
Joel Ribeiro
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A última intervenção de modernização da empresa foi concluída já este ano e consistiu na duplicação da capacidade de armazenamento na sede, na zona industrial de Óbidos, no Alto das Gaeiras. O novo pavilhão dobrou a área do armazém, para um total de 7.500 metros quadrados e permitiu aumentar a capacidade de stock para 8000 referências e 6000 paletes.
“Investimos para crescer”, refere Carlos Barros, administrador da Barros & Moreira (B&M). Um crescimento que não é só físico pois passa também pelo aumento da capacidade de resposta. “Um bom serviço passa por ter stock para responder de forma rápida e eficaz às encomendas”, explica o empresário. Esta é uma vantagem comercial em relação a fábricas que apenas produzem sob encomenda e que têm, por isso, tempos de entrega maiores.
O centro de logística foi também dotado de um avançado sistema informatizado de gestão inteligente dos stocks. É um armazém semi-automático e basta uma pessoa para o controlar. Um sistema de código de barras controla a entrada das referências e faz com que a sua saída coincida com as encomendas. Os próprios empilhadores são parcialmente conduzidos de forma automática, através de laser, o que permite que o operador se concentre em exclusivo na encomenda que está a preparar e se minimizem incidentes.
“É um sistema que não existe no nosso sector. Estamos inclusivamente a servir de banco de ensaio para empresas de informática na elaboração deste tipo de sistemas”, sublinha Carlos Barros.
Por outro lado, este novo pavilhão permitiu concentrar a plataforma logística da empresa, que se encontrava dispersa por vários armazéns alugados.
As obras mais recentes dotaram também a sede da empresa de melhores condições para os colaboradores, que agora dispõem de cantina, sala de convívio e um gabinete médico onde podem ter consultas gratuitas. A empresa aposta numa política de benefícios para os colaboradores e constituiu uma série de parcerias para oferecer descontos em serviços como oftalmologia, saúde oral, ginásio ou explicações.
Carlos Barros defende que é missão da empresa retribuir em termos sociais, tanto a nível interno, como a nível externo. Apoia associações e no Natal de 2015 ajudou uma família carenciada, proporcionando uma remodelação da habitação e alguns bens.
DOS TRÊS AOS 150 COLABORADORES
A B&M foi fundada em 1997 por Marco Barros, que tinha já toda uma carreira neste ramo de negócio – o que viria a ser fundamental na evolução da empresa – e pelo filho, Carlos Barros, actual administrador. Trabalhavam em importação e distribuição de torneiras, móveis de casa de banho, cabines de duche e artigos de canalização, sobretudo para o mercado nacional, mas também já com uma pequena quota de exportação. O primeiro armazém tinha cerca de 200 m2. Para além de pai e filho, trabalhava na empresa mais uma pessoa, no escritório. No primeiro ano atingiu um volume de negócios de 43 mil contos (215 mil euros).
No início representava diversas marcas, principalmente espanholas e italianas. O desenvolvimento do projecto levou, contudo, à criação de marcas próprias. Lançou o seu primeiro produto no mercado há 15 anos. Foi nesta altura que se começou a reescrever a história da B&M.
O sucesso da marca própria, assente em produtos importados de fornecedores asiáticos, fez com que abandonasse a representação de terceiros. Mas um dos segredos do sucesso da empresa é a forma como se foi adaptando às necessidades e exigências do mercado. E essa adaptação levou, há cinco anos, a enveredar pela industrialização.
Foram constituídas quatro unidades fabris. Uma na sede da empresa, para fabrico de torneiras. Outras duas estão num raio muito próximo. Uma produz cabines de duche, a outra móveis de casa de banho. A quarta unidade, uma fábrica de injecção de plásticos, localiza-se em Aveiro, embora os planos sejam trazê-la para a região, o que pode iniciar-se ainda este ano.
Destes tipos de artigos, a B&M já produz praticamente 100% do que vende e o objectivo é atingir o pleno. “O que pretendemos é controlar cada vez mais toda a cadeia de valor nos artigos que comercializamos”, sustenta o empresário. A empresa só não tem planos de fabricar as louças sanitárias.
O processo de industrialização representou um investimento gradual nos últimos quatro anos, que ascendeu a cerca de quatro milhões de euros. Neste processo a empresa cresceu também em número de colaboradores, de 60 para 150.
Este investimento deixou a empresa preparada para continuar a crescer. Também ao nível da produção existe um elevado nível de automação, com o fim de aumentar a produtividade. “Temos uma capacidade instalada muito superior ao que estamos a produzir neste momento, em qualquer uma das unidades”, revela Carlos Barros.
Nestas fábricas estão implementados modelos de produção flexíveis, com soluções à medida do que o mercado exige. “Temos capacidade para parar uma fábrica e produzir um artigo diferente”, refere o empresário.
É que para além de produzir as suas próprias marcas, a B&M aposta em produzir para outras empresas, o que obriga a essa flexibilidade.
FALTA MÃO-DE-OBRA ESPECIALIZADA
A empresa é uma ilha na região, tendo em conta que a indústria neste sector se localiza principalmente no Norte do país. A decisão de manter o funcionamento no Oeste é puramente emotiva, pelas raízes do empresário. Mas traz custos. A causa é não haver mão-de-obra especializada, nem cultura industrial nos recursos humanos existentes, o que se deve à falta de indústria na região. A solução é formar.
“Era fácil e mais rentável mudar as fábricas para Aveiro, mas em todo o lado existem pessoas válidas, temos que formar e aproveitar as pessoas que achamos que têm essa cultura”, defende Carlos Barros. O empresário acrescenta que o maior desafio é “encontrar colaboradores que entendam que a produção tem que ser moderna, gerida à base de tecnologia, e que temos de olhar para a produtividade continuamente”.
Criar essa cultura demora tempo. “É um processo de melhoria contínua. No caso dos plásticos a solução foi mesmo trazer pessoas de Aveiro – onde essa cultura existe porque é um cluster industrial – para formar pessoas durante o tempo necessário”, sublinha.
O envolvimento com as instituições de ensino é também importante para dar a formação necessária ao pessoal e o Cenfim tem sido, nesse capítulo, um parceiro importante.
Tirar a produção do país não é, de todo, opção para melhorar essa produtividade. “O que estamos a fazer é precisamente o inverso, o que subcontratávamos no estrangeiro queremos produzir cá”, diz Carlos Barros. E a razão para o fazer é a qualidade.
Depois de ter estado alguns anos vocacionada para os PALOP em termos de exportação, o target é cada vez mais o mercado europeu e este não consome grandes quantidades. “Consome é diversidade e serviço e só comprando em países como Portugal é que o conseguem, porque a indústria asiática está mais vocacionado para a quantidade”, conta Carlos Barros. E essa foi uma das razões para a aposta na produção própria.
REFORÇAR A PRESENÇA NA EUROPA
A B&M facturou em 2015 cerca de 10 milhões de euros. As exportações representam cerca de 35% do volume de negócios.
O mercado nacional continua a ser o mais preponderante, o que Carlos Barros atribui ao serviço que acompanha a produção. “Temos uma frota própria atípica no sector [com mais de 20 carros só para distribuição], somos capazes de abordar muitas casas do sector da canalização e decoração do banho e temos produto para entrega, o que nos permite ter esta quota”, explica.
No entanto, embora haja margem para crescer a nível interno, é nas exportações que a empresa aposta mais forte para se consolidar nos próximos dois anos. Nessa altura, a B&M espera escoar para o estrangeiro metade da produção.
A empresa marca presença actualmente em 30 países, com forte presença no mercado africano. Mas a aposta de expansão passa pelos territórios europeu e asiático. “São mercados estimulantes”, considera o empresário. A Europa pela valorização do design e o Médio Oriente pelo volume de trabalho que proporciona.
A empresa detém quatro marcas próprias. A BM e a BMK comercializam acessórios de casa de banho e canalização, a Ctesi está vocacionada para as torneiras e a Bellian é dirigida para o banho e hidromassagem, para o mobiliário e para as louças sanitárias. Estas marcas têm uma gama completa e transversal, desde o médio baixo à gama alta.
“Cobrimos todos os segmentos do mercado excepto o primeiro preço, esse é impossível. Apostamos na qualidade e no serviço e claramente não podemos ser a empresa mais competitiva do mercado”, refere Carlos Barros.
Ao longo destes quase 19 anos de existência, a empresa tem tido um crescimento constante e sustentado. Apesar da crise no sector da construção ter levado ao encerramento de várias empresas do mesmo sector, Carlos Barros diz que a B&M conseguiu passar a crise “sem dar por isso” em termos de resultados.
“Obrigou a B&M a reinventar-se. Percebemos que era preciso criar valor, daí o investimento na indústria e na exportação. Apostámos forte no design, produtos que são desenvolvidos de raiz pela empresa”, sustenta.
REFERÊNCIA EM DESIGN DE TORNEIRAS
Os produtos são desenvolvidos pelo departamento de design gráfico e industrial permanente da empresa, que tem entre quatro e seis elementos. Existe ainda um gabinete de investigação, desenvolvimento e inovação, que é responsável pela passagem do desenho para a produção, o que nem sempre é fácil por serem produtos fora do comum, principalmente as torneiras. Este departamento também tem como missão criar a automatização dos processos de fabrico.
O empresário realça o envolvimento que a empresa tem tido com as forças vivas da região ao nível do design, patentes em duas torneiras desenvolvidas com a ESAD que foram para fabrico, que num concurso internacional receberam o ouro e a prata e foram receber a Itália.
A Barros & Moreira tem também preocupações ambientais nos seus produtos, o que é um factor de decisão cada vez mais importante, sobretudo na Europa. As torneiras são equipadas com sistemas de poupança de água. Nos móveis sanitários conseguiu recentemente a certificação FSC, que comprova que as madeiras são provenientes de florestas de abate controlado. “Somos os primeiros em Portugal com esta certificação e tudo isto é investimento”, refere Carlos Barros.
Prémio Ctesi 2016 em parceria com a Ordem dos Arquitectos
A Barros & Moreira lançou em conjunto com a Ordem dos Arquitectos o Torneiras Ctesi 2016, com o qual pretende promover a criação de novas séries de torneiras misturadoras, de design contemporâneo e original que serão acrescentadas ao seu portfolio.
Neste concurso, os participantes devem apresentar uma proposta para um conjunto completo de torneiras misturadoras (banho, lavatório, bidé, banheira e duche), que seja inovador mas não descure a exequibilidade e economia de fabrico e produção.
As equipas podem ser compostas por profissionais de diferentes áreas, mas têm que ser lideradas por um arquitecto inscrito na Ordem.
O júri é composto por dois arquitectos, Manuel Graça Dias e Nuno Mateus, e por um representante da B&M. O vencedor terá direito a um prémio monetário de 4.000 euros, correspondente à aquisição do direito de autor. Poderão ser indicadas, ainda, até três mensões honrosas e caso a B&M entenda que esses projectos têm potencial para produção, será negociada com os autores a aquisição desse direito.








