à fúria assassina do seu familiar, escondendo-se.
E qual a razão para o querer matar? No processo é referido que estavam de relações cortadas há pelo menos 10 anos. De qualquer forma Elias Francisco disparou na mesma, do outro lado da rua, e o tiro que imaginou dirigir-se ao cunhado apanhou Joaquim Neto Rainho, de 30 anos, que era seu sobrinho, tendo-lhe causado ferimentos graves. Acabou também por atingir António Eugénio, de 82 anos, ferindo-o.
O assassino não se ficou por ali. Dirigiu-se à oficina de José Ezequiel Júnior, de 59 anos, e matou-o disparando dois tiros a curta distância. Conta-se no processo que andava “malquistado” com a vítima por uma questão de extremas de terrenos. Ainda não satisfeito, Elias Francisco dirigiu-se a uma eira onde estava a trabalhar Adelino Anacleto, de 52 anos, tendo disparado dois tiros de caçadeira contra a vítima, atingindo-o na cabeça.
O assassino tomou em seguida um caminho que conduz para fora do lugar da Espinheira e encontrou Francisco Antunes David, 46 anos, que vinha montado num burro e contra o qual também disparou, matando-o a sangue frio.
Salvo de um poço seco
Perpetrados os crimes, o assassino dirigiu-se a um poço que ficava numa zona de vinha, que hoje é um eucaliptal. Deixou a espingarda, as botas, o relógio de bolso, a carteira e um maço de tabaco à borda do poço e atirou-se lá para dentro.
Só que este estava seco. Três pessoas (Jesuíno Ezequiel, António Ezequiel e Joaquim Ricardo) viram o homem atirar-se ao poço e, sem saber dos antecedentes, vieram em seu socorro, atirando-lhe uma corda para subir. O poço até tinha uma roldana e Elias Francisco terá dito “não atem aí que isso está podre!”. Por isso, os homens içaram-no a força de braços e trouxeram-no até à aldeia, na ignorância de tudo o que tinha acontecido pouco tempo antes. Caso contrário, o salvamento podia não ter sido tão pacífico, apurou Gazeta das Caldas, junto de alguns habitantes que viviam na Espinheira na altura dos factos. Elementos da GNR, entre eles um sobrinho do criminoso, já o procuravam para o prender.
Contam alguns dos habitantes que naquele dia a maioria das pessoas não saiu mais à rua e vários esconderam-se nos sotãos. E só descansaram quando viram o jipe da GNR a levar o assassino para as Caldas.
Elias Francisco foi detido e passou 334 dias na cadeia das Caldas até ser transferido para Lisboa.
Em tribunal ficou provado que Elias Francisco levou a cabo a consumação dos crimes com “perversão e malvadez”. Foi considerado “delinquente por tendência” e foi sentenciado com a pena máxima de 25 anos de prisão pela prática de cinco crimes de homicídio voluntário e quatro de homicídio frustrado. Foi ainda obrigado a pagar as custas do processo e a indemnizar as vítimas sobreviventes e os familiares dos mortos.
Quem foi Elias Francisco?
Elias Francisco nasceu a 25 de Agosto de 1909 na freguesia da Serra do Bouro. Frequentou a escola, mas não completou nenhum exame.
Aos 24 anos casou-se com Luzia Maria e era pai de cinco filhos. Emigrou para os EUA onde trabalhou durante quatro anos como pedreiro. Ao fim desse tempo, regressou à sua terra natal onde passou a viver de forma desafogada, graças aos dólares que tinha ganho na América.
De natureza desconfiada, Elias Francisco não daria à mulher o dinheiro que esta precisava para o sustento da casa e dos filhos. Algo que não era invulgar na época. Eram os homens da casa que geriam o dinheiro que existia.
Sem que o marido soubesse e de forma a comprar o que precisava para os filhos Luzia Maria vendia, com a ajuda dos vizinhos, alguns alqueires de feijão ou de milho.
Na sua defesa, o assassino afirmou que agiu “por um impulso do momento”, para o qual terá contribuído o “mau porte” da mulher, a quem acusou de “ter misturado qualquer substância na comida que o transtornou e o levou a cometer os crimes”.
Na altura em que foi preso afirmou que “estava arrependido” e “não saber explicar como as coisas se passaram”.
Elias Francisco não tinha antecedentes criminais. No processo afirma-se que o seu passado era até então isento de qualquer condenação e nada fazia prever que, aos 48 anos, tivesse dado um “passo tão grave na sua vida, tanto mais que aparenta ser um indivíduo normal”.
As informações advertiam que “em contraste com a brutalidade do crime cometido as informações recolhidas são boas: bom comportamento no meio social e na família, embora gostasse pouco de trabalhar. Tem uma irmã demente”. Há, pois, indicação no seu processo que indicia a existência de problemas de saúde mental na sua família.
O preso 439 era de poucas falas
Elias Francisco entrou na Cadeia Penintenciária de Lisboa a 1 de Fevereiro de 1958, com o número 439, depois de ter estado 18 meses na prisão das Caldas.
Em Julho de 1958, num relatório do chefe da ala para o director da Penintenciária de Lisboa onde se encontrava, informava-se que o recluso “tem-se mostrado obediente, calmo e tem cumprido bem com os deveres que lhe são impostos”. No mesmo documento dá-se a conhecer que Elias Francisco era “um indivíduo de poucas falas e não demonstra estar arrependido dos crimes que praticou”.
No seu processo consta que quando entrou na penitenciária, declarou que gostaria de aprender um ofício de marcenaria ou de carpintaria. Mais tarde mostrou interesse em ir para a cozinha pois tinha conhecimentos na área. Mas acabou por se dedicar à cartonagem, isto é, aos trabalhos com cartão.
Durante o período que esteve na cadeia recebeu um louvor por ter realizado o exame de 1º grau (antiga 3ª classe) e três prémios de 100 escudos (0,50 euros) relacionados com a dedicação ao trabalho, em 1964, 1967 e 1968.
Aparentemente era um bom recluso, que não era conflituoso e não dava problemas. Segundo o seu processo, que Gazeta das Caldas consultou na Penitenciária de Lisboa, escreveu e recebeu cartas e teve algumas visitas de familiares.
Nada faria prever que, na madrugada de 14 de Dezembro de 1968, Elias Francisco se suicidasse na sua cela por enforcamento. Tinha 59 anos, mais dez anos do que quando entrara no establecimento prisional de Lisboa.
No seu processo, consta que o seu espólio, que incluía 2916 escudos (14,55 euros) não foi reclamado (parte da família tinha emigrado), pelo que ficou na posse da Penitenciária de Lisboa. [showhide]
“Em vez de um homem mau poderia ter sido só um homem doente”

“A própria premeditação dos crimes pode estar dentro de um pensamento delirante”. Quem o diz é a psiquiatra Paula Carvalho, a quem Gazeta das Caldas pediu para levantar hipóteses do que poderia ter levado Elias Francisco a cometer os crimes.
O certo é que o assassino era desconfiado e hipersensível às coisas que lhe faziam. É o que se designa por sensitividade e que pode passar a dar lugar à convicção delirante que lhe querem fazer mal e que se estão a aliar contra ele.
“Tudo isso pode provocar uma actividade alucinatória e a comandar determinados comportamentos”, explica Paula Carvalho, que avança a hipótese de Elias Francisco padecer de uma doença mental “que terá facilitado ou até ter estado na origem dos crimes”.
A psiquiatra considera que, se a perturbação tivesse sido diagnosticada e tratada, “os crimes poderiam até não ter acontecido e em vez de se pensar que era um homem mau, seria só um homem doente”.
O mais provável era que Elias Francisco “até sabia que estava a fazer mal, mas era-lhe completamente indiferente”, explica Paula Carvalho. O criminoso até teria consciência que, agindo daquela forma, seria preso em pouco tempo e não teria assim tanta vontade de se matar pois um poço seco não lhe dava garantia de morte, sobretudo quando tinha uma espingarda caçadeira na mão.
Elias Francisco poderia ter uma estrutura de personalidade dentro da linha psicótica (paranoide, esquizoide ou esquizoafectiva, esquizotípica) e naquele dia, achar que tinha a missão de “eliminar” aqueles elementos. Daí ter premeditados os crimes, com os alvos bem definidos.
Para a psiquitra, a própria comunidade “pode não ter percebido o que aconteceu, apesar de intuírem que havia algo estranho”, no comportamento do homem.
Sobre o suicídio na cadeia, Paula Carvalho considera que Francisco Elias “não quis regressar”. E que ao fim de alguns anos “castigou-se, achando que tinha que cumprir aquela pena”. Na sua opinião, “ele fez o seu auto julgamento e a sua decisão prevaleceu sempre. Até ao fim”.
Folhetim sobre o assassinato divulgado nas praças
À época, apesar da dimensão dos crimes, a Gazeta das Caldas não lhes fez quaisquer referências. O que não deixa de ser curioso pois o caso teve repercussão nacional, sobretudo no Diário de Notícias.
Mas o que se passou na Espinheira foi transmitido de boca em boca e até entoado por cegos e aleijados, como era usual na época, nos locais públicos com mais movimento (nas Caldas era na Praça da Fruta e na Praça do Peixe).
Eis uma dessas ladainhas que conta os crimes da Espinheira.
Junto às Caldas da Rainha
No lugar da Espinheira
Um tresloucado atrevido
Matou cinco e algum ferido
Com a espingarda caçadeira
O nome da freguesia
Onde se deu a avaria
Foi em Serra do Bouro
Foi Elias da Costa
Que depois da mulher morta
Ainda foi com desaforo
Com a mesma caçadeira
foi encontrar numa eira
o seu primo a trabalhar
Foi morto o Anacleto
E vai a casa perto
Maria Baltasar matar
Depois dos crimes perfeitos
Andou 50 metros
Foi a uma barbearia
Para matar o seu sobrinho
Joaquim Neto Rainho
Com a mesma pontaria
Francisco David malogrado
Também foi assassinado
Por esse homem cruel
E esse mesmo traidor
Mata o cunhado: que horror!
José Júnior Ezequiel.
As três vítimas são família,
foi devido a umas partilhas
de umas propriedades
O Elias tresloucou
Cinco pessoas matou
Que forte barbaridade
A morte da sua esposa
foi outra coisa horrorosa
Outro crime tão cruel
Ele a todos dizia e há muito
que ela lhe era infiel.
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