
Tal como lembra o Evangelho de S. João na Bíblia («No princípio existia o Verbo») a Poesia cruza num «desengonçado coração» a herança que todo o poeta recebe dos seus maiores («Biedma, Celan, dois Ruis, dois Fernandos, um Alexandre») como um testemunho na corrida de estafetas que toda a Poesia acaba por ser. A solidão pode ser um desafio e um encontro («Se me deres a tua solidão eu dou-te a minha companhia») mas nem toda a solidão passa no crivo do poema. Por isso, falando com os outros, o poeta adverte-se a si mesmo: «Não desenhes imagens bonitas à conta da solidão. / Deixa a solidão consigo própria, como é justo deixar-se. / A solidão não é poética. É apenas solidão».
E, tal como «às vezes é um insecto que faz disparar o alarme», um livro não é pequeno só porque tem 41 páginas. Tamanho não quer dizer qualidade; basta ler o arranque do poema «Estação do Oriente» – «Não te afastes com insolência como fazia a / mais desejada rapariga do Pátio do liceu / Não tenhas medo. Em frente. / Apanha o metro para a estação do Oriente.»
(Editora: Companhia das Ilhas, Direcção: Carlos Alberto Machado)
José do Carmo Francisco





