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Arquivos do saber

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Joana Beato Ribeiro
Arquivista

A viagem pelos arquivos que prometi, não podia, na presente edição, deixar de fazer uma pequena incursão pela Ciência. E, felizmente, os arquivos que tenho trabalhado, além da ciência arquivística, têm-me levado a descobrir a história de várias áreas científicas e da produção do conhecimento, incluindo-se entre os arquivos do saber. Este tem sido o nome adotado para designar conjuntos documentais que guardam a produção científica dos investigadores e, por isso, a forma de fazer Ciência, incluindo os aspetos identitários e de construção da comunidade científica.

Foi pela atividade médica, que Fernando da Silva Correia foi colado à Ciência. No entanto, foi também pela mão da História reconhecido como investigador pela academia e pelo estado português, ao ser equiparado a bolseiro do Instituto para a Alta Cultura (1939-1944). O seu arquivo inscreve-se com facilidade na proposta anterior, pois através dele define-se um conjunto de práticas associadas à sua produção científica e a comunidade em que o investigador estava inserido.

Essa investigação financiada, a que interessava particularmente a profunda remodelação da assistência em Portugal, associada a uma intervenção oficial, promovida pela coroa, em que a rainha D. Leonor foi “a precursora da assistência social moderna”, constitui o exemplo mais completo de um projeto passível de reconstituir, desenvolvido por este médico. Os seus relatórios periodicamente enviados ao Instituto, dão conta dos avanços: as fontes e bibliografia consultada; a solicitação de apoios para aceder, no estrangeiro durante a II Guerra Mundial, a documentos fundamentais; ou a preparação de obras, contribuindo para a sua missão de “vulgarização” de fontes.

Ao escrever esta obra, Fernando da Silva Correia assumiu-se abertamente positivista e caraterizou o campo historiográfico em que trabalhava. Encarava a recolha de “provas” como uma das “dificuldades” da disciplina, pois considerava que “os factos históricos” podiam estar impressos em diferentes documentos ou objetos patrimoniais. E, ainda que considere Origens e formação das Misericórdias portuguesas (1944 e 1999) – principal fruto da investigação mencionada – uma obra de história, foi em revistas de especialidade médica, como a Ação Médica, que foi publicando trabalhos sobre o tema.

Por fim, é também através da correspondência dos seus leitores, que é possível perceber a receção da obra, entendida por alguns como “monumental e de tanto saber”, tendo recebido uma menção honrosa do prémio Alexandre Herculano, atribuída pelo Secretariado Nacional de Informação. Hoje é lida, maioritariamente, por medievalistas, mas a verdade é que, juntamente com muitos outros trabalhos sobre a rainha D. Leonor, desvenda o papel de Fernando da Silva Correia na reabilitação da nossa fundadora, contribuindo para que, este ano e na historiografia mais recente, tenha sido tão celebrada. Esta foi uma das ideias que defendi no Congresso Internacional “O Mecenato da Rainha D. Leonor. Arte, Poder e Devoção no V Centenário da sua Morte”, que passou pelas Caldas no passado dia 29 de novembro.

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Edição #5625

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