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As Cidades Ocultas

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Paula Ganhão
Gestora de Projetos

Em dezembro, as cidades acendem-se como se temessem o escuro. Mas há quem fique, mesmo assim, na escuridão. As ruas brilham, os centros históricos tornam-se cenários fotogénicos e os comerciantes aguardam que as luzes puxem pelas vendas como quem acende uma vela a pedir sorte. Eu olho para esse brilho e penso sempre na sua ambiguidade: a luz que revela e a luz que esconde.

É nessa claridade excessiva que se disfarçam as cidades paralelas — as que não aparecem nas fotografias. Estão nas portas onde não há coroa de Natal porque falta dinheiro, nas janelas apagadas de quem vive só, nos bancos de jardim onde alguém passa a noite embrulhado em silêncio. Enquanto a cidade oficial desfila em avenidas iluminadas, a outra sobrevive nos interstícios que ninguém quer ver.

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Nesta altura do ano, a generosidade ganha palco entre campanhas e jantares solidários. E ainda bem. Mas há algo delicado nesta coreografia da bondade sobre uma cidade que nem sempre ilumina todos os cantos. O Natal parece, por vezes, uma luz que toca apenas alguns, enquanto muitos permanecem à sombra da sua claridade.

A pobreza, mesmo assim, não desaparece com um cabaz; apenas se adia por uns dias. Há quem leve para casa a sopa quente da noite e, ainda assim, durma num quarto sem aquecimento, ou volte no dia seguinte para a mesma fila. A boa vontade aquece a noite — mas não muda o inverno. Sem estruturas, a caridade consola sem transformar.

E há ruas onde dezembro não traz pausa, só mais pressa. As mesmas pessoas atravessam a chuva para trabalhar em turnos longos, embrulhadas em horários que não conhecem vésperas nem ceias. Enquanto a cidade celebra, há quem conte moedas, quem adie consultas, quem apague a árvore antes mesmo de a montar. Nessa altura do ano, a desigualdade não muda de rosto — apenas fica mais visível.

E ainda assim, há clarões que não vêm dos postes. A vizinha que leva sopa ao idoso do terceiro andar. O voluntário que insiste em bater à porta de quem desistiu de ser visto. O desconhecido que pergunta, com desconforto sincero: “Está tudo bem?”. Pequenas lanternas humanas que, juntas, desenham caminhos antes invisíveis.

A verdadeira iluminação urbana nunca esteve nos cabos nem nos LED. Está nos encontros que a cidade permite, nas escolhas que faz, nas prioridades que assume. Há cidades que brilham. E há cidades que veem.

Talvez dezembro nos sirva para isso mesmo: atravessar a cidade visível e ter coragem de entrar na cidade oculta. A questão é saber se, quando as luzes se apagarem, continuaremos dispostos a olhar.

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